"Que o destino Sempre me quis só No deserto sem saudade, sem remorso só Sem amarras, barco embriagado ao mar" Adriana Calcanhoto
imagem: arquivo pessoal
naquele dia em que fui mais feliz caminhava livre pelas veredas que me conduziriam aos seus abraços e quando nossos passos harmônicos em ritmos sinfônicos no mesmo compasso desfilávamos pela esplanada tu com o teu chapéu panamá eu com meu riso a brincar recriamos o mundo e uma irremediável alegria se fez sentir por dentro e por fora dessa nova história solta feito folha que se desprende da árvore e plana no ar sem plano de pouso ou lugar para assentar no dia em que fui mais feliz. Lisboa, VII - IX - MMXIX Adriana Calcanhoto, Inverno
rabisquei com um batom vermelho o seu nome no espelho e desenhei um coração com linhas incertas num acesso de fúria apaguei tudo o espelho borrado refletiu a minha imagem difusa olhos dilatados de uma saudade surda inapropriada inexplicável confusa fora de hora fora de padrão o retrato abstrato da minha imaginação Porto, um dia qualquer de MMXIX Cristina Branco, Não há só Tangos em Paris
carregarei comigo aquele desejado futuro que não pudemos ter e o presente eternizado nos breves instantes de nós dois entre os risos e beijos que desenharam a nossa história naqueles espaços de tempo poeiras da memória pedaços de momentos bordados com fios de ternura que nos enlaçaram com candura desde que os seus olhos tornaram-se meu céu diário paisagem tranquilizadora entre as tempestades que me arrastavam para alto (a)mar! Porto, XXVI - VIII - MMXIX Nina Simone, Feelings
daquilo que eu sei mas insisto em negar de tão avassalador sem limites nexo ou pudor o sustém no ar fio invisível inquebrantável daquilo que dizes e transborda no tempo aplaca a distância encurta a saudade alimenta a memória e estanca no peito o grito agudo que não quero esboçar! Porto, um dia qualquer, de um mês qualquer de MMXIX Led Zeppelin, All my Love
todos somos infiéis somos infiéis uns aos outros um pouco mais com uns um pouco menos com os outros a nós próprios. mas somos todos infiéis: no amor que não doamos no desejo que sentimos e reprimimos no brilho dos olhos que disfarçamos. mas somos todos infiéis no riso que escondemos e o aprisionamos na saudade insolente que provoca incoerente a tua ausência às quartas-feiras! Porto, VIII - V - MMXIX Leonard Cohen, Dance Me to the End of Love
"a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder: É hora de se embriagar"!
Charles Baudelaire
imagem colhida na internet (desconheço a autoria)
você só pode dizer que é íntimo meu se já me viu embriagada de uísque poesia ou virtude se já nos beijamos tiramos a roupa e nos amamos isso não quer dizer muito a não ser que já tenhas me visto embriagada, dedo em riste a filosofar com as estrelas. você pode dizer que é íntimo meu se já me viu embriagada, silenciosa e triste diante de uma canção do Clapton de um poema de Drummond ou embevecida com o voo de uma borboleta amarela que atravessa a vida com mistérios descritos nas asas dela e pousa leve na flor que carregas na lapela enquanto eu filosofo com as estrelas. Recife, um dia qualquer de MMXVII
organismo vivo sistema e com-ple-xi-da-de a derme veios carregados ramificações vasos cheios sangue vivo sangue vida calor sensação emoção a derme todas as sensações táteis é o toque o calor a tua pele derme o brilho refletido sobre a minha como a luz é tua a pele que me envolve que me deixa nua (des)vestida dos desejos tantos desde que fui tragada pelos azuis-turquesa que me fitaram ---Lisboa, IV - IX - MMXIX
O chão não é só a terra a areia, o pó. O chão é um resultado de histórias vida, nascimento e morte ancestralidade. O chão é base o lugar a segurança. O chão é descanso lugar de paragem plantio, colheita e também devastidão. É deserto e desolação. Às vezes oásis E muita imensidão. O chão é barro pegadas caminhos percorridos outros ainda a percorrer algumas vezes, sepultura. Mas o chão é igualmente molde, modelo flor, vegetação Elemento vital não requer explicação. O espírito, o barro, do barro o eu a resistência a solidão é o chão, o chão! Olinda, XXI - XI - MMXVII
Mas é que o erro das pessoas inteligentes é tão mais grave:
elas têm os argumentos que provam.
Clarice Lispector em Para não esquecer. p. 20
imagem colhida na internet, desconheço o autor
Meu Deus, como somos ingênuos
acerca do amor!
Para muitos de nós parece ser um jogo de loteria, a expectativa de acertar na
próxima jogada, uma distração, uma espécie de tiro ao alvo, onde o objetivo é
acertar na mira.
Repare bem, eu disse jo-ga-da - o amor anda longe disso -. O amor não é um
produto de consumo, tampouco a vitória de um desafio ou qualquer competição...
Muitos de nós colocamos no outro a responsabilidade da nossa alegria, do brilho
no olho, da vontade de criar mundos.
De vivenciar experiências, criar projetos profissionais comuns...
Quanta tolice!
O amor também não é um carnê de um crediário que vamos pagando as parcelas, mês
a mês.
Precisamos refletir sobre a natureza dos encontros... O amor não é uma
"relação social que incide sobre um cálculo de interesse", tampouco
seja o amor uma mercadoria, amor não é consumo. O Amor não é consumo!
Entendeste? Tu entendeste? Amor não é projeto para trazer lucro nesse sistema
capitalista, entendeste?
Amor não é e nem nunca será excesso!
O "Amor não é mercadoria"!
"O Amor não é maquínico", não somos máquinas!
O amor está em quem o sente e não no outro a quem ingenuamente pensamos, ser o
agente provocador desse sentimento.
Não se guarda o sentimento esperando que uma próxima pessoa, uma próxima
relação, a seguinte, a da hora, a do momento,
preencha os nossos vazios, ou ainda, que um ÚNICO ser consiga ter todas as
características que sonhamos num determinado instante da nossa vida.
As pessoas são tão mutáveis.
Como diria Kant, tudo que pode ser comparado, pode ser trocado! Amor não é negócio, o amor não é
lucro de mercado!
O amor
tem muito de espontaneidade, de bem-querer, cumplicidade e cuidado recíprocos.
O amor não é uma partida de xadrez, uma competição ou um jogo de loteria para
você errar ou acertar.