sexta-feira, 9 de setembro de 2011

84 anos!


por fim a vida passou
sem pressa o tempo correu
aventuras tantas viveu
muitos fardos e espantos
e a sua história aconteceu

sete criações distintas
sete sentidos originais
sete dias da semana
sete memórias afiadas
sete sonhos no varal

nosso desenho ancestral
nosso mapa no bolso
nossa seta no caminho
nossa alegria de quintal
certeza e imensidão

lucidez e mansidão
farol aceso na escuridão
referência e ritual
a árvore mais antiga
raiz profunda no chão

porto seguro na agonia
nosso cais na ventania
cúmplice na alegria
parceiro de tantos sonhos
hoje completa

84 anos!

para o meu pai, o 'seu' alexandre colares.

difícil é escolher uma música, de tão musical que ele é, há uma vastidão em seu repertório... e como adoramos cantar juntos essa, vai ela mesma, perfídia - do mexicano alberto dominguez, versão do lamartine babