quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

uma semana e um dia


"Para os teus beijos, sensual, flori! 
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos, 
Só me exalto e sou linda para ti"! 

Florbela Espanca em A Tua Voz na Primavera

imagem colhida na internet, desconheço a autoria
Para Edna e Rui
Uma semana e um dia
É o tempo que conto
Desde aquele anelo que me deste
Em Santiago de Compostela
Pedra incrustada
No desenho filigranado
Em prata e emoção

Uma semana e um dia
É o tempo que conto
Do brilho refletido
Na íris castanha
Dos olhos teus
E meus

Uma semana e um dia
É o tempo firmado
Em dois seres apaixonados
Quando nossas bocas em risos
Descobrem segredos silentes
Guardados no coração

Uma semana e um dia
Foi o tempo que a vida quis
E em sábia ponderação
Sedimentou o caminho
E enfeitou com flores brancas
Indicando a direção

Fomos caminhando devagar
Passos tímidos e delicados
Do percurso da memória desviados
Uma composição de histórias
Textos fragmentados
De uma trajetória que já não se sabe mais

Uma semana e um dia
Foi o tempo da alegria
Na estação primaveril
No interstício do sim e do não
Quando naquele instante
Ambos confiantes
Nos demos as mãos.

--


Porto,  XIX - III - MMIX

Paulo Gonzo, Sei-te de Cor








terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

um verso vivo

"Apenas com os meus
dedos
devagar te estudo 
Descrevendo na minha 
a tua pele"

Maria Teresa Horta em Meu labor insano

imagem recolhida na internet, desconheço a autoria


um verso vivo
(cunhado)
brasa na carne
que descreve um encontro
carvão e fogo

labes incandescente
abrasando o dia
incendiando a pele
(explosão)

All For A Reason, Alessi Brothers



quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

engodo

"Realmente não me importa ter que, um dia, começar tudo de novo.
Estou me complementando aqui, eu acho, e depois não sei.
Acho que a gente deve procurar viver o presente".

Caio Fernando Abreu in Cartas

                              imagem: Ismael Nery

Por dentro acontece um turbilhão, milhões de sensações novas, antigas, renascidas das vísceras - quase calcificadas, de tanto desistir de ser, por compreender a desnecessidade da exposição -, causadas pelo inesperado de um cataclisma.

Por fora uma aparente tranquilidade, já que exteriorizar o alarde interior não altera o curso de nada. Procede recorrer à uma pergunta banal: como pode caber dentro de alguém um sentimento maior que o mundo? Uma medida que não atende à nenhuma lógica matemática?

Mas existe, intangível e inexplicável, talvez uma grande ingenuidade, um devaneio aos olhos de quem não consegue ser a pessoa que aparentemente se apresenta, ou que desperta em outrem uma ilusão, que desorganiza calculadamente uma forma de existir, especialmente porque não passa de um engodo, uma falcatrua emocional.

É fácil perder-se, mas é do mesmo modo possível reencontrar-se, reencantar-se, posto que é uma qualidade que existe dentro do ser, que - à revelia da vontade, da cobardia de muitos aventureiros com a emoção alheia -, sobrevive e aprende com os próprios equívocos.

Ser prisioneiro de si é tão penoso e fatal quanto ser prisioneiro de alguém, o que se constrói nessa zona de dependência? 
Uma indagação para a qual nem sempre se têm resposta. 
Há sempre mais do que se sabe, do que se diz, nesse grande e inextinguível mistério, a que alguns chamam sentimento, paixão, amor; para alguns aprisiona; para outros, liberta. 

O ideal seria, repara bem, eu disse ideal, não o possível - existe uma grande distância entre um e outro -, ausentar-se de si, sair de dentro de si, enxergar-se de fora, e observar cada gesto, cada atitude, como quando se olha e atenta para outra pessoa qualquer, e aplicar as sugestões que certamente daria aquele que estaria fazendo, vivendo situação semelhante à sua.

O difícil é conseguir.
Falar, criticar, julgar, condenar, é suave e vulgar para quem o faz; mas custoso e penoso para quem é o alvo da censura. Todo mundo é um pouco vítima, de si e dos outros.

Olinda, XXX - I - MMXIV

John Coltrane, A Sentimental Mood.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Era só mais um carnaval

"o que me mantém vivo 
é o risco iminente da paixão 
e  seus coadjuvantes, 
amor, ódio, gozo, misericórdia” 

Rubem Fonseca em Histórias de Amor,  p. 33

imagem: arquivo pessoal

Era carnaval.
Já antes da quarta-feira de cinzas
o amor jazia no asfalto.

Misturado
aos confetes,
as serpentinas,
aos papéis rasgados,
aos documentos perdidos,

as latas descartadas,
aos cacos de vidros
ao caos de vidas.

Ali também estavam as purpurinas esmaecidas,
amanhecidas,
figurantes do tempo,
de um futuro distante,
que perdeu o brilho.

Na falta de tato,
na complexidade do cotidiano,
nas banalidades,
nas desimportâncias
e nas desistências.

Um tempo todo carnavaliza(n)do,
em todas as instâncias,
em todas as querências,
um tempo de máscaras
e
atuações histriônicas.

