quarta-feira, 15 de julho de 2009

A vida na rotunda, na avenida...

(imagem colhida na internet)


A vida não passa sem nos trazer reflexões, ou nos deixar estarrecidos diante dos acontecimentos, que para alguns pode ser banal demais até. O que não é o meu caso, não sei se para o bem ou para o bom; para o mau, ou mal; mas certas situações me deixam estupefacta e pensativa.

Caminhando pela margem da rotunda da Boa Vista, apressada, porque o vento frio, apesar do sol, parece lâmina a cortar-me a carne, em mim na carne, a minha carne (nessas horas me pergunto como o ser humano pode ser tão adaptável assim?)… Não percebi de imediato a discussão que se dava ali entre duas mulheres. Escutei vozes alteradas mas não percebi de onde vinham concretamente, até que uma senhora (devia beirar os 60 anos), meio descompensada, partiu pra cima de outra (esta já passava dos 70 anos, seguramente), e as duas começaram a esbofetearem-se no meio da rua, para os transeuntes surpresos e surpreendidos como eu, a ação das senhoras, deixou-nos sem ação, porque parecia uma cena de um filme de quinta categoria (referenciado por mim) que se passava em câmera lenta…

Um garoto assustado, choramingava e dizia à sua mãe:

- Vamos, mamãe, vamos!

- Vamos filho, vamos!

- Alguém aí, faça alguma coisa, pá! Eu estou com uma criança e está assustada!

- Toda a gente só dá uma vista d’ olhos e nada fazem?

E ninguém fazia nada, enquanto isso as duas mulheres puxavam os cabelos uma da outra, falavam coisas sem nexo aos ouvidos de quem não as conheciam, chutavam ora o ar; ora a perna uma da outra. De repente, num golpe de sorte (?), a mais jovem estapeou a cara da mais velha, e o sangue jorrou, imagino que as unhas atingiram um vaso sanguíneo, e por ser um local mais sensível, começou a sangrar de imediato. As duas então deitaram ao chão.

- Deixa meu pai em paz, um senhor de 83 anos, têm filhos e netos!

- O que estás a dizer?

- Não sabes? Ah, sabes sim, sei que sabes! Quer aproveitar-se do meu pai, deixe-o em paz e vá cuidar da sua vida, ora pois! Vou mostrar-te do que sou capaz!

-Nada sei! Não sei do que estás a dizer!

Isso pronunciado entre os dentes, com um ódio que saltava das pupilas dilatadas dos seus olhos. A situação já se tornara impossível, até que quatro homens, certamente os mais corajosos e sensatos dentre todos os presentes, não suportaram mais ver aquela fábula deprimente, e tomaram uma atitude: foram separar as senhoras raivosas e cheias de infelicidade. Percebam: quatro homens fortes, tenazes e destemidos, tiveram dificuldade para impedir que as duas senhoras continuassem aquele triste espetáculo de agressão e violência. Não se dando por satisfeita, a mais jovem, mordeu a mão de um dos cavalheiros que a desvencilhava da senhora mais idosa, que por sua vez, puxava-lhe os cabelos a quase trazer o couro cabeludo entre os dedos…

Quando deu por si, e saiu do seu transe de ira, a mais jovem, notou enfim que não teria mais como dar vazão à sua destemperança, de um salto levantou-se, ajeitou a saia; o casaco; os cabelos; e saiu resmungando algo incompreensível. Enquanto a mais velha, lívida e transparente, limpava o sangue do seu rosto, sem emitir um sinal de emoçao (nunca vi tanta frieza diante de um ataque de fúria), ficou rente à parede, silenciosa. Alguns polícias chegaram e eu já estava a dobrar a Av. de França…

E fui andando até o Carvalhido, pensando, porque eu precisava pensar. Em mim, nelas, e em tudo que eu presenciara, além de coisas que não presencio, ou das que vejo e também emudeço.

Parece um enredo de alguma peça do Nélson Rodrigues (que por sinal, tem uma peça dele em cartaz aqui), mas não é, ou é, a vida real, latejando, pulsando e rompendo ódios e sentimentos outros guardados até a explosão. Um micro-mundo, que avança violento sobre outro, pela ação corrupta, impaciente e baseada no descontrole, na vitória do não diálogo, que não cede, não concede e nem busca uma negociação, um porquê, simplesmente agride. Será que a agressora tem algum distúrbio de personalidade; prediposição natural (?) à violência; desconfiança; competição? O que há no subjacente dessa história de agressividade, que jamais saberemos? Uma amostragem do macro-mundo, onde se perdeu completamente a via da comunicação, da negociação, e eclodem as guerras, as atrocidades imperialistas… Fiquei pensativa sobre o mundo.


