sábado, 28 de setembro de 2019

e

"Que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar"

Adriana Calcanhoto

imagem: arquivo pessoal

naquele dia 
em que fui mais feliz
caminhava livre
pelas veredas que me conduziriam
aos seus abraços

e

quando nossos passos
harmônicos
em ritmos sinfônicos
no mesmo compasso
desfilávamos pela esplanada
tu
com o teu chapéu panamá
eu
com meu riso a brincar
recriamos o mundo

e

uma irremediável alegria
se fez sentir
por dentro e por fora
dessa nova história
solta
feito folha 
que se desprende da árvore

e

plana
no ar
sem plano de pouso
ou lugar para assentar

no dia em que fui mais feliz.


Lisboa, VII - IX - MMXIX

Adriana Calcanhoto, Inverno



sexta-feira, 27 de setembro de 2019

abstrato

"Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém...
Como a sorte: hoje aqui, depois além"!

Florbela Espanca

imagem: paul klee

rabisquei com um batom vermelho
o seu nome no espelho
e desenhei um coração com linhas incertas

num acesso de fúria
apaguei tudo
o espelho borrado
refletiu a  minha imagem difusa

olhos dilatados
de  uma saudade
surda
inapropriada
inexplicável
confusa

fora de hora
fora de padrão
o retrato abstrato da minha imaginação

Porto, um dia qualquer de MMXIX

Cristina Branco, Não há só Tangos em Paris



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

pedaços de tempo


"Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível".

Natália Correia


  imagem: ismael nery

carregarei comigo aquele desejado futuro
que não pudemos ter

e o presente eternizado nos breves instantes
de nós dois
entre os risos e beijos

que desenharam a nossa história
naqueles espaços de tempo
poeiras da memória
pedaços de momentos

bordados com fios de ternura
que nos enlaçaram com candura
desde que os seus olhos
tornaram-se meu céu diário
paisagem tranquilizadora

entre as tempestades
que me arrastavam 
para alto (a)mar!

Porto, XXVI - VIII - MMXIX

Nina Simone, Feelings

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

daquilo que eu sei

"Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro"

Hilda Hilst
imagem: kandinsky. yellow, red e blue
daquilo que eu sei
mas insisto em negar
de tão avassalador

sem limites
nexo
ou 
pudor

o sustém no ar
fio invisível
inquebrantável

daquilo que dizes
e transborda no tempo
aplaca a distância

encurta a saudade
alimenta a memória
e estanca no peito

o grito agudo que não quero esboçar!


Porto, um dia qualquer, de um mês qualquer de MMXIX

Led Zeppelin, All my Love



terça-feira, 24 de setembro de 2019

todos somos infiéis

 "se ao menos tivesse um tratado
entre o teu amor e o meu"

Leonard Cohen

imagem:arquivo pessoal

todos somos infiéis
somos infiéis uns aos outros
um pouco mais com uns
um pouco menos com os outros

a nós próprios.

mas somos todos infiéis:
no amor que não doamos
no desejo que sentimos
e reprimimos
no brilho dos olhos

que disfarçamos.

mas somos todos infiéis
no riso que escondemos
e o aprisionamos
na saudade insolente
que provoca incoerente

a tua ausência às quartas-feiras!

Porto, VIII - V - MMXIX

Leonard Cohen, Dance Me to the End of Love



domingo, 22 de setembro de 2019

intimidade

"a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são;
e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio,
hão de vos responder: É hora de se embriagar"!

Charles Baudelaire


  imagem colhida na internet (desconheço a autoria)


você só pode dizer que é íntimo meu
se já me viu embriagada
de uísque
poesia ou
virtude

se já nos beijamos
tiramos a roupa  e
nos amamos
isso não quer dizer muito

a não ser
que já tenhas me visto embriagada,
dedo em riste
a filosofar com as estrelas.

você pode dizer que é íntimo meu
se já me viu embriagada,
silenciosa e triste
diante de uma canção do Clapton
de um poema de Drummond

ou embevecida
com o voo de uma borboleta amarela
que atravessa a vida com mistérios descritos
nas asas dela

e pousa leve
na flor
que carregas na lapela
enquanto eu filosofo com as estrelas.

Recife, um dia qualquer de MMXVII


Eric Clapton, Stars, Strays And Ashtrays





sábado, 21 de setembro de 2019

não confesso que amo

"Que eu saiba ficar com o nada
 e mesmo assim 
me sinta como estivesse plena de tudo".

