sexta-feira, 27 de março de 2020

o pássaro da vida

"Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas 
Por igual 
como os pássaros enxergam". 

Manoel de Barros

imagem: arquivo pessoal

Todos os dias no  mesmo horário, às 5h, ouço o seu canto suave e com a precisão métrica que o distingue dos demais. 
Às vezes nosso encontro se dá quando eu vou deitar, ou quando estou a acordar, mas é de uma pontualidade que supera qualquer relógio suíço.
Seu trinado não é um canto comum, não se parece com nada que eu já tenha escutado. 
Não sou uma ornitóloga, é bem verdade, nada percebo de pássaros, mas aquele canto não é de pardal, bem-te-vi  ou qualquer outra espécie de fácil reconhecimento, até mesmo pelas criaturas como eu, ignorantes ao tema. 
Mas o que ele tem de especial? 
Tudo e nada. 
Mas é seu o chilreio que me faz correr da janela do quarto à sacada, em busca da sua materialidade, do seu garganteio que enche meu coração de paz e esperança. 
Com a natural curiosidade de quem está diante do maior advento do Planeta e estou, a vida acontece apenas uma vez e todos os dias, busco compreender em mim o seu significado nesse instante das nossas existências. 
Cada manhã reanimamos um ao outro. 
Ainda que ele não saiba da sua vocação para me alegrar, num gesto quase de oração, fecho os olhos e através da minha sintonia com o Cosmos, emito ondas da necessidade da sua permanência em minhas manhãs, nascentes de uma outra eu, cotidianamente.
Uma melodia que me diz de fé, de liberdade e leveza. 
Indiferente (?) às agruras do mundo e da humanidade, ele aceita a sua condição de voar, cantar e seguir, se equilibrando onde pode,onde dá, como se nada no mundo fosse mais importante do que simplesmente cantarejar e preencher os nossos dias com as mais melodiosas notas de confiança e amizade, como se fosse a nossa senha, o nosso pacto para que depois desse ritual, o dia e a vida finalmente começarem.
Ele, o pássaro da vida!
A Natureza é sábia, têm seus mistérios e lições.
Hoje, só por hoje eu queria ser essa liberdade pousada a poucos metros da minha vista.

Olinda, XVII - XXX - MMXX

Caetano Veloso, Asa, asa.

quinta-feira, 26 de março de 2020

e vi a poesia no cão

“Eu sei falar uma língua que só o meu cachorro, 
o prezado Ulisses, meu caro senhor, entende.
 É assim: dacoleba, tutiban, ziticoba, letuban [...]
Isso quer dizer uma coisa que nem o imperador da China entenderia?”.

Clarice Lispector em Um Sopro de Vida 

obra: mário nunes
olhei de soslaio ao longo da rua
e vi uma sombra em movimento
acocorado
como se, se arrastasse furtivamente
carregando o peso da existência

se assemelhava a um homem
mas era um cão
um bicho-cão
andando pela rua vazia
cheia de silêncios

e da minha curiosidade na sacada
o bicho-cão seguia
como se fosse o dono da rua
como se fosse o dono de tudo
como se fosse o dono do mundo

farejava a vida com curiosidade
demarcava sua territorialidade
urinando nos postes
na calçada
e no meio-fio

em seu focinho
trazia a história da humanidade
o acúmulo das descobertas
as dúvidas
e a liberdade

e vi a poesia no cão

--

Olinda, XXVI - III - MMXX

Lester Young, Prisoner of Love



domingo, 22 de março de 2020

da transição

"a cada cinquenta e dois anos o universo acabava, 
morriam os deuses, 
os templos eram destruídos, 
cada coisa celeste ou terrena mudava de nome"

Italo Calvino em Sob o sol-jaguar. p. 41

imagem: el toro, painel 5, pablo picasso

pelos caminhos labirínticos corriam
os mamutes
os touros
os bisões
os porcos-espinhos
e todas as feras desconhecidas
que habitavam a caverna
da minha memória,

uma caverna platônica
cheia de projeções
imagens
de tempos ancestrais
de tochas de fogo
bandeiras tremulantes
refletindo o brilho de todas as estrelas,

sonhos estendidos

como roupas nos varais.

alheios e indiferentes

às eminências
aos deuses
ao tempo
ao carvão
ao caos
à mudança das coisas

de besta à criatura

os animais seguiam trotando.

--


Granada, IX, MMVII


Lenine, Tubi, Tupi

quinta-feira, 19 de março de 2020

do poder da minha solidão

"A presença de uma companhia fixa-nos no tempo, que é o presente. 
Mas quando se está só, quando se aceita o fato e o destino de se estar só, 
o passado, o presente e o futuro se fundem"

John Steinbeck en Viagens com o Charley. p. 123
   imagem: arquivo pessoal, Porto, novembro, 2019 

ninguém sabe o poder da minha solidão
não, ninguém sabe.

da independência nos meus afetos
da variedade dos meus gostos.

da força dos meus desejos
da delicadeza dos meus gestos

da leveza no meu caminhar
da largueza no anonimato.

da liberdade da minha voz
da satisfação desconhecida.

das folhas soltas
dos fios tênues.

das inesperadas linhas
que tracejam surpreendentes encontros

e me conduzem rumo aos meus sonhos.