E escuto o João Pedro Pais: Um Resto De Tudo, vamos escutar a canção do gajo e reflitamos sobre nós e o mundo que estamos a construir...



domingo, 28 de junho de 2009

Azul-mirtilo

(imagem recolhida da net)



sentir é um não sei-o-quê

quase sabendo

que explode por dentro

resvalando cá fora

construindo perguntas

espargindo inferências

trazendo interrogações

afirmando emoções

sentir até o que não se pode

à revelia do tempo

sentir não querendo

fora de hora

o que devasta um coração

olhos fundos (des)atentos

choro raso de saudade

o que se passa aí

transborda aqui

sem alarde alarido

ouvindo-te: canção

pudesse ser eu a ter o mundo

o riso

a alegria

dar-te-ia:

um céu azul todo dia

de uma cor azul só tua

na azulidão do infinito firmamento

dos mares e oceanos

desfaria os turvos momentos

acenderia luzeiros

cuidados e desvelos

mundo encantado

de um azul-mirtilo

que quero para ti...



Bsote bem oia a Nanci Vieira, te canta "Lus"?






quarta-feira, 10 de junho de 2009

Veneza...!

«Se tivesse de procurar uma palavra que substituísse "música" poderia pensar em "Veneza".»
Friedrich Nietzsche



(à espera do waterbus)

A cidade parecia ter acabado de ter as lanternas acesas por algum anjo que a queria deslumbrante para me receber, e eu, alumbrada, com o nariz esmagado contra a janelinha do avião, olhava os pontos salpicados de luz lá embaixo demarcando o espaço... Pena que era noite e não pude ver o plano urbanístico de cima, com a luz do sol a refletir no Adriático e mergulhar na sua imensidão e me encontrar sereia em algum ponto ou porto...

Enquanto esperávamos o ônibus que nos levaria do aeroporto Marco Polo, deambulei sobre o navegante croata-veneziano, no/o que ele sentia, quando atravessava a infinidade de canais e saía para desbravar e percorrer mundos, até chegar à Rota da Seda; o encontro com Kublai Khan (o neto de Gengis Khan). Eu nem de longe ouso invocar o espírito do grande navegador, conquistador, narrador de histórias, tão elogiado n´O A Descrição do Mundo (algum tempo depois: As Viagens de Marco Polo), as glórias, as conquistas, recheadas de detalhes riquíssimos e emoções incomuns. Mas tão somente externar o brilho de minh' alma quando estive lá: Veneza!


(as gôndolas)

Pensamentos furtivos confundiam-se com a realidade, agora já no waterbus que nos levaria ao hostal, em Giudecca. Viajar para Veneza, é um destino insólito, completamente diferente de tudo, de todas as cidades que já visitei aqui na Europa. Só dei por mim que estava a chover, quando o vento frio, e as gotas de chuva começaram a incomodar.

A beleza das pontes, por mais simples que sejam, tornam os canais em autênticos espelhos d´águas, onde refletem as edificações antigas; os raios da lua e os nossos olhos brilhantes. As gôndolas sempre de cor preta - uma lei datada de 1562, oficializou a obrigatoriedade, dizem que foi o sinal de luto, em função da Peste Bubônica, que dizimou milhares de venezianos; há quem discorde e diga que foi em função da cidade ter sido conquistada por outra nação; e há quem fique com as duas versões - com assentos revestidos de tecido de veludo, vermelho, deslizam suave, e as águas batendo contra as paredes de palácios seculares, sempre com um casal apaixonado a bordo, ainda que seja ao cair da tarde. E as águas vão criando movimentos e desenhos, a cada remada do gondoleiro, a cada gôndola que cruza a outra. Quanto para se ver nessa cidade, quanto romantismo impregnado na aura, no mar e nas ruas...
As casas coloridas que ladeiam os canais (sem o excesso de cores berrantes) parecem tramas de ouro a comporem outras paisagens, nas ruas dos (seis) bairros centrais, algumas de pedras, os velhos candelabros, lampiões acesos, os vários jardins, os jasmins perfumando o ar emprestam mais do que uma atmosfera mediavalesca, mas um romantismo incomparável. A cidade transcende qualquer definição; a cidade promove e provoca os encontros, o amor! Não há lugar mais apaixonante que Veneza, não há!

Hora de descansar, tomar um banho, comer algo e esperar o dia seguinte, com sorte teríamos sol. Olha o soli, gente! Que belíssima composição: sol, céu azul, nuvens brancas, as gôndolas, as pontes, o Adriático e nosso des-lum-bra-men-to! Atravessar o Grande Canal e olhar para a imensidão de belezas ali, não é um fato comum, ao menos para mim: aportar nas proximidades da Praça de São Marcos, o “estacionamento de gôndolas”, os charmosos rapazes, com bíceps definidos, robustos, de calças pretas, camisas listradas em preto e branco, chapéu preto com fita, a tentarem te convencer que és um tonto se não desembolsares 80 € por um passeio de 40 min, ocasião em que eles te mostrarão todo o encanto da cidade...!


