Pequenas ondas, uma após a outra, bordavam finas rendas de espumas.
As falésias cresciam atrás de mim.
Acima das falésias cresciam os cactos,
como altas catedrais de espinhos,
e para além deles o rápido incêndio do céu.
José Eduardo Agualusa em A Sociedade dos Sonhadores Involuntários. p.9
fotos tiradas com meu cellphone
Fui hoje (20.07.2017) ao lançamento do novo livro do escritor angolano, José E. Agualusa "A Sociedade dos Sonhadores Involuntários", que me parece bem interessante. Apreciei o bate-papo que ele teve com todos, lhe fiz uma pergunta e ele respondeu, tive assim minha curiosidade satisfeita.
Saí de lá pensativa, sem vontade de muita conversa, chove muito em Olinda, as ruas estão um pouco escuras, desertas e encharcadas, oferecendo belos cenários.
Então, fiquei parada ali na praça da prefeitura, silenciosa e absorta.
Depois despertei dessa quietude e fotografei as ruas molhadas, a chuva que escorria pelas passagens, as gotas que caíam sobre os paralelepípedos, sem me importar com o fato de ficar ensopada por esse gesto e estar correndo riscos.
Senti necessidade de receber essa água que caía do céu. Elevei a cabeça e de olhos fechados, fiz uma prece pungente: para o tempo passar logo!
Foi bom misturar o sal das lágrimas com o sabor da água da chuva.
Quantas vozes e barulhos internos, meu Deus!
Entrei no carro e fiquei observando o silêncio do local, enquanto meu coração retumbava sentimentos.
A pipa no ar e o peixe no mar, em algum momento terão em comum a linha: a primeira, do horizonte, aquele lugar tão distante onde só o sonho alcança; o segundo, do anzol que, quase sempre é morte certa e lenta.
Também nós algumas vezes a linha que nos sustenta pode nos levar além ou ao fenecimento.
É uma questão de escolha.
Entre o equilíbrio e o desequilíbrio existe também um fio, que pode ser bambo, até que se encontre o tempo certo, o ritmo da passada e a respiração, para percorrê-lo com harmonia e firmeza.
Assim como em algumas circunstâncias, por obra do acaso (?) caminha-se no fio cortante da navalha que afiada, corta a carne.
Tudo na vida é um fio, prestes a se romper, a estrangular ou a cerzir a qualquer momento.
Façamos a melhor seleção possível.
Olinda, XXX - IV - MMXVII George Michael, One More Try,
Há momentos em que a única oração que conseguimos fazer é chorar.
Um choro sentido, daqueles que doem até o mais profundo do nosso ser.
Daqueles em que não pensamos em nada, não disfarçamos nada, apenas choramos na tentativa de desafogar o coração.
Choramos porque perdemos.
Choramos porque não conseguimos superar as dificuldades.
Algumas tão maiores que as nossas pobres quimeras.
Choramos por termos tanta humanidade e não conseguirmos ultrapassar as barreiras que se interpõem diante de nós. Diante de tudo que desejamos realizar, viver e não conseguimos.
E então esse choro represado liberta em cada lágrima, a dor que machuca o coração.
Aquele choro que estava guardado, sem tempo para desaguar.
Porque a vida anda tão exigente, que chorar passa a ser um luxo.
Choramos a perda de um amor, a privação de um sonho que acalantamos anos, dentro do peito.
Choramos por um projeto que se extravia por não sabermos como executá-lo.
Aí só resta deixar o tempo curar a ferida, olhar para a frente, seguir o caminho escuro da frustração e aprender a recomeçar.
Compreender os sinais vitais, namaha! Olinda, VIII - V - MMXVII
"Dorme comigo acordado e só assim poderás saber de meu sono grande
e saberás o que é o deserto vivo."
Clarice Lispector em A Paixão segundo G.H.
o sonho de malinche - antonio ruiz
Parece ser da natureza humana planejar, organizar um futuro que a priori não existe. Porvirá (?). Vivemos como se não fôssemos finitos (materialmente). Vivemos com a eternidade em nós. Vivemos como se dominássemos o tempo.
