sábado, 29 de outubro de 2011

"as tentações de santo antonio"

"A palavra sangra
seu cântico de pó. Peixe
de sombra
mordendo as estrelas".
Casimiro de Abreu

As tentações de Santo Antão (detalhe) - Hyeronimus Bosch


não era abstrata
a tentação tinha forma
tinha fome
nome e ondulações

quanto mais se impunha distância
mais a tentação se aproximava
quedas abissais
profanação do templo

no tempo enquadrado
naquela gaiola de loucos
ruptura de acordos
louca tentação

no ardor do pecado
a (des)construção do caos
chamas e paixão
numa insana ode à tentação

a noite resistia
em meio à tanta desordem se sabia -
mas ainda assim o sol se abria
o dia amanhecia

e
no centro inviolável do incendio
se jogou um oceano de lucidez
e a tentação, a tentação

esse pecado mortal
essa labareda que brota
do centro da terra
lava de vulcão

incendiou um coração
que desatinou de vez
em estado de alucinação
ainda quis agarrar-se à tentação

mas foi engolido
pelo feixe de luz
enquanto voava com o peixe
que mordia as estrelas
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XXII - X- MMII
Tomei a liberdade de trazer o pensamento do Guma, no belo comentário-poema que ele fez aqui; assim como o  Dimas que também deixou seu belíssimo contributo, adoro esse exercício de intertextualidade:

Esse oceano de lucidez,
Tenho não,
Quem dera.

De onde estou,
Porque deixei de ter mar,
Aquele a quem confessava pecados originais,

Fico entregue às emoções,
mergulho fundo nesse poema
e me vejo do avesso,

massa de água
em constante movimentação,
tocando
lá ao fundo
no céu

onde vagueia um peixe
engolindo estrelas
e ganhando luz própria

Guma Kimbanda
......

Não há tentação sem pecado,
Dor sem saudade,
Noite sem lua.

Não há sede sem água,
Ódio sem mágoa,
Praça sem rua.

Não há como não ter desejo
Diante de tua pele nua.

Dimas Lins
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eric clapton - old love


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

não 'deu no new york times'

                                                                                       "Não me falou em amor. Essa palavra de luxo".
Adélia Prado

Reclining woman in a white chemise - Ernst Ludwig Kirchner

... tenho raiva desses amores fajutos
que não dão no New York Times
que não valem qualquer notinha de jornal
ordinária

nem mesmo uma de rodapé
nem poema de dor

nem serenata na madrugada
esses amores efêmeros
que relegam à solidão
sobejos de insatisfação

restos de ilusão
náufragos da dureza implacável

do cotidiano sem graça
da frieza de uma decisão
que se nutrem na própria sozinhez
alternando a lucidez alheia

impondo a ferocidade da distância
essa que nenhum sentimento alcança

e decreta a morte
da esperança
que nem dá
no New York Times

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Olinda, X - X - MMXI

pink floyd - time

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

já "não sei falar de amor"

"O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma..."

António Gedeão

Melancholy - Odilon Randon

já não lhe amo mais
sequer lembro do seu sorriso
quem disse que ainda falo disso

quando sei que caminhaste pelas vias
que foram nossas um dia
quem disse que tremo

e silenciosa desvio do ponto
onde esboçávamos sonhos
nem cantarolar sou capaz

recolho a escuridão
cerro os olhos
em desbotada solidão

no entanto burlo a decisão
de não rever seu olhar cativante
naquela  foto escondida

entre os livros na estante
e minha grande mentira se desfaz
como bolha de sabão
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São Luís, XXVII - VII - MMXI

Deolinda - Não sei Falar de Amor

terça-feira, 4 de outubro de 2011

aquilo não podia dar certo

''Ele leva uma vida plena, sem o vazio da minha. 
Não tenho nada porque não o tenho".
Frida Kahlo
.
Hommage à Apollinaire - Marc Chagall


não
aquilo não podia dar certo
era certo demais

não
aquilo era o fim do que nem se buscava
um  inusitado encontro

não
o masculino de si
materializado ali do outro lado

não
a perfeição não existe
é só uma metáfora

como o tempo
que passa lento
longe de ti!