(Ponte dos Suspiros)

Ali, olha, a Ponte dos Suspiros (construída em 1602), Dios Mio! Que lindinha, pequenina, branca, nas proximidades da Piazza San Marco. Essa ponte, liga o Palácio Ducale à Prisão Nove, segundo historiadores, foi o primeiro edifício no mundo construído com a intenção de ser uma prisão, era por ela que os acusados pela Inquisição do Estado, seguiam para julgamento. Segundo a lenda tem esse nome porque “em tempos remotos, os prisioneiros (atravessando-a) suspiravam na ocasião de ver pela última vez o mundo externo.” E ali estava eu, minha pessoa a caminhar pelas ruas, vielas da Rainha do Adriático, lugar que serviu de palco de tantas histórias (e ainda serve), de filmes, quantos foram realizados ali: Anônimo Veneziano (Enrico Maria Salerno - 1970); Morte em Veneza (Luchino Visconti - 1971); A Little Romance (George Roy Hill - 1979); Todos dizem Eu te Amo (Woody Allen - 1996) e quantos mais?´

Passear em Veneza é um constante reencontrar-se e deslumbrar-se com a arte, com a arquitetura e paisagem única de uma das mais belas cidades do mundo. A Praça de São Marcos toma-nos o fôlego, é necessário respirarmos fundo e nos refazermos com calma para poder prosseguir às descobertas em cada uma das ruas (mais de 400 pontes), numa cidade que foi construída em 118 ilhas, um espanto em números e em sua natureza única, em sua composição renascentista; em suas praças, museus, palácios, igrejas, mercados e naturalmente seus canais. Veneza é impactante, ninguém fica indiferente a ela, ninguém! É um museu a céu aberto, ao ar livre, quase 100% dos seus prédios são qualificados pelo Patrimônio Artístico e Cultural da Humanidade.

(Palácio Ducal)

Uma cidade que em pleno século XXI, um dos destinos mais procurados do mundo, com toda a tecnologia da pós-mordenidade, e os pormenores de uma "cultura babélica” têm características marcantes e vivas do século X, data desta época, as gôndolas e provavelmente o mais conhecido símbolo da cidade, além das máscaras.

A melhor forma de se encontrar em Veneza, é perder-se nela, ainda que disponhamos de mapas, e é quase impossível (no meu caso é impossível mesmo, porque sou desorientadinha, e não há mapa que me salve, e claro, perdemo-nos!) não perder o prumo, quando embranhamos por aquelas ruelas interligadas por pontes, escadarias, casas com varandas e flores esparramadas em toda a extensão, parece que estamos em canais gêmeos, onde circulam toda a vida da cidade, mas não é verdade, isso é a deixa para a perdição e encontração.... Porque apesar do charme das gôndolas, dos barcos-taxis, dos vaporettos, Veneza é pra ser vivida, degustada, engolida, descoberta, sentida, a pé, só então que nos livramos de certo modo, do fluxo surreal e absurdo de turistas, só então as bucólicas e românticas ruas surgem e, nos deparamos com outra Veneza.

(a caminho do Rialto)

Surpresa grata, ao chegar, nas proximidades da Praça São Marcos, ouço os acordes de piano e me aproximo, a pianista executava Brasileirinho, então fiquei ali compenetrada e feliz, sentindo a música. Ao final, aplaudi-a: bravo! Bravo! Um sorriso definitivamente é o melhor cartão para alguém, ela agradeceu e então percebeu que eu era brasileira, foi a deixa para ela tocar, “Garota de Ipanema” e “Aquarela do Brasil”, uma delicadeza só. Seguimos rumo à Praça de São Marcos, enfim... Seguramente a praça mais famosa do mundo; à primeira, à segunda, à terceira e à todas às vistas, a imagem é quase um desmaio, “parece um grande salão de mármore com galerias em todo o seu redor”, naturalmente que a economia capitalista está presente, em todos os lados, há cafés, lojas, bares, o comércio é variado e caro. Prepare-se para gastar, Veneza consegue ser mais cara ainda que Paris, sim senhora! Um "dos mais famosos e frequentados bares pelos endinheirados é o Harri´s Bar, o dito, foi frequentado por personalidades como Ernest Hemingway, Thomas Mann, George Sand " , entre outros.