Clarice Lispector


                                                       imagens: arquivo pessoal

não confesso que amo
                      ninguém, nada
                      coisa alguma

não confesso que amo
                     as flores e
                     a primavera

eles não gostam do amor
                    não gostam da beleza
                    do riso farto

não confesso que amo
                     a vida
                     a Filosofia

não confesso que amo
                    a música
                    a poesia

eles não gostam da alegria
                    não gostam da luz
                    que clareia o dia

não confesso que amo
                    a metafísica
                    e o voo dos pássaros

eles não gostam dos pássaros
                    não gostam da liberdade
                    da paz que envolve a cidade

eles aprisionaram o azul do céu
                    nos porões das suas inseguranças
                    e do medo das cores

Porto, VIII - V - MMXIX

Leonard Cohen, Treaty




quinta-feira, 19 de setembro de 2019

a pele

"Eu só visto
a paixão
de corpo inteiro"

Maria Teresa Horta

arquivo pessoal: arquipélago das berlengas

organismo vivo
sistema 
e
com-ple-xi-da-de
a derme

veios carregados
ramificações
vasos
cheios
sangue vivo
sangue vida
calor sensação emoção
a derme
todas as sensações táteis
é

o toque

o calor
a
tua pele
derme
o brilho
refletido
sobre a minha
como a luz

é tua

a pele que me envolve
que me deixa nua
(des)vestida
dos desejos tantos
desde que fui tragada
pelos azuis-turquesa
que me fitaram

--- Lisboa, IV - IX - MMXIX



Patxi Andion, Aqui

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Barro

São tão da terra que a terra
nem sente sua intrusão.



 imagem colhida na internet, desconheço a autoria

O chão não é só a terra
a areia, o pó.
O chão é um resultado de histórias
vida, nascimento e morte
ancestralidade.

O chão é base
o lugar
a segurança.
O chão é descanso
lugar de paragem

plantio, colheita
e também devastidão.
É deserto e desolação.
Às vezes oásis
E muita imensidão.

O chão é barro
pegadas
caminhos percorridos
outros ainda a percorrer
algumas vezes, sepultura.

Mas o chão é igualmente
molde, modelo
flor, vegetação
Elemento vital
não requer explicação.

O espírito, o barro, do barro
o eu
a resistência
a solidão
é o chão, o chão!

Olinda, XXI - XI - MMXVII

John Coltrane, Spiritual

sábado, 11 de novembro de 2017

Mais respeito com o Amor!

Mas é que o erro das pessoas inteligentes é tão mais grave: 
elas têm os argumentos que provam.

Clarice Lispector em Para não esquecer. p. 20

imagem colhida na internet, desconheço o autor

Meu Deus, como somos ingênuos acerca do amor!
Para muitos de nós parece ser um jogo de loteria, a expectativa de acertar na próxima jogada, uma distração, uma espécie de tiro ao alvo, onde o objetivo é acertar na mira. 
Repare bem, eu disse jo-ga-da - o amor anda longe disso -. O amor não é um produto de consumo, tampouco a vitória de um desafio ou qualquer competição...
Muitos de nós colocamos no outro a responsabilidade da nossa alegria, do brilho no olho, da vontade de criar mundos.
De vivenciar experiências, criar projetos profissionais comuns...
Quanta tolice!
O amor também não é um carnê de um crediário que vamos pagando as parcelas, mês a mês.
Precisamos refletir sobre a natureza dos encontros... O amor não é uma "relação social que incide sobre um cálculo de interesse", tampouco seja o amor uma mercadoria, amor não é consumo. O Amor não é consumo!
Entendeste? Tu entendeste? Amor não é projeto para trazer lucro nesse sistema capitalista, entendeste?
Amor não é e nem nunca será excesso!
O "Amor não é mercadoria"!
"O Amor não é maquínico", não somos máquinas! 
O amor está em quem o sente e não no outro a quem ingenuamente pensamos, ser o agente provocador desse sentimento.
Não se guarda o sentimento esperando que uma próxima pessoa, uma próxima relação, a seguinte, a da hora, a do momento, preencha os nossos vazios, ou ainda, que um ÚNICO ser consiga ter todas as características que sonhamos num determinado instante da nossa vida.
As pessoas são tão mutáveis.
Como diria Kant, tudo que pode ser comparado, pode ser trocado! Amor não é negócio, o amor não é lucro de mercado!
O amor tem muito de espontaneidade, de bem-querer, cumplicidade e cuidado recíprocos.
O amor não é uma partida de xadrez, uma competição ou um jogo de loteria para você errar ou acertar.
Mais respeito com o amor!
Olinda, IX - XI - MMXVII

Eric Clapton, Have you ever loved a woman?

sábado, 4 de novembro de 2017

Poema da devolução

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Fernando Pessoa em Todas as Cartas de Amor
imagem recolhida na internet


Toma!
Pode levar tudo que não é seu
As cartas que não lhe escrevi
O poema de amor que não vivi
A canção que não escutei
E aquela rima feia, fria e triste
Que não cabe em nenhuma poesia.

Toma!
Não beba o vinho que não existe
Não chore lágrimas sem sal 
Não pense que a vida é um mar de rosas
Nem sempre a vida é mar
Nem sempre  a vida é rosa
A vida pode até ser saudosa, mas

Toma!
Esqueça o beijo que não pude lhe dar
Apague aquele coração desenhado de lápis azul no espelho do banheiro
Rasgue o nosso retrato em preto e branco
Mudo de espanto
Por não poder falar
As sete letras fatais: eu te amo.

Toma esse veneno!


Olinda, IV - XI - MMXVII

Leonard Cohen, Lover, lover, lover.

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...