Era só mais um carnaval
e nem precisou da quarta-feira de cinzas
para anunciar seu final.

--

Recife, XIII - II - MMXVII

Hino dos Batutas de São José,  Babi Jaques Os Sicilianos e Maestro Spok.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

o que você deixou de ser

"[...] Desamarre os laços inúteis
os nós do que não serve mais
desamarre o barco do cais
os nós das janelas
e então deixe que o vento..."

Roseana Murray em Receita de de desamarrar os nós


imagem: arquivo pessoal

"O que foi que você deixou de ser, depois que cresceu"?

Não abra mão do seu impulso interior, apenas escolha a melhor decisão para cada momento. Mantermos a nossa essência, a nossa identidade, em um mundo caótico, confuso e que insiste em nos homogeneizar, não se configura tarefa simples, mas é possível.

É só não esquecermos as nossas raízes,  quem somos e de onde viemos.Insistir para e com o bem, até o infinito, é um bom caminho.

Exercer a bonomia por mais desafiador(a) que seja, o seu resultado beneficiará a todos nós, é global, universal.

Mas também não  será o fim do mundo, se acontecerem os tropeços nessa jornada, faz parte da caminhada.

Tempo e espaço, são para além de conceitos necessários e apreensíveis: precisamos deles para as nossas vivências e, as nossas lições empíricas...

Olinda, MMXII

O Que é, O Que é, Gonzaguinha

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

dias de outono


"A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata.“

Virgínia Woolf

imagens: arquivo pessoal

Sentou-se em um banco, na praceta defronte à clínica, acompanhada da Virginia Woolf.
Optou por esperá-lo fora do consultório, até que atendesse a todo os pacientes.
Queria aproveitar a luz, o vento e o clima outoniço de Lisboa.
Com a chegada do outono, eles sabiam que haveria uma ruptura.
Viveram tudo com intensidade.
A maturidade é um tempo em que se compreende melhor as circunstâncias.
Tinham ciência da distância geográfica que se estabeleceria doravante e, dos projetos profissionais de cada um.
Mesmo com dor, abriram mão dos sonhos e fizeram daquele almoço, um banquete de despedida.
Tomaram um "Delas Freres Crozes - Hermitage Les Launes" (safra 2016), depois café, com "Madeleines" e “Tarte Citron”.
Presenteou-a com chocolates, tomaram água e saíram do restaurante, foram caminhar um pouco. Ainda tinha um sol forte, ele então retirou seu chapéu Panamá da cabeça e o pôs na dela.
Entrelaçaram as mãos e saíram pensativos, flanando pela esplanada, seguiram resilientes até à casa.
No percurso, catava algumas folhas do chão e lhe entregava - porque sabia da sua paixão por elas -.
Logo que entraram no apartamento, ela foi seduzida pela estante que tomava uma sala inteira.
Ficou ali passeando por entre os títulos.
Atento à ela, percebeu o brilho nos olhos quando olhou sua colecção de História da Arte, ouvi-na murmurar:
- Rubens!
Ao mesmo tempo em que deslizava as pontas dos dedos, naquele livro.
Ele então o retirou do meio da colecção e ofereceu-lhe.
Ambos se entreolharam, ela estupefata, ele entre divertido e admirado com a reacção de contentamento dela.
Abracaram-se e mais uma vez, esqueceram o mundo lá fora e o que viria depois desse dia.
Era chegada a hora da partida, pôs seu capacete, entregou-lhe outro, montaram na lambreta e seguiram rumo à estação de Santo Apolónia e ao "novo" futuro.

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Cascais, V - IX - MMXIX

Non Je n'ai rien oublié, Charles Aznavour

domingo, 24 de janeiro de 2021

desejo na pele

"[...] Desfalecer
à pele
do sorriso
Sufocar
de prazer
com o teu corpo
Trocar tudo por ti
se for preciso"

Maria Teresa Horta em Morrer de Amor

imagem colhida na internet, desconheço a autoria

Ela o conhecia não apenas com a alma.

Mas também com o cheiro, com o gosto, com as mãos, com a boca. 

Ela o conhecia com a pele.

Esse vasto órgão que os cobriam,

Eriçavam e com o qual se tocavam.

Era a pele que transpirava à proximidade. 

Era com a pele que se emaranhavam um no outro.

Imergiam um no outro.

Transbordavam.

Era com os poros que eles se respiravam. 

Corpos emaranhados como se tramassem um exótico desenho.

Cheio de sol,

Luz diurna a reluzir o desejo explícito.

Peles  diluídas,

Expandidas nas asas velozes da excitação.

Sim. 

Essa era a voz deles: o sussurro da pele.

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Deusa do Amor, Caetano, Moreno, Tom e Zeca Veloso 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"A hora de viver"

"A hora de viver é um ininterrupto lento rangido de portas que se abrem continuamente de par em par".

Clarice Lispector
imagem: max ernst 

E a vida insiste em me chamar. enfio a cara no travesseiro - como a avestruz encosta o pescoço e a cabeça no chão - para que a luz da manhã que inside no meu quarto não me desperte. 

