segunda-feira, 21 de março de 2011

teu olhar incendiou o meu!


imagem recolhida na internet

numa dessas ocasiões de absoluto silêncio
em que todos os sentidos
estavam adormecidos
esquecidos num canto qualquer da vida


no meio da apatia
inexpressiva existência
e decidida abstinência

por um descuido dos deuses
ouviu-se
um farfalhar de folhas
uma nota musical

um cheiro de alecrim no ar

o olhar arqueou-se mais à esquerda
e foi assaltada por um observar atento
e naquele voo rasante

descuidaram-se por um instante
e o sol de fim de tarde
pela réstia da íris

poisou no horizonte

e quando a brisa do ocaso
por obra do acaso
espalhou essa fagulha de luz

no átimo desse encontro

dessa vida em movimento
da expansão desse mistério
em transição comovente

é que perceberam
essa suave presença
e promulgaram
essa inesperada e doce sentença:

teu olhar incendiou o meu!

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XXVIII - I - MMXI

ando pela suavidade da ceumar: o seu olhar - Paulo Tatit / Arnaldo Antunes

quarta-feira, 9 de março de 2011

porque afinal toda semana tem quarta-feira!


imagem recolhida da internet

o tempo era de indefinição
nem sempre sim
às vezes não
seguia morno

noite e dia levados com indiferença
um vento brando sem alternância
se fazia frio ou calor
não havia termômetro indicador

pó de estrada
revestindo o caminhante
de estação em estação
fazia-se retirante

folia de reis
folia do divino
momesca folia
religiosa ou profana

sob um olhar de realidade
fixado num ponto equidistante
entre o branco e o preto
nem sempre era perceptível a nuance

como cinzas ao vento
vagueando sem destino
vestindo outras fantasias
deixando as máscaras e os dias na gaveta

porque afinal toda semana tem quarta-feira!

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XIII - II - MMX

quem mais?chico buarque, nara leão e mpb-4, em noite dos mascarados.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

gotas d' água


imagem colhida na internet

... o corpo exposto
as veias dilatadas
- coração dilacerado -
os poros abertos


sobrepostos
dispostos
interditos
em oposição

o tempo que expira
ar e efeito
sobe e desce
olhar e feitiço

língua
dedos pasmados
passados
pelos seios, corrediços

a transpiração
suores que escorrem
olhares gulosos
sedução

teias
tessituras
texturas
tensão

controle ineficaz

olhar fragmentado
pupila dilatada
a perda dos sentidos

e a explosão em gotas d' água!


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XVIII - II - MMXI


sergio godinho, porque tem que ser ele, hoje, só pode ser ele: espalhem a notícia. percebam a letra e a melodia, percebam!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

quando eu choro

imagem recolhida na iternet

Quando eu choro, eu choro mesmo, não faço economia de lágrimas, nunca fiz, choro, chorando; os choros todos que estavam guardados, muitos deles por falta de tempo de dar-lhes vazão, ou então pela invasão de tantas outras urgências, que vou adiando os choros que eu deveria chorar, e quando a necessidade se faz calamitosa, essa que estou chorosa, derrama um Nilo pelas retinas, nada me anima, nem mesmo a mais brilhante estrela no céu; nem flor, nem abraço, nem beijo, nem barco, nem pêssego, nem pão quente de manhã, nem café, nem avião de papel, nem aquela melodia d´Ella, que o vento me traz, na calada da madrugada, nada, nada. Então me ponho a nadar, entre as lágrimas que quase chegam a me afogar. Me afogo fácil me distraio com a simplicidade da vida, um pé de margarida, aquela borboleta que fica borboleteando na minha varanda, a gata branca que tenta alcançá-la, ou me convida para brincar, ou com a flor que desabrocha quando esperávamos tanto e o esquecimento nos brinda com o inesperado mais esperado. Aquela carta que nunca imaginei receber, ou a poesia que nasceu, mesmo quando acabei de esquecer.