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Olinda, I - X - MMXI

Ben Webster (sax tenor) Over The Rainbow

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

o adeus que nunca foi dito!

                                                                             O Sonho - Pablo Picasso
a palavra final
não foi adeus
o adeus não-dito, não-pronunciado
- mas temido

não houve adeus
não houve palavra final 
afinal 
mas a vida, a vida é irresistível

o tempo correu
e tanto se fez  - que se estranharam -
entre tantos percursos desviados
decorreu-se o (im)previsto

redefiniu-se a rota
seguiu-se em única via
- era o que se podia -
e foi implacável com os sonhos

esse futuro imperfeito 
que nesse interstício
ligou todos os pontos
dessa real distância

que sem a palavra final
sem o adeus nunca dado
consolidou-se enfim
o indesejável fim

- com esse adeus que nunca foi dito! -

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XXVII - IX - MMXI

maria bethania,  pra dizer adeus - lani hall, edu lobo e torquato neto 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

incerteza

Princípio da Incerteza - René Magritte



e tem essa pedra que rasga
expande artérias
risca delgada
dilatando fronteiras
expondo vísceras
carne viva
carne crua


além desse silêncio 
- intrépido - e frio
que suporta
por um fio
a altura
do vazio
abismo das indefinições


adiante, uma sombra projetada
pássaro livre 
- emparedado -
razão manifesta
que se debate
entre o real e o impossível caminho
que principia


uma incerteza que fere!

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numa noite qualquer em Barcelona, março de 2009

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Espiem só que belo exercício, do Benno e da Piedade,  mais abaixo, que fez a leitura de trás pra frente do meu poema, coisa que eu também adoro fazer:

Benno


em toda vida só venci
tudo que antes fizera medo
e este apenas fez retardar
o que de outra seria mais cedo

(o tempo é eterno tirano
o medo um conselheiro feroz
a coragem é inconsequente
só a dor da perda é atroz)

o passo que dei para frente
me foi sempre dúbio e incerto
tivera eu mais coragem na vida
e o longe teria sido mais perto

(retilineas estradas se antepõem
curvas tortuosas em desalinho
os declives e abismos que encontro
venenos que impedem o caminho)

a oportunidade de dourada
que nos é concedida uma só vez
deslizou toda vez que recuei
pelos meus dedos em toda escassez

em toda minha vida só não vi mudar
o que estivera morto e inerte
mas a vida é coisa que a todo momento
muda, transforma e se inverte

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Piedade


que principia
entre o real e o impossível caminho
que se debate
-emparedado-
pássaro livre
adiante, uma sombra projetada

abismo das indefinições
do vazio
a altura
por um fio
que suporta
-intrépido- e frio
além desse silêncio

carne crua
carne viva
expondo vísceras
dilatando fronteiras
risca delgada
expande artérias
e tem essa pedra que rasga

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fallen - presuntos implicados com a participação da randy crawford

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"porta do coração"


do futuro nada sei
mas (d)o passado
tenho-o de cor

está escrito aqui
em cada linha do meu corpo
guardado nos desvãos

-no sótão da memória -

nos gestos fingidos
desde aquela noite
em que tua boca escarrou o veneno:

amo-te!
disseste-me intempestivamente
e saíste porta afora

- sequer olhaste para trás -

levando a minha paz
e a chave do meu peito
que nunca mais se abriu!

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Belém, XVII - VII - MMXI

E o Benno faz uma belíssima releitura do meu poema, obrigada!


nós somos
um reservatório ambulante
de lembranças

(feita de de desencontros
esperares
e esperanças)

e o futuro nada mais é
do que uma memória
que ainda está a ser construída

(uma cidade qualquer
uma estrada sem fim
ou uma ponte destruída)

não tem como não ser o que se foi um dia
não há como não ver como ontem a luz do amanhecer
ou deixar a sombra da noite as nossas lembranças obscurecer

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Ricardo Ribeiro, Porta do Coração - Carlos Conde.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

84 anos!