---

Espaço aéreo português, I - I - MMXIX

Nina Simone, Solitude

domingo, 15 de março de 2020

entre a fundura e o poço

"Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
[...]
onde foi maçã
resta uma fome"


João Cabral de Melo Neto

lençóis maranhenses, imagem colhida na internet, desconheço a autoria

entre a fundura e o poço
tem o tempo
tem o deserto
tem a areia
e as mudanças do vento

entre a fundura e o poço
tem o tempo
o deserto do deserto
planícies cobertas de sal
e um sol ofuscante no céu

entre a fundura e o poço
tem o tempo
tem a história
tem o sonho
e os desperdícios

entre a fundura e o poço
tem o tempo
as serpentes e os lagartos
um coração em alvoroço
e um oásis em algum canto

--

XV - III - MMXX

Charles Aznavour, Non je n' ai rien oublié



quarta-feira, 4 de março de 2020

a janela

"talvez o eu
 não seja mais do que a própria janela
 através da qual o mundo  contempla o mundo"

Italo Calvino em Palomar. p. 102
 imagem colhida da internet, desconheço a autoria


Só ao tomar a última dose
Percebi que
Muito do que me move
É saber que tu és caminho
O abraço onde eu me aninho
O riso que me acolhe
A janela

Que abre todas as cortinas da manhã!

Nina Simone, Wild Is The Wind




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

fábula

"A despedida é uma dor tão suave que
te diria Boa Noite até o amanhecer."

Romeu e Julieta, William Shakespeare

imagem: danae, gustav klimt
como numa fábula
a partida é feita de promessas
e guardo toda a conversa
num porta jóias de marfim 

assim carrego o nosso desejo
esse tesouro sagrado
consagrado ao acaso
que casualmente não existe

e ponho-o na cabeceira da cama
é quando acontece o milagre 
a caixa se abre
pintassilgos, melros, borboletas

fadas, gnomos e outros entes imaginários
que povoam a criação
dançam, brincam, amam
plenos de satisfação

e todo o universo encantado
festeja ante o anunciado
que logo ao raiar o dia
na algazarra da vida

nascerá uma poesia

--

Olinda, IV - III - MMXIV

André Mehmari e Ná ozzetti, Because



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

adeus, estranho!

"Fique de vez em quando só, 
senão você será submergido. 
Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa".

Clarice Lispector

imagem recolhida da internet, desconheço a autoria
nos descontrolamos
e caímos no abismo
dissemos adeus
aos sonhos
ao amanhã
dissipamos o futuro
fechamos as cortinas
e desligamos as luzes

nos descontrolamos
e cessamos o tempo
quebramos o acordo
esquecemos de ontem
nos perdemos nas palavras
nas cláusulas
desistimos

nos descontrolamos
e houve uma enxurrada
de palavras duras
palavras cruas
palavras sem nexo
palavras ásperas
palavras nuas

nos descontrolamos
amassamos as aflores
riscamos as páginas
e apagamos a nossa história
demo-nos as costas
e partimos
foi um adeus triste
um adeus vazio
um adeus cortante
um adeus cheio de indiferença
adeus!

não sou para ti
adeus!
não és para mim
adeus!

não nos conhecemos mais
adeus, estranhos!
silêncio trágico
estabeleceu-se o infortúnio
o inevitável!
o que não se pode mover
o que não se pode mudar
adeus!

adeus para nunca mais
adeus!

Porto, VIII - VIII - MMXIX

Paralamas do Sucesso, Ela Disse Adeus

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

o escuro do silêncio

"O que saberás de mim é a sombra da flecha que fincou no alvo"
Clarice Lispector

imagem: emil nolde

só saberás de mim 
o escuro do silêncio
o adeus pronunciado com o olhar

e depois
só a passagem do tempo
naquele momento

que os meus pés cruzaram
a esquina da tua vida
sem olhar para trás

ultrapassamos o limite da espera
terminou o nosso tempo
um tempo que nem tivemos

de instantes e instantes
eternizei meu nunca mais
liberdade: eis meu presente
´
Olinda, III - II - MMXX

 Billie Holiday, I´ll Be Seeing You

domingo, 2 de fevereiro de 2020

quanto mais envelheço

"Oh, a riqueza de envelhecer, quanto mais se envelhecia,
mais desconhecido era o passado"
Clarice Lispector
la vie: marc chagall


I.
quanto mais envelheço
quanto mais me aproximo do fim
tenho mais consciência do tempo
mais esqueço do começo
menos lembro de mim

II.
quanto mais envelheço
descubro o essencial  
faço da sombra a luz
e das dores
o sal

III.
quanto mais envelheço
mais silencio os desejos
me distancio do confronto
que a poucos seduz
natureza x cultural

IV.
quanto mais envelheço
percebo a minha voz
num tom gutural
aquele sentimento rouco
que brota das entranhas do mundo

V.
guardado
quase escondido
monocromático
na cor crua
num canto qualquer do quintal


Olinda, XXVII - I - MMXIV

Otto, Crua




quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

a décima quinta

"Quero escrever movimento puro"
Clarice Lispector
the green violonist: marc chagall

Quero a décima quinta nota musical!
Como ela seria? Como se chamaria, como seria a décima quinta nessa escala? 
Que som brotaria de uma nova nota que por não ter sido (ainda?) descoberta, vaga por aí em algum ponto, à espera de  que  num movimento inusitado, num movimento impensado, em um gesto inesperado, num desenho desconhecido, um maestro ou um músico a invente, ou a resgate do limbo, do obscuro e da não descoberta?
Qual seria o seu sonido, o seu sabor, qual seria sua diástase?

Olinda, XXVIII - I - MMXIV

Beethoven - Symphony No. 1

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...