Não encontro um adjetivo à altura para descrever a praça que meus olhos agora capturam, fui engolida por ela, saí de dentro de mim, ajudada pelas lágrimas. Quando eu me emociono assim diante de algo bonito, seja humano ou inumano, eu desabo no choro, é a minha voz da emoção. Explanar tecnicamente sobre o valor do conjunto arquitetônico da Praça de São Marcos, não é o meu objetivo, existem inúmeros especialistas que tratam disso, aqui é só mais um relato, meu, com a minha ótica, sobre uma viagem cujo destino é o mais indelével em mim.

(Rialto)

Fiquei em êxtase, quando saindo do Grande Canal em direcção ao Rialto, passamos diante da casa de Marco Polo. Confeso-lhes que à ida à Veneza, valeram cada um dos euros gastos; ter visitado a Praça de S. Marcos com a sua Basílica, Torre do Relógio, Campanário, Palácio Ducal, Ponte dos Suspiros, Ponte de Rialto, Igreja dos Santi Giovanni e Paolo, Igreja Il Redentore, Basílica de Santa Maria della Salute (e outras igrejas não tão famosas assim, em Giudecca), e o que mais se-lhe-nos apetecer. Andar a pé, misturar-se com aquela multidão ensandecida de todos os lugares do mundo, nas mais variadas línguas, é sem dúvida a melhor maneira de curtir e entrar na alma da cidade, da mais linda cidade do mundo (ao lado do Rio de Janeiro). Diluirmo-nos nas águas da cidade....

(Ponte do Rialto)

Espalhamo-nos pela cidade, misturamo-nos com as pessoas, descobrimos a vida que pulsa, que brota e que transpira e que passa em Veneza. Participei na fotografia de família de um casamento que acontecia na Praça de São Marcos, sem ser convidada, naturalmente, quando dei por mim, já estava na fita.

(na foto da família, em um casamento)

Sentamos em num café em Rialto e ficamos observando o trânsito das embarcações nos canais, um engarrafamento, em verdade. Depois, fomos a uma trattoria e nos deliciamos com uma pasta, de sobremesa, sorvete de pistachio, adoro!

Uma caminhada até à Bienal de Veneza,

(Bienal de Veneza)

e quando não resistimos mais ao cansaço, sentamo-nos numa fonte, num centro do Mercado do Rialto, e comemos morangos, vendidos ali mesmo, em copos descartáveis.

(Mercado em Rialto)

E ainda mais uma vez, fiquei a pensar em Marco Polo, e recuperei o diálogo entre ele e Khan, no livro do Italo Calvino, As Cidades Invisíveis:

«Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.

- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Khan.

- A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra - responde Marco,

- mas sim pela linha do arco que elas formam. Kublai Khan permanece silencioso, refletindo. Depois acrescenta:

- Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa. Polo responde:

- Sem pedras não há o arco.»


 esse poste de ferro, aí embaixo? Nada não, é para matar as minhas saudades do meu Recife. Mas essa imagem, é Veneza, embora pareça com o Recife.



A música? Poderia ser outra? Venecia sin tí, com o Aznavour...








domingo, 31 de maio de 2009

O Abismo

(imagem da net)


e a palavra que nao sai

que fica presa na garganta

engasgada

estrangulada

cheia de tensão

que se dissolve no ar

porque é sólida

na ameaça

da faca

que corta

o fio da razão


faz-me um favor:

apaga a luz

rasga as cartas

paga as contas

desmonta a cama

deixe-me chorar

o que acabamos por não ser

por não dizer

por ficarmos parados

de lado

ao lado

aos teus pés


eu clamo:

fecha a cortina

encosta a porta

traz-me a garrafa

de água benta

de vinho tinto

e o livro

com as folhas amassadas

como a saia

de cetim

que arrancaste de mim

com a tua áspera sensualidade


e num arpejo:

composto

engulo teu gosto

desfaço desgostos

efêmeras escusas

recusas

nosso estado de desequilíbrio

etílicos

famélicos

procuramo-nos

no silêncio dos céus

da boca amarga


e no último suspiro:

num esforço cruel

sabor de amarguras

medo absurdo

como a fome

como a arte

como o corte

como a morte

escrevo em vermelho

e no luto

do esforço bruto

me faço teu abismo!


Aumenta o som, porque a música, é o/do Mule - Beautifully Broken:


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Essa palavra-pássaro

(imagem da net)


Essa palavra-pássaro

sempre em ponto de vôo

de asas farfalhantes

ora fundo ora rasante

essa palavra murmurante

de contorno azul na imensidão do horizonte



Essa palavra que seduz

que é banal

mas é diferente

que tem o movimento das marés e enchentes

que se rasga palavra

na bandeja de prata envelhecida


Essa palavra que exige investimento

que tem gosto de avelã

enfeitiça e desestabiliza

feito febre terçã

palavra fora de hora

sem justificativa temporã


Essa palavra desgastada

de brilho desbotado

de contorno pontiagudo

inquebrantável

fincada no cerne da palavra

registra o teu nome


Essa palavra que sei de cor

que se faz eloqüente

ainda que tímida e pudoradamente

encastelada

guardiã da palavra

me sabe amor


Eu gosto imenso da voz, das canções e das emoções que sinto ao ouvir a Mafalda, curtam!