por fim a vida passou
sem pressa o tempo correu
aventuras tantas viveu
muitos fardos e espantos
e a sua história aconteceu

sete criações distintas
sete sentidos originais
sete dias da semana
sete memórias afiadas
sete sonhos no varal

nosso desenho ancestral
nosso mapa no bolso
nossa seta no caminho
nossa alegria de quintal
certeza e imensidão

lucidez e mansidão
farol aceso na escuridão
referência e ritual
a árvore mais antiga
raiz profunda no chão

porto seguro na agonia
nosso cais na ventania
cúmplice na alegria
parceiro de tantos sonhos
hoje completa

84 anos!

para o meu pai, o 'seu' alexandre colares.

difícil é escolher uma música, de tão musical que ele é, há uma vastidão em seu repertório... e como adoramos cantar juntos essa, vai ela mesma, perfídia - do mexicano alberto dominguez, versão do lamartine babo, com alceu valença, pero, escuchala con quien queira, abajo algunas sugerencias:



ahmad jamal
alberto dominguez
alfredo sadel
altemar dutra
anacani sings
antonella ruggiero
aura d ´angelo
bachatango
ben light orchestra
benny goodman
billy vaughn
billy may and his orchestra
boney diaz quintet feat david gallermo
buena vista social club
café habana
café tacuba
carla dupont
carola standertskjöld
cliff richard
david el gales
dexter
eddie osborne
el mariachi
emilio tuero
ethel smith
fausto papetti
four aces
foxy browny
francisco alves
guitarra clássica
glen miller
hammond
ibrahim ferrer
james last
javier solis
jerry gray
jossie esteban y la patrulla
julie london
julio iglesias
jorge sanchez
kai warner
kino moran
klevin klimek
la portuária
latin show
laura fygi
laurel aitken
likkle wicked & foxy
linda rontstad
los iracundos
los siderals
los majos
los rabanes
luis mariano
luis miguel
lupita palomera
manfred muller
margarita luna
matadors
nana mouskouri
nat king cole
nelson ned
nelson gonçalves e montesserat
nilla pizzi
orhestra roberto delgado
orchestre benoit przybyla
oscar solo
pablo milanes
paco de maría
pan hall
paul mauriat
phyllis dillon
plácido domingo
ray conniff
roberto valle
sara montiel
semino rossi
siete santos
si zentner and his orchestra
sylvia syms
the 50 guitars of tommy garret
the dematrons
the estrada brothers
the fenders
the firebirds
the cliffters
the neptunas
the shadows
the ventures
tobago euphonic sounds steel orchestra
trini lopez
trio irakitan
trio los tres caballeros
trio los panchos
walk don´t run
xavier cugat

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

em setembro será outro tempo


Persistência da Memória - Salvador Dali

ora sou a mais paciente das criaturas humanas, ora sequer abro os olhos, porque não quero nem ver a luz do dia. essa contradição em permanência que sou se chama em parte saudade. ando com saudades desmedidas, especialmente de mim, estou impaciente com o tempo que não passa, e voa ao mesmo tempo. 
além da ambiguidade que é senhora dos meus dias. e como se não fosse suficiente ainda estou vivendo um tempo que não é mais meu. esse tempo desconhecido, disforme, mole, escorregadio, fugindo pelos dedos, subtraindo as horas, uma subjetividade do tempo carregado de incompreensões. hermético. orgânico. caótico. imperativo. inegociável. cheio de abstrações e enigmas.e que me dá uma sentença clara, direta: já passa do momento do desfecho, chega de deslocamentos! não permita que o tempo arruíne os projetos, os sentimentos; que desaqueça a alma, desmonte-o, surpreenda-o. encha o vazio de sentidos, aspire a nova brisa e renove todos os sonhos... as coisas boas se vão suavemente, mas sempre retornam repletas de possibilidades.
ainda bem que logo, logo vai entrar setembro, outro tempo, outros projetos, outras nascentes, outras gentes,  e muitas boas novas entrarão juntas nos campos,  plantaremos e colheremos, outras, e mais sementes para novas messes.