Nosso mundo é esse instante! Um movimento que nos envolve e arrasta, algumas vezes, i-n-e-s-p-e-r-a-d-a-m-e-n-t-e, como uma onda que nos engole sem avisar. Somos o instante, ancorado no passado. Só temos o agora. E apenas enquanto o vivemos. Pois tão logo acontecido, foi, passou, ficou para trás, se torna pretérito. Reflito então que somos sistematicamente a lembrança de ontem e a espera de hoje. Nos equilibramos nessa ilusão, nesse fio invisível que tece uma complexa engrenagem, nem sempre compreensível e explicável. Somos subalternos ao tempo, com ele está a soberania. O comandante da história. Tudo é transitório, estamos aqui de passagem, somos ao mesmo tempo as partes e o todo de um mecanismo abstruso. Tudo flui e nada permanece, tudo dá forma e nada permanece fixo. A todo sempre, somos sempre o devir.
Tudo é construído alicerçado em sonhos e fantasias, concretamente o que temos são os planos e as incertezas, até que se se prove em contrário, pois até que aconteçam, não os temos experimentados, gozados, vividos, eles não existem. Mesmo depois de vividos eles também se tornam memórias. Nem sempre são táteis. (r)Existiram. A vida e o sonho compõem as páginas de um mesmo livro. Essa leitura continuada que fazemos dele, é o que se chama vida real. E por isso mesmo tão chocante. A realidade (?) é espantosa!
Retenho ainda o sabor encorpado daquele primeiro café que, lá atrás no tempo, entre um gole e outro nos permitíamos sonhar com o futuro.
E eram tantos devaneios e tantas as risadas. Ria-se de qualquer asneira.
Parece que a paixão não dá conta de fazer triagens sobre o que se fala. Se fala tanto.
O tempo passou e fomos nos enredando em teias que impediam o abeiramento.
Perdemos a capacidade de fluir com os movimentos.
Como aqueles primievos, que espontâneos não contabilizavam mágoas.
O tempo passou tão de repente.
E trouxe a conta das oportunidades perdidas, do sentimento engaiolado, do abraço engessado, do beijo que se esqueceu de acontecer.
Sacudiu no vento olhares perdidos em direção ao nada.
Nossos olhos emudeceram, nunca mais disseram nada.
Nossos lábios foram congelados num rito de tristeza, nunca mais se abriram para nada.
E quando por alguma brecha fortuita, fazia-se bom tempo, um sino repicado ao longe quebrava uma tentativa de reconexão.
A sensibilidade de outrora deu lugar às palavras ríspidas e a indiferença.
Quando aquela orquídea morreu, senti um calafrio, foi um mau presságio. Foi como um aviso de que nunca mais elas enfeitariam a nossa mesa do jantar.
Tudo vai morrendo. Tudo tem um limite.
Admiro como livros encaixados, sonhos empilhados se integraram na paisagem de desalento.
Agora que o encantamento morreu e o dia acabou, quando nos recostamos para descansar o corpo e o espírito, é que percebemos que, o "nunca mais seremos nós", atravessa o nosso peito como uma lâmina afiada, de maneira lancinante.
Agora seremos sós.
Agora é tarde, agora é um tempo sem volta.
A compreensão da ausência traz padecimento.
Assim como a consciência da perda nos faz atravessar desertos de solidões.
O tempo agora é de nostalgia, até do não vivido.
Cada dia doravante terá seu componente de tristeza, até findar o embotamento.
E ali naquele empório, impessoal, cercado de pessoas, numa tarde indiferente e fria de abril, sentados à mesa, não nos dissemos nada. Mergulhamos cada um em nossos porquês e entre um suspiro e outro, cheios de cansaços e tantas tentativas, não nos dissemos nada.
Só tivemos tempo para o último café da nossa história.
"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença". Clarice Lispector in Aprendendo a Viver (imagens). p. 19
imagem: amedeo modigliani
Se você sabia que não existiríamos porque deixou brotar sua existência em mim? Serei agora eu sem ti ao meu redor. Com aquele espaço na noite e um grande vazio ao despertar todas as manhãs.