Inútil porque o barulho do dia que acorda, me acorda também. 

O som das buzinas dos carros, a cortina roçando na janela, num balé soprado pelo vento,  Tupã latindo, os pássaros cantando... Escuto essa sinfonia da alvorada desde às 6:00h, e resisto bravamente em minha cama o sagrado momento de começar o dia.

Mas "lá vou eu em meu eu oval", construir o meu bom dia - se desejares, desejo que construa o seu também - !


Pernambuco, num dia de MMXI

domingo, 27 de dezembro de 2020

No céu, um clarão

"E Deus disse: "Faça-se a luz!" E a luz foi feita. E Deus viu que a luz era boa, e separou a luz das trevas. Deus chamou à luz DIA, e às trevas NOITE". 

Gênesis, 1:3

imagem: arquivo pessoal

Então fez-se um clarão no céu, e um rasgo dividiu o dia, da noite. 

Entre as nuvens de um cinza esmaecido, o inesperado surgiu, e abriu-se em copas o firmamento e, do espelho de águas refletido, emergiu a criação: lixo ressignificado em luxo; cores e magia; luzes e fantasias, era uma árvore de natal no Recife, que anunciava diferentes formas de proteger (a mãe) Gaia, das matérias inorgânicas que produzimos como também da nossa ignorância. 

Consciência, atitude e assunção, sejamos resonsáveis pelas nossas ações, pede a terra que agoniza. 

Mudança de pensamento e comportamento, transformemos  nossa postura, antes que o Planeta morra, não esqueçamos: a extinção é irreversível, sem a natureza, não existimos.

Pensemos mais, vamos agir mais, em 2021, sejamos melhores para nós mesm@s!


Árvore de natal feita de garrafas pet e cedês "piratas", nas águas do Rio Capibaribe, um dos tantos que corta a cidade do Recife.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

o coração batendo no mundo

"Fico às vezes reduzida ao essencial, 

quer dizer, só meu coração bate".


Clarice Lispector


imagem: arquivo pessoal

Nos iludimos pensando que o coração é do lado de dentro.
É nada!
Ele é mesmo é do lado de fora.
Grudado na gente como uma planta parasita.
Algumas vezes sangra em carne viva.
Como tem sangrado em muitos.
Uma inesperada Pandemia nos assola e trouxe consequências: distanciamento social, pânico, insegurança e ansiedade nas famílias de todos os Continentes.
Vivemos uma onda de oscilações, perdas e danos.
Estamos nos últimos dias de dezembro, de um anômalo ano, em que um vírus assustou o mundo todo.
Escrevo.
Escrevo como um registro do que se passa agora.
Escrevo como uma forma de expurgar o medo e o imponderável que nos rondam.
Não estou a ver as horas, porque não quero saber que horas são, mas penso que adentramos na madrugada, é o que me diz a quietude e o vento.
Talvez esse texto, no futuro, dirá melhor o que estamos a viver.
No meu país, já se anuncia o fim da primavera. Encontramo-nos às vésperas do natal, um natal jamais imaginado e diferente de tudo o que se pensou.
Um natal de afastamento, sem muito brilho e algazarra nas ceias, com as famílias isoladas, apartadas, entristecidas e sorumbáticas, mergulhadas em tensões e silêncios.
Muitas a viverem dias de dor, de luto, de tristeza e de despedidas inesperadas. O horror.
Mas o momento nos ensinou muito sobre solidariedade, finitude, simplicidade, o retorno à Natureza e a desnecessidade de planejamentos e excessos.
Além de nos lembrar que a vida é agora, é hoje, já.
Vivamos o instante!
Não deixemos o tempo nos arrastar por caminhos e estradas que não são nossas.
Amemos nossa família, nossos amigos.
Deixemos o coração se expandir rumo ao infinito, porque o mundo está um caos e, nós também.
Inventemos um solstício que nos deixe com dias longos cheios de luminosidade.
Cuidemo-nos e aquietemos o espírito, vai passar. Vai passar.

Pernambuco, XII - MMXX

Leonard Cohen, Famous Blue Raincoat

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

dos sentidos

"[...] Num País sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua".

Sophia de Mello Breyner Andresen em Ausência



                                            imagem: bride with a fan (1911) marc chagall


viver às custas dos sentidos
faz sentido?
como acreditar neles?
e se num rompante
os sentidos se rebelarem
e burlarem
o que cada sentido nos faz sentir?

posso beber com os olhos?
se repentinamente eu engolir com os ouvidos?
pode o meu olfato escutar sons?
acaso é proibido tatear com a língua?

tudo é convenção
até a própria convenção.

tatear é a materialidade do toque (?)
como eleger (os) sentidos
se todos somos plenos de sentidos
se o mundo e suas representações
nos assaltam
singular e
pluralmente?

todo o tempo
o tempo todo
somos
poros
ossos
carne
órgãos
sentimentos

tremores
odores
respiração
gotas de suor 
e quase sempre de partida.

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Pernambuco, I - XI - MMXVII

Chet Baker, Leaving
 

uma semana e um dia

"Para os teus beijos, sensual, flori!  E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,  Só me exalto e sou linda para ti"!  F...