certas canções e situações são inesquecíveis, sol de primavera - beto guedes, faz parte desses momentos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"a linha e o linho"

imagem colhida na internet

tenho cócegas nos dedos
que me obrigam a fazer ranhuras

a rabiscar
a experimentar
outras texturas

tenho cócegas nos dedos
que me obrigam a dedilhar as notas

sair do limbo

escrever um poema sinfônico
traçar uma rota

tenho cócegas nos dedos
que me obrigam  a trançar linhas

- as tuas, as minhas -
tocar no linho
deslizar nos dias

e reinventar um mundo!
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III - VIII - MMXI

O Dimas lapidou a poesia trançando algumas linhas do linho, sofisticando-a:

Vinde, versos, vinde!
Rimas, fala, canto.
Na boca, um poema, um brinde,
Língua que lambe encanto.

Faz, refaz e desfaz,
Vai e reinventa o mundo.
Semeia o chão fecundo,
Que brotam palavras de paz.



Dimas Lins
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advinhem? o óbvio ululante: a linha e o linho - gilberto gil

sábado, 13 de agosto de 2011

ontem à noite no porteño

imagem recolhida na internet

escrever tem um quê de insondável
tem um quê de determinismo
tem um quê de filosófico
tem um quê de metafísico
escrever, escrever
gêneros textuais

definição, explosão, metáfora, alegria
fodere no baixo latim
numa sexta atemporal
pedras, estradas, pontes, sementeiras num canto da cidade
interligados e conf(id)luentes
rios do mundo que desembocam no Recife

entre mesas e cadeiras
luzes artificiais
o fogo da poesia numa chama de vela
que mesa alegre era aquela?
de João Cabral a Mário Faustino
de Drummond a Ítalo Calvino

de Manuel Bandeira a Mia Couto
António Lobo Antunes e Fernando Sabino
mas não parou por aí
uma partícula e era prosa
quando penso em América do Sul
nunca lembro Vargas Llosa

concordância ancestral
extraídas das entranhas da terra
transformando em ouro os metais vis
lóg filosofal
perpetuada por um poeta genial

outras feras também estavam lá
em rosa pura e lírio
Cecília e Clarice
contrárias e complementares
entre as linhas, as costuras da emoção
uma é feitiçaria e a outra magia, ambas: poesia

quando publicamos a obra já não nos pertence
Graciliano Ramos presença indispensável
sentimento, sangue e carne tudo transformado em arte
Osman Lins nos arrebata, Nove, Novena
Avalovara e um  palindrômico emblema
Guimarães, ah o Rosa quem não já se enveredou pelo Grandes Sertões...?

Alice Ruiz e Paulo Leminski
não poderiam se ausentar
concisão e objetividade em meio ao desejo
na passagem em potencial
da interface virtual para o sabor do real
vai, vai e temos um haikai

Galeano e Cortázar
foram se instalar entre abraços
fantásticas palavras-pontes
Mafalda do Quino também estava lá
mas não há como sobre O Muro ficar
numa mesa de poetas, sonhos desdobrados de dentro da bolsa

a melancolia também é matéria no ar:
Sartre pode me explicar
a confissão que se ouve
pelo canto da boca
ladeada de delicadezas
sementeiras que brota(m)vam  vida

sua inspiração está na lida cotidiana
como o mestre do nordeste
Patativa do Assaré
meus versos é como semente
que nasce arriba do chão
mas sempre bebendo na fonte do coração

nos encontros marcados pela vida
nunca se sabe onde vai dar
isso foi só o começo desse nosso estradar
uma rede de afetos
começou a se formar
interligados pela escrita
inesgotável fonte de amar!

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Olinda, XII - VIII - MMXI

Para Magna, Josias, Dimas e Fabiana, obrigada pela alegria de ontem!

Lena, Ducaldo e Edjane, um agradecimento para lá de especial (e um pedido de perdão) por aturarem uma gente tagarela e ávida por poesia, e excesso de alegria. vocês são parceiros dessa festa! 
Também estavam presentes nas palavras, no carinho e na admiração, Ana Cláudia, Samarone, Naire e Silvinha.

Belchior, Ypê

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...