Caprichem no sotaque luso e cantarolemos juntos:

"Sei de cor cada lugar teu/ atado em mim, a cada lugar meu/ tento entender o rumo que a vida/ nos faz tomar/ tento esquecer a mágoa/ guardar só o que é bom de guardar [...] Mesmo que a vida mude os nossos sentidos/ e o mundo nos leve pra longe de nós/ e que um dia o tempo pareça perdido/ e tudo se desfaça num gesto só..."

Mafalda Veiga: Cada lugar teu.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Banquete Imperial

(imagem da net)


Quando me desenhas
com teu desejo
fogo louco
exaltação

rabisco em teu corpo
minha fome de ti
meu banquete imperial
sedução

talhados em carne
e o tempero da paixão
sem segredos sem medidas
perdição

olhares devastadores
cadenciada movimentação
luxúria em cada ato
anunciação

e por fim tua língua ardente
saboreando-me lascivamente
num quase estado dormente:
a explosão!


A música? Deixe-a te devastar... Ouça a Candida Rose cantando That's All, mais uma bela voz de origem caboverdiana...


sábado, 9 de maio de 2009

Âmbar

imagem colhida da net

Vístula, Oder, Neva e Narva
aqui desaguam
dessa protuberância
e rasa profundidade

faço-me um Báltico
de onde um dia emergi
de extensão salobra
à doçura sucumbi

quando desprendi-me de mim
em teu escudo cristalino
vi minha face
que o vento em ondulação desenhou

como o ouro e a prata
em plena fusão
polimerização
me aqueces e me queima

insolubilidade e contradição
na terra azul
variação
princípio de tudo

duas palavras
entrega e capitulação
vulcânica temperatura
transformação

uma duas dez mil vezes
reformulação
da terra
e as montanhas do mundo

Andes Alpes Himalaia
e as escalas do tempo
fossilização
fluídica exudação

e quando tu teso
retém-te
em gotas de stalactites
sou tua Tabula Peutingeriana

estrada e segurança
translúcidos
cheios de pujança
és: minha rota do âmbar!


E queimem-se, incendeiem-se, apaixonem-se, vivam a intensidade dos sentimentos. Trago obviamente, a Bethania, com a sua voz e a sua interpretação que dispensa qualquer comentário, o Âmbar, da Adriana Calcanhoto:

Tá tudo aceso em mim/ Tá tudo assim tão claro/ Tá tudo brilhando em mim/ Tudo ligado/ Como se eu fosse um morro iluminado/ Por um âmbar elétrico [...]/ Aqui do outro lado/ Tudo plugado/ Tudo me ardendo/ Tá tudo assim queimando em mim/ Como salva de fogos/ Desde que sim eu vim/ Morar nos seus olhos...



sexta-feira, 24 de abril de 2009

Cabo Verde

Imagem: Christian Cravo

Uma rota um ponto
Uma porta uma ponte
Quantas Áfricas se ligam ao Brasil
Similaridades e diferenças

Quais as crenças
Mitos
Mundo original
Colônias Portugal

Povoação
Hereditárias capitânias
Rotas traçadas
Um dia entreposto comercial

Diversidade etnia multicultural
Simbiose
A origem sagrada dos sentimentos profundos
Nossa razão no mundo

Barlavento ou Sotavento
No norte a Ponta do Sol
Nha ilha por vocação
Pouso do coração

Ainda que da aridez do clima
Tempo das águas ou das secas
E das brisas em sua geografia se imprima
É sempre festa em nossa retina

Na bruma seca do Harmattan
Impiedoso temporã
Desviando destinos
Na melodia triste do Lestada

Meu refúgio
Minha parada
Canto da mulher amada
Da harmonia brotada

Inusitado encontro
Felicidade anunciada
Em crioulo ou português
Na rota da lucidez

Estrada da Corda
Ribeira Grande
Ribeira da Torre
Porto Novo

Assimétrico poema
Com rimas para encontrar

Boa Vista, Brava,
Maio, Santiago
São Vicente
Santa Luzia

Fogo Sal
São Nicolau
Santo Antão para enfeitar
E em tecido puro linho

Um belo desenho a bordar
E na doce voz de amar
Como carícia a soprar
Um nome a pronunciar

Cabo Verde em ti sempre vou estar!