Adormecer talvez seja a hora mais triste dos meus dias, porque estou desabitada da sua presença física que preenchia todos os meus vãos. Todas as noites me pego lhe esperando, mesmo sabendo que não virás. Todas as noites fecho os olhos e vejo o seu rosto colado ao meu e aquele sorriso que deixava ainda mais miúdo, os seus olhos de jabuticaba.
De certo modo não te foste - assim com todas as contradições -, já que lhe guardo em todos os meus sentidos - emaranhado entre os lençóis, nosso cheiro impregnado no ar e nós desvestidos -. Fiz das nossas horas, os anos que não teremos, a continuidade que não viveremos, fiz das nossas horas uma história para nós dois - que não terminará com a sua partida. Fiz deste ínfimo tempo nossa eternidade. Não tenho mais sede do mundo. Não reclamo a pressa para que tudo passe logo. Não quero apagar as tantas descobertas. Os segredos só nossos. Os desejos loucos que murmurávamos dentro das nossas bocas. Quero guardar o brilho dos nossos olhos quando nos descobrimos um no outro. Quanta emoção desenhamos na pele, nos poros, no riso. Quanto nos entregamos e aceitamos? Alguma pequena escuridão, que recebeu toda a luz que emanávamos de coração para coração, desde então. Tudo existe, porque nasceu antes na alma. Consola-me uma lágrima solidária e furtiva, que escorre no canto do olho, e deságua sal no mar dessa saudade.
Recife, XXVII - I - MMIV Amália Rodrigues, Com Que Voz
instruídas naquela sabedoria que se adquire pela experiência e
se advinha pelo senso comum”.
Clarice Lispector em Obsessão
imagem: arquivo pessoal
Acordo e
ponho um disco do Leonard Cohen para tocar.
Despertei com
o dia cinzento também em mim.
Terá sido
a influência do céu tão pesado que paira sobre a cidade? O clima frio, invernal
e as gotas de chuva que mal se anunciam, já se vertem líquidas?
Não sei.
Antes de
pensar e pesar os acontecimentos da semana que passou, preparo um café. Desses
bem pretos, fortes, encorpados, quero o amargo do café preenchendo os vãos das minhas papilas gustativas, que é para ver se a vida guardada a sete chaves,
desperta urgente e acontece na mesma proporção do desejo espraiado pelo corpo
todo. Na tentativa de que seja ela mesma, a vida, a liga dos meus fragmentos.
Estou cada
vez mais partículas de mim.
Estou cada
vez mais apartada de mim.
Estou cada
vez mais partida de mim.
Estou cada
vez mais fluída em mim. Num andamento um tanto quanto distraído e com uma visão incerta.
Já não sei
mais me definir.
Desconfio que
até o fim da minha existência o tempo não será suficiente para saber quem
sou.
Volto ao
meu cafécentrismo, porque é dele que tudo parte: as confissões, as confusões,
os dilemas e as delícias de uma caminhante que não sabe o fim da estrada, cada
vez mais densa e cheia de névoas, impedindo de ver o abismo ou o jardim
florido, quiçá?
Uma coisa
eu sei: estou sempre disposta a prosseguir.
“Nasci de
criaturas simples, instruídas naquela sabedoria que se adquire pela experiência
e se advinha pelo senso comum”.
Talvez seja
essa uma das maiores lições que aprendi dos meus pais.
Recomeçar
sem o peso do vivido. Tentar guardar apenas o valor da experiência.
Estou esvaziada. Que venha a poesia nossa de cada dia. Olinda, II - III - MMV
cansei de falar o que você não ouvia deixei de escutar aquilo que você não dizia desprezei o que para mim não dirigias e agora, agora sibilas ao vento cantas ao vento não sei se um abandono ou tormento se alívio ou esquecimento o que não foi vivido em tantos momentos e agora, agora eu digo que fui embora fui embora de mim, fui embora de nós bati os pés, soltei os nós abri as asas, me lancei no céu e bebi toda a imensidão azul que um dia que em um longínquo dia sonhei para nós! ------- Olinda - V - VI - MMXIII Leonard Cohen, Hallelujah