Todas as coisas têm o seu mistério,
e a poesia é o mistério de todas as coisas.
Federico García Lorca
imagem: arquivo pessoal. Palácio de Alhambra, Granada (ES)
como se esquece o vivido
se a memória
como uma caixinha de guardar
guarda as experiências?
esquecer é fingir
que nada aconteceu
que não se viveu?
o que é esquecer?
como se esquece?
fechar os olhos
e desaguar
feito água
como se esquece?
fechar os olhos
e desaguar
feito água
jogar fora
como luz
no tempo
como luz
no tempo
soltar ao vento
a vida acontecida
a lembrança
e todo o sentimento?
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XIX - IV - MMXXVI
Eu te amo - Chico Buarque
Boa dia!
ResponderExcluirEste poema toca numa inquietação universal com uma delicadeza quase filosófica. Ele não procura respostas fáceis, antes, desmonta a própria ideia de “esquecer”, revelando-a como algo ambíguo, talvez até impossível.
A metáfora da memória como “caixinha de guardar” é particularmente feliz: simples, mas carregada de significado, pois sugere que tudo o que vivemos encontra um lugar, mesmo quando tentamos ignorá-lo. Ao longo do poema, as perguntas sucedem-se como ondas, criando um ritmo reflexivo que envolve o leitor e o convida a confrontar as suas próprias lembranças.
Há também uma tensão subtil entre o ato de esquecer e o de transformar, como se, no fundo, esquecer não fosse apagar, mas deixar fluir, “desaguar”, “soltar ao vento”. O poema termina sem fechar a questão, e é precisamente aí que reside a sua força: permanece em aberto, ecoando no pensamento de quem lê.
Um texto sensível e contemplativo, que dialoga com a memória como parte inevitável daquilo que somos.
Parece Simples, mas não é...
Amiga de tantos anos deixo um beijo
;)