Ah, a música dessa hora teria que ser esta do Paulino Vieira, pois ela tem especial significado, e cantarolo em meu crioulo capenga:

"S`na mundo tem mornas e mornas dedicód/ Tònt morna bo te mereçê/ S`beleza tá trazer inspiração/ Esse bo belez ê mais cum belo horizonte infeitód cum bom por de sol/ Ô um arco íris mut bem bem d´stacód/ Amim djam cria ser poeta/ Pam fazê um mar di poesia/ Pám cumpará que ´ss bo beleza d´ natureza/ Parsem nem mar nem lua cheia/ Nem sol brilhante nem noit serena/ Tá cumpará q´bo formorsura e bo corpo..."

Cantem:

domingo, 29 de março de 2009

O Meu "Porto Sentido".

Cordoaria

Mesmo sabendo o trajeto, os percursos eram sempre desconhecidos e cheios de surpresas. Vislumbrei situações efêmeras, corriqueiras, banais, comuns, normais; mas carregados com um quê de inesgotáveis. Tudo é e era cercado, e carregado de maravilhamentos, os sentidos todos alertas para o mundo que me circundava e me fascinava. Desde sempre gostei de sentar num canto, num banco, numa praça e observar o ir, vir e devires dos transeuntes, no Porto, não foi e nem haveria de ser diferente. Situações e histórias imagináveis, sempre acompanharam o meu olhar, quando se amplia rumo aos caminhantes, um olhar inauferidor, desvestido de julgamentos, mas cheio de imaginação, com ramificações e bifurcações que traçados, se confundiam com o plano da cidade... O Porto!

Rotunda da Boa Vista

O Porto oculto, invisível, escondido, negado, e não apenas camuflado, quando envolto na bruma densa e fria que o extingue e o guarda dos olhares mais óbvios, e que timidamente evita apresentar-se; o que se esconde na escuridão invernal. O Porto subterrâneo, a cidade que está sob a cidade, que se desdobra nos degraus da escadaria da praça da Arca D´Água, o mundo úmido, lugúbre e escuro, que corta-a, toda, por baixo... E corta junto a alma das gentes portuenses, que vivem à margem do Porto, como miragens que se arrastam nos labirintos dela, e deles. Que sequer conseguem captar a superfície, o inexaurível das pessoas e das coisas.
O rio que se derrama por baixo, desde a Rotunda da Boa Vista, rasga a rua de Campo Alegre e deságua no Douro.


Casas e varais na Ribeira

Mas existe também o Porto desoculto, visível, exposto, ensolarado e claro; com flores coloridas nas janelas, jardins e quintais; que se mostra aos olhos de quem o quiser ver. O Porto mágico, que desfila a beleza das casas antigas (ainda que decadentes), e os incontáveis varais com roupas estendidas, como bandeiras que tremulam num convite à paz, da Ribeira à Liberdade; da Foz ao cais.


No Mercado do Bolhão

O Porto cosmopolita na simplicidade do Bolhão; o Porto e a Trindade; nas casas comerciais da Via Santa Catarina;


Jardins do Palácio de Cristal

o Porto do Palácio de Cristal (e o Museu Romântico da Quinta da Macieirinha); do Museu de Serralves; do Vinho do Porto; a Casa do Infante; de Soares dos Reis; o Castelo do Queijo;


Torre dos Clérigos

da imponente, altiva e símbolo da cidade, a Torre dos Clérigos; o Porto de todos os caminhos, que se encontram e se separam... O Porto Medieval, pedaços de muralhas que cercavam a cidade;

Cavaleiro Templário
a estátua do Cavaleiro Templário, na lateral da Igreja da Sé... O estádio do Dragão, do azul e branco do Futebol Clube do Porto... E a Casa da Música, que tantas vezes acompanhou meus passos, e (des)compassos na melodia dos meus sonhos, no tamborilar dos meus dedos; e no cadenciado ritmo das minhas pernas compridas e o balanceado das minhas cadeiras... Além das construções sacras, como a deslumbrante Igreja de São Francisco...
Uma das caves do Porto

E o vinho e o Douro, ah! O Douro! Há o Rio Douro, que sempre me conferiu cumplicidade e lealdade, quando eu o margeava solenemente, em meu silente e religioso silêncio, quando o peito rasgado, pelas saudades de casa, o Douro recebia as lágrimas profusas que brotavam doridas dos meus olhos miúdos (mas grandes nos descobrimentos e deslumbramentos).
O Porto dos olhares desavisados e do desvario inusitado, quando a vista se descortina do lado de lá de Vila Nova de Gaia, e nos confere a mais bela e extasiante paisagem da cidade, as casas azulejadas e empoleiradas da Ribeira e o sol resplandecente nas águas do rio, engolindo a nossa íris;

