quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

no núcleo da palavra saudade

"Sim, minha força está na solidão.
Não tenho medo nem de chuvas tempestivas
nem das grandes ventanias soltas,
pois eu também sou o escuro da noite".

Clarice Lispector em A hora da estrela


imagem colhida da internet, desconheço a autoria

Na calada da noite eu ouvi uma voz clamar em desespero:
- Meu Deus!
- Meu Deus!

Corri os ouvidos pelo o silencio
Ampliei a angular dos olhos
E não vi ninguém

Não havia nada para ver
Além da rua e da pista molhada
As casas fechadas

E as luzes apagadas
Percebi então
Que aquele grito gutural

Saído da quietude noturna
Rasgou meu útero
Tomou corpo

E em carne viva partiu
A clamar pela cidade
Vagando na neblina

A indagar em cada esquina
Quem és
Por que se escondes

No núcleo da palavra saudade?


Olinda I - XII - MMXXII

Oswaldo Montenegro, Aquela coisa toda

terça-feira, 7 de junho de 2022

rosé

Desde sempre em mim. Desde
Sempre estiveste. Nas arcadas do Tempo
Nas ermas biografias, neste adro solar
No meu mudo momento
Desde sempre, amor, redescoberto em mim.


imagem colhida na internet, desconheço a autoria

a taça descansava 
na bancada de travertino
alheia ao ambiente
o frescor do vinho
destacado nas gotas
que deslizavam 
pela superfície indiferente
do cristal

contrastando com a noite quente
notas suaves e melancólicas
destoavam e traduziam
o sabor daquele instante
Miles enchia o ar com seu trompete
enquanto lábios umedecidos
inventavam um beijo

persistente
forte
insolente
inesquecível
(indis)solúvel
entre o rose e o tinto
assemblage

engolindo o abismo
e o tempo.
enquanto sorvia 
a saudade
naquele cálice de vinho rosé


V - MMXXII

Melody Gardot My One And Only Thrill

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

imóvel


Sylvia Plath

imagem colhida na internet - desconheço a autoria


era como se a vida tivesse parado

fixada num tempo

que não se movia

nada se movia

 

não havia transição

sinal de avanço

passagem

ou transformação

 

não havia nada

a não ser o nada que havia

e a ambiguidade de um relativo silêncio

que tudo falava mas nada dizia

 

a vida reduzida a um amontoado de palavras

que de novas não tinham nada

todas elas desgastadas

usadas, apagas e reescritas milhões de vezes

 

não tinha nenhum sonho

nenhum retalho de poesia para costurar

linha para cerzir

também não existia

 

mas sobravam: saudade, ilusão e melancolia

  --

 Oswaldo Montenegro - Lembrei de Nós

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

avassalador

"Morrer de amor 
ao pé da tua boca 
[...]
Trocar tudo por ti 
se for preciso" 

Maria Teresa Horta, Morrer de Amor in “Destino” 

imagem colhida na internet, desconheço a autoria

um sentimento avassalador envolve o corpo inteiro
intenso
tempestuoso
porque chegaste

o desejo do agora
do instante (e)terno 
se faz latejante
e outra vez o cheiro

o beijo
o riso
a voz que lacera
e arrepia a pele

o infinito no átimo 
a vida inteira nesse instante agora
imorredouro
etéreo

presente
a nossa intimidade
a tua suavidade
a minha cobiça 

a (im)perfeição da história
o tracejado na memória
e esse (nosso) sentimento extraordinaire
liberto de tempo
---
Nina Simone, Feeling Good

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

prolongada hora do ocaso

"Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)"



rio de janeiro, urca: arquivo pessoal

teu nome é um segredo que carrego entre os dentes

mastigo a tua ausência todos os dias

engulo quilômetros de desejos

fincando as marcas do tempo nos grãos de areia

que se dissipam com a luz do sol

 

teu cheiro é uma cobiça que carrego embrulhado entre as pálpebras

que se desdobra e se espalha a cada bater dos cílios

espreitando o lençol rugoso das águas agitadas do mar

a se misturar com a atmosfera azul esperançosa

revelando o insensato gesto de oblivion

 

tua voz chega como um animal selvagem 

que se debate entre os fios dos meus cabelos

como um bicho enfurecido recém-capturado

e eu prisioneira das vontades tantas

transito entre as feras da paixão e da saudade


que me devoram por dentro e por fora nesta prolongada hora do ocaso


 ---


O., X – XI- MMXXI

 Always on my mind - Elvis Presley

terça-feira, 14 de setembro de 2021

intransponível

"Nuvens passam e se dispersam.
Serão essas as faces do amor, essas pálidas irremediáveis?
É para isso que meu coração se agita"?


imagem: arquivo pessoal

existe um mistério intransponível
na passagem das horas
na construção do tempo
do tempo que paira entre um respiro e uma palavra

existe um mistério intransponível 
entre a palavra que foi dita
e as que nunca foram esquecidas
amontoadas numa inexistência

existe um mistério intransitável
entre a memória e o presente
estado de permanência silente
ilusão insistente

existe um mistério intransitável
na passagem dos ciclos
que só aos ciclos pertence
e enredam a vida num abismo profundo

onde nada no mundo pode desocultar
imprimindo ao eternamente belo
a glória aprisionada no espaço, no tempo
e em todos os momentos que hão de ficar

---

XIV - IX - MMXXI


Tuesday's Gone - Lynyrd Skynyrd

segunda-feira, 28 de junho de 2021

o outro lado do mundo

"Ama-me. Desvaneço e suplico. Aos amantes é lícito
Vertigens e pedidos. E é tão grande a minha fome
Tão intenso meu canto, tão flamante meu preclaro tecido
Que o mundo inteiro, amor, há de cantar comigo".