Choro pelo livro que nunca li, pelo romance que eu não vivi, pela dor de quem nem conheço ou conheci, pela minha frustração e pela do meu irmão; pela saudade de quem conheço e está longe, até por quem desconheço e em algum lugar do planeta, se esconde. Choro. Choro pelas coisas banais e profundas, pelos desencontros do mundo, pelos amores que findam, pela atenção que mingua. Choro até pelo que não sei, mas está guardado bem fundo nesse coração fecundo, um poço tão infindo que mesmo desmaiando não chego ao seu profundo e nem caibo nele, porque nem tamanho tenho... Flutuo pelo mundo feito pluma sem destino.

Olinda, X - IX - MMIX

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Quem eu escuto? Sim, é Ella mesma, The Man I love, cantarolemos, roucamente baixo: "... Maybe I shall meet him Sunday/ Maybe Monday, maybe not..."

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

fica fácil assim a travessia

(imagem recolhida da internet)
então me olhas e
meu mundo se amplia
sorrio de volta
vivemos a nossa calmaria

inventamos o nosso mundo
esquecemos distâncias
voamos milhas
percorremos as nossas trilhas

até que enlaças a minha mão
confiantes seguros
em comunhão
prosseguimos então

fica fácil assim a travessia!

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A vida é puro encantamento, por tudo, só poderia ser essa música: Tudo Diferente - André Carvalho -, na lindíssima voz da Maria Gadu. Oiçam... E sigam suas trilhas...



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

constantinopla

imagem recolhida na internet

cavalheiro andante e dama arfante
abertos à vida, ávidos
- livres, libertos -
dos suspiros aprisionados
viviam o sonho dos amantes enamorados
- destemidos -

cavalgavam plenos
num cavalo alado
- branco como a paz
branco como a neve
branco como as nuvens

alimentados pelo fogo da excitação
a guiá-los pela imensidão
a um só desejado destino
Constantinopla!

acordaram não ter metas
- nem temores
e um inviolável sentimento
nascido do nada
que fluía no movimento do vento

brincadeira do acaso
- nas noites indormidas
não faziam perguntas
não queriam respostas

queriam-se
buscavam-se
e seu lugar no mundo
Tsargrad!

imperador e imperatriz
enlaçados pela pureza da água
diluíam-se pelo Bósforo
seguiam inseparáveis
recriando diuturnamente aquele incontrolável desejo

viviam na iminência de partir
e nesse mundo à parte
expatriados
não queriam estar em outra parte
Miklagard!

maçã de prata
fome e pecado a um palmo da mão
sempre em risco
no riso do céu da boca
desejo exposto
dispostos
puramente sedução

não se importavam com a fragilidade de quase tudo
fiavam-se naqueles fios
- de seda, de aço
estendiam-se em abraços
sem perda de tempo
em poesia e prosa

refúgio dourado em cada anoitecer
realidade e ilusão
a sorte e uma sentença
um só olhar, a mesma porta
Constantinopla!

num retábulo bordado
cheio de luz e desatino
ora homem, ora menino
perdia-se em meio aquele caminho
- porque nela se encontravam
renegaram enfim
a solidez do marfim

saíram do ambiente sepulcral
em que se encontraram
um rasgo na retina
por uma pequena greta
o sol explodiu em clarão
todos os halos de luz no céu

e proclamou-se a beleza
despontou o encanto
e no limiar da explosão
com a voz melíflua a sussurar
numa sutil sedução:

sua beleza mais que um arco tenso
é a beleza incomensurável
de altivez e singularidade
em seus braços a me embalar

homem mais lindo do mundo
nesse eterno encantamento
vivamos esse momento
esse momento e nada mais
nosso singular encontro
sem os efeitos colaterais

não foi apenas ontem que aprendemos a amar
recebamos esse presente
à revelia de amanhãs
sem tropel e armadura
nem dissabores e agruras

flecha apontada
alvo definido
um só coração
caminho traçado

rumo à esquina do mundo
à cidade sagrada
e toda proteção
juntos em uníssono
entoando a mesma canção

a versejarem enlevados
desde agora e para sempre
uma invulgar história
viajeiros incansáveis
percorreriam uma só rota

acima do céu
abaixo do mar
no plano do altar
decantariam em oração
no interstício da paixão
solfejariam em poesia

constantinopla!