O Douro, as pipas e a Ponte Dom Luís
o eléctrico que corta a Cordoaria, sobe pela Batalha e desce por Miragaia;
Eléctrico
Não vou contar do Porto e das histórias de lutas e glórias; das revoluções e tensões; não quero falar do que já é conhecido; não quero contar da grandeza do Porto, hoje eu canto a minha saudade dessa cidade, que me acolheu de braços abertos e me deu belezas, amores, amigos e canções. Da vida que flui e se transforma incessantemente, no meu pequeno mundo; o que está dentro e fora de mim; o Porto da minha Universidade; Porto, minha cidade. Do meu povo no Porto que morro de saudades!
Meu Porto querido, quantas revelações, quantas construções, nessa minha pequenina declaração de amor, rogo uma prece em teu louvor: aonde quer que eu vá, te carregarei e celebrarei. E como Dom Pedro V, vosso; I, nosso, deixo-te para a imemória (do que nunca será esquecido), meu coração, esse músculo, vermelho, pulsante que bate retumbante no compasso da minha saudade.

E transcrevo a frase da Amália Rodrigues, quando fala do Fado: "é tudo o que sei, mais o que eu não sei dizer". Assim é minha paixão pelo Porto.
E dentre tantas canções, a que embala tantos sentires, não podia ser outra que não:

Porto Sentido (Rui Veloso e Carlos Tê),

"Quem te vê ao vir da ponte/és cascata, são-joanina/dirigida sobre um monte/ no meio da neblina./ Por ruelas
e calçadas/da Ribeira até à Foz/por pedras sujas e gastas/e lampiões tristes e sós./E esse teu ar grave e sério/dum rosto e cantaria /que nos oculta o mistério/dessa luz bela e sombria/Ver-te assim abandonada/nesse timbre pardacento/nesse teu jeito fechado/de quem mói um sentimento/E é sempre a primeira vez/em cada regresso a casa/rever-te nessa altivez/de milhafre ferido na asa"

http://www.youtube.com/watch?v=OK0S4mYj1X0



Tarragona (Espanha), março de 2009













sábado, 24 de janeiro de 2009

"Alpes"

Saída do Porto, 7:00h da madrugada...

A vontade era de estrangular o meu telemóvel, calma, minha senhora e meu senhor, não sou uma pessoa violenta, mas convenhamos, 6:00h da madrugada, de um sábado propício para sequer abrir os olhos, imagina sair debaixo do edredão? 3º graus, a calefação a todo vapor, e o telemóvel-despertador histericamente gritando que estava na hora de levantar, após apenas uma horinha de sono? Pois, foi o tempo que preguei os olhos nessa viragem de dia; sou uma estudante aplicada (Deus sabe!), estava a estudar de facto, posto que estou no momento mais importante, ler, ler, ler; fichas e mais fichas; escrever, escrever, escrever; apresentação; enquadramento teórico; justificativa; contextualizar Brasil e Europa (Recife-Porto-Tarragona), não necessariamente nessa ordem, e outros quemais que vós sabeis muito bem... Mas "la nave vá" e eu dentro! E eu gosto!

    - Tóc! Tóc! Vamos? Estás pronta? Giovanni e Paulina já estão a descer, e eu liguei para o taxista.

    - Oi, Luciana, prontinha da silva, com os olhos cheios de areia, mas vamos, eu durmo na viagem...

Lá se vou eu rumo a mais uma aventura. Fomos numa excursão para os Alpes, os nossos Alpes: Serra da Estrela, queria ver a neve, imagina se eu não viveria isso?
Serra da Estrela, ou Montes Hermínios, mas como é intrínseco a mim e está imbricado em minhas vísceras, divaguei e vagueei mais uma vez na história... Montes Hermínios (como nominavam os romanos da antiguidade, e perdi-me a imaginar como sobreviviam os antigos, as batalhas. Dizem que aquí na Serra da Estrela, era a terra do líder lusitano, Viriato).
A viagem transcorreu tranquila, sentei-me na primeira poltrona vazia que encontrei nas proximidades do fundão, dei uma boa cochilada até chegar a primeira paragem, hora de comer algo, tomar um café... Tomei, tomei o café mais caro do mundo, nem em Paris era aquele preço, vô-te! Mas quem manda ser viciada em café? E depois, quentinho, e aquí (lá), um frio da moléstia, até a alma estava revestida em polar. Em Covilhã soubemos que o tempo não estava lá uma brastemp, teríamos que esperar um pouco, mudança de plano, de atividades, de tudo... Uma visita ao Museu do Pão, vendas e lojas da cercania. Em seguida fizemos um piquenique ao ar-livre, e bote livre nisso, porque tivemos inclusive a liberdade de varrer a espessa camada de gelo que cobria os bancos e mesas disponíveis para tal fim. Seguimos nosso destino, chegamos à poisada, quase noitinha, era aconchegante e limpa, o suficiente dentro das minhas exigências, fizemos o registro na recepção, entrega de passaportes e chaves... Afinal, dez horas dentro de um autocarro, acaba com o humor de qualquer um, eu queria mais era um banho quente e dormir. Mas antes, um reconhecimento do derredor, luzes difusas, opacas, no meio da neblina, neve por todo lado e eu feito criança, deslumbrada com aquela visão jamais vista em qualquer tempo, tudo branquinho, branquinho... Eu e Giovannito, começamos então uma guerra de bolas de neve, risos e quedas, e felicidade transbordante... Joguei-me na neve como quem se joga numa piscina, ela é sim gelada e branca, ê! Ficamos por ali a brincar, riscar na neve e a fazermos, ou melhor, tentamos fazer bonecos de neve.

Giovannito, eu, a neve e nossa alegria!

Na sala de convívio vislumbrei uma messa de ping pong, ô delícia! Alugamos por uma hora, e pude então fazer algo que não fazia desde a adolescência, ah,
gente, eu adoro jogar ping pong...

Uma arrumada rápida, realçar os olhos e a boca com uma maquiagem leve, quase virginal, o jantar seria noutra cidade e não me apetecia lá chegar com uma cara de cansaço sem mais.

Hora de irmos para a discoteca, e o tempo não ajudava em nada, a guarda local informara que seria perigoso se fizéssemos mais de uma viagem na madrugada, a temperatura havia caído, e ainda o aumento de neve e gelo nas ribanceiras que ladeavam a estrada. Mais uma vez mudança de planos, teríamos que ir todos por volta das 03:00h para a poisada, por mim, eu estava morta de cansada, dois dias, e duas noites sem dormir, eu queria mais era a minha caminha quentinha e meu cobertor de pele de ovelha (sintética, gente, sou ecologicamente correcta)... E assim foi, fomos. O pequeno almoço será servido até às 10:00h e subiremos a serra por volta das 13:00h, pensei comigo: hum, vou lá, como e volto para dormir, não me demoro no banho e estarei pronta na hora certa. Dito e feito, uhu! Comi, dormi e banhei...

Eu quero voar no azul mais lindo...

A visão da serra era comovente, o contraste entre a brancura da neve e o azul do céu, me levaram para além do êxtase da novidade, ou do desejo realizado, mas um paraíso tão íntimo e particular que só eu sentia (claro!). Abri os braços e por um instante senti-me voar, uma paz absurda me envolveu. E eu ali parada, diante daquela descomunal imagem, que revestida num manto branco, provocava os meus pensamentos e sentimentos, um sublime panorama, que mágica paisagem. E imaginava de quem era a astúcia de possibilitar a conquista (?) daquela Serra tão extasiante, dos deuses, deusas, ou dos homens (e mulheres)?
Mas chega de deambulações, vamos às atividades: esqui, snowboard e coisa nenhuma... Pegar a instrumentação, receber orientações e pagar mico...

Os pagadores de mico, ou melhor, os craques...

E o cansaço? Que cansaço, é comigo que a sua pessoa está a falar? E eu lá estou cansada, depois de viver um dia intenso, e mais de 48h sem dormir, quem é que está cansada aí? Só que eu quero agora é um café com leite, bem quente, de queimar a língua. Fui à estância com a Paulinita, pegamos café e ficamos a filosofar, sentadas, com os pés enfiados na neve, mergulhadas nas nossas reflexões e saudades: de quem não está fisicamente conosco, de quem já esteve e de quem jamais estará... Os olhares a perderem-se e a encontrarem-se no pôr-do- sol, no horizonte, uma confluência com o azul do céu, o branco da neve e o alaranjado daquela bola de fogo que se esmaecia. Serra da Estrela, hei-de tê-la sempre em minha íris, alma e no vermelho do meu coração.

Pegando um fresco... Vai uma geladinha aí?

Mas informo a quem interessar possa, não só há neve na Serra, apenas 1 km abaixo do início do paraíso branco, existe o paraíso verde. Chama-se Sabugueiro, talvez a aldeia mais alta de Portugal. Há uma cruel dúvida entre quem vai à Serra nas duas estações: se é mais bela no inverno, ou no verão...

    Aqui embaixo, tem uma novidade, para quem quiser, é só clicar no play e ouvirão a música que ora me delicio e me envolve. Lenine - e uma saudade besta do Recife - , Hoje eu quero sair só. Sabe o que acontece? Às vezes tenho uma vontade de sair só, na verdade, nunca estou só, estou sempre comigo, mas sinto vontade de estar apenas comigo. Porque eu volto para os que amo, sempre!

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...