marc chagall: vista de uma janela - vitebsk 


o amanhecer me espreitou
pelas festas da janela
e me despertou
com um beijo

intenso como a luz
que atravessava a vidraça
enchendo o quarto de claridade
e impregnadas cintilações

abri os olhos e me deparei
com os seus verd´águas
a me sorrirem
como se o outro lado do mundo

nunca tivesse existido
tampouco todos os desertos
em mim
não nos dissemos nenhuma palavra

porque naquele silêncio matinal
todo o guardado foi pronunciado
toda a linguagem suspensa verbalizada
sem oscilações ou incertezas

deslizando por entre pernas
ventre
seios
e toda a saudade do mundo 

findou
naquela idílica manhã
que mudou destinos
para sempre

com a cumplicidade
dos deuses
que os guiaram pelo único caminho possível:

estavam juntos outra vez!

---

Olinda, XXVI - VI - MMXXI

The Way We Were, Barbra Streisand 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

estação quatro cantos

"E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade".



imagem colhida da web. desconheço a autoria

guardo dúvidas
guardo sonhos
(a)guardo o momento

o cheiro do passado
impregnado no beijo macio
longevo, elegante, amadurecido

como um tanino
domado
nos poros do barril de carvalho

exalando o perfume do imenso desejo
desde que os nossos olhares
cruzaram a porta do tempo

e repousaram no brilho
que refletia sua demorada espera
de quando ainda ensaiávamos

uma história
que caminhou através do relógio
sua prolongada trajetória

até chegar à estação dos quatro cantos
no coração da cidade
onde repousamos as inquietações

--

Olinda, XX - VI - MMXXI

Miles Davis Quintet - It Never Entered My Mind

quarta-feira, 12 de maio de 2021

maio

"Tú eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio.
Tú haces de mi vida
esta cerimonia demasiado pura".

Alejandra Pizarnik em Poema

imagem: marc chagall

a vida irrompeu em maio
até então não existiam:

o antes e o depois
a luz e a escuridão
a memória da flecha
e o tropel dos bisões

os peixes
as algas
a lua 
as estrelas

o desejo dos homens
a força das mulheres
os nomes
e todas as coisas vivas

o silêncio da esfinge
a dor e o gozo
as bruxas e as religiões
outros universos

o sal
a saudade 
o hálito
e o espelho 

os milagres
os mistérios
os anciãos
a arte

as ilusões
o barco e as imprecisões
o cetro e o rei
o centro do mundo 

as decisões
as leis
o vale da morte
e as montanhas

o desenho das nuvens
o movimento das marés
o espraiar das águas
o rasante das águias

as horas crepusculares
a explosão das cores
o despertar das flores
a chuva

os hábitos
as rochas
o riso
o siso

a liberdade
o esquecimento
os planos
a passagem do tempo

e os pássaros distraídos
que espelhavam o sol nas asas
o mesmo sol
que diluiu ícaro

e o refez
no ventre renascido
em bona dea
ou maya para além do arco-íris

--

Olinda, IX - V - MMXXI

Led Zeppelin - Tangerine








sexta-feira, 30 de abril de 2021

"o fim do mundo não vai chegar mais"

"E é glória do saber querer
Com longa história
Pra frente e pra trás"

Caetano Veloso

imagem: arquivo pessoal

eu preferi diluir aquela saudade incômoda

num cálice de vinho tinto

e deixar a esperança se estilhaçar

como se fosse os fragmentos do cristal quebrado


eu preferi guardar o desespero

na gaveta da cômoda do quarto da bagunça

a mesma bagunça que agitava meu coração vermelho

todas as vezes que o sino da igreja badalava as horas da espera


e aquele cansaço que pesava a alma

que vergava o corpo

que enrugava a esperança

que amargava o céu da boca


que apagava as estrelas

que borrava a lua

que fechava o céu

 e insistia em dizer:


"que o fim do mundo não vai chegar mais"

--

Olinda, XXX - IV - MMXXI

Renato Braz, Quero ficar com você

domingo, 25 de abril de 2021

idas e vindas

"[...] A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida".

Hilda Hilst em Amavisse

imagem: arquivo pessoal, Rua da Aurora - Recife

E a vida de vez em quando vai ficando assim: entre os escombros, envelhecida, cariada, desbotada.
Um aglomerado de situações mal resolvidas, inexplicadas, intrincadas, obscuras.
Idas e vindas.
Sentimentos imbricados, escondidos, ansiados.
Vai-se vivendo a roleta russa da emoção.
Brincadeira de roda, ciranda, passando o coração de mão em mão, experienciando o sentimento alheio.
Falcatrua emocional!
No devir - todos os dias -, uma inquietação, aquele desejo sem controle, de que em alguma esquina surja uma resposta, uma explicação, um sentido, a esperança de um milagre - se existisse -.
E os dias seguem, descoloridos, cheios de ferrugem, corroídos - e corroendo - e, vamos tropeçando no pensamento.
Se observarmos o entorno, ao emergirmos desse mergulho interior, até vislumbraremos alguns passantes, caminhando no passeio, alheios ao que em nós se passa, nem desconfiam do passado...
Para o silêncio, talvez só mais silêncio e resignação.

Resiliência e (in)compreensão.
A vida por vezes é tão ininteligível!

Recife, XXV - IV - MMXIII

    Eric Clapton, Can’t Let You Do It

    

no núcleo da palavra saudade

"Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escu...