Ao som de um flamenco turco, Öykü Gürman ve Berk Gürman - Evlerinin Önü Boyali Direk, divaguemos, deambulemos....

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

no silêncio das coisas esquecidas

imagem colhida na internet

no silêncio das coisas esquecidas
se inseriu uma breve história
daquelas bem transitórias
guardadas apenas numa única memória

que se encastela confortável
por entre as nuvens de poeira
numa pesada leveza
que desliza

por entre as prateleiras
como esferas de chumbo
empilhadas num mundo
que ninguém mais viu

só ela em seu costumeiro desprezo
pelas coisas vãs
ligações temporais
a tudo que é banal

e no girar mundo
gerar fé
rolar dadinhos
digerir conflitos

rasgar confetes
lançar foguetes
engolir saudades
despertar para a vida

deseja agora
apenas guardar esse silêncio que ocupa a alma

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Faz dois dias que eu só escuto essa canção: Simple Man, Lynard Skynard. É, eu escuto a mesma música, várias vezes, muitos dias... Experimenta!



quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

imagem recolhida da internet

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura
Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa
Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo
Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
...

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura



... é que quando o sentimento explode, só a poesia nos acode. Este é um poema-presente a fazer da vida um transbordamento de delicadezas.

Oiçamos a Rosa Passos, Eu não existo sem você - Tom Jobim e Vinicius de Morais. Oiçamos...


domingo, 9 de janeiro de 2011

me and you no more

imagem recolhida na internet


ouvi dizer que você anda sorridente

que canta sem motivo aparente

e seu olhar ainda que triste

tem um brilho diferente


e os passeios à beira do rio

já ficaram lá atrás

não tem mais passeios

não tem mais rio


não tem mais risos

não tem mais corridas

rumo ao incerto

nem as diversões inventadas no meio do nada

- nem a fome de madrugada -


nem lembra mais do peixe no aquário

nem do parque nos dias de outono

tudo virou pó

pó no sótão da memória


pó no álbum de retratos

pó de estrada

pela qual ninguém caminha mais

tudo agora é o absoluto


absolutamente inexistente

o que se instala nesse instante

é a eternidade do nunca mais

nunca mais nós dois


nunca mais

nunca mais

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Home - Michael Buble, David Foster, Bill Ross - com o Bublé, porque tinha que ser essa música, porque tinha que ser essa...


domingo, 2 de janeiro de 2011

everything has one end

le double secret - rene magritte


é em mim que

existes


em mim

e já não mais em ti

porque tudo que és

é uma invenção minha


prescinde a vida e a morte


assim desse jeito até banal

tua matéria

minha criação

teu fim só com o meu não


sim, decerto


pois decreto por fim

esse fim com um final extenso em mim


...


...É que nessas horas, só o blues... só o blues. Vamos aumentar o som que Jeff Beck - Brush with the blues - dá as notas.


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

vinho, queijo &... Barthes (ou bricolagens)!

imagem: Jim Zuckerman


quem haverá de dizer que

eu escrevi o que escrevi

quem haverá de ler

o que eu escrevi

quem entendeu

o que eu escrevi

se nem eu que escrevi

sei o que escrevi

sequer cataloguei

o obscuro do que escrevi

o desoculto do que senti

se sou uma colecionadora

de imagens

textos

bricolagens

brinquedoteca de mim


quem haverá de saber o sentido

do que sinto

o que não me arrisco a dizer

o ad absurdum que em mim há

do sentimento (in)contido

incontável

no outro olhar

que vem aqui olhar

o que eu estou a olhar

a plausibilidade do que não quero sentir

mas não posso negar

quem haverá de medir

a distância

entre o raso e o fundo

a superfície e o profundo

se só quero na vida saber com sabor?


Enquanto dialogava com Barthes, numa conversa regada com muito vinho, escutava a Carmen Souza super talentosa, uma jazzista de primeira linha, a boa música caboverdiana na veia, que tive o privilégio de assisti-la na Casa da Música (Porto-Portugal) oiçamos: Mar na Coraçon.

Mais da Carmen, aqui: http://www.carmensouza-uk.blogspot.com/
http://carmensouza.blogspot.com/
Oiçamos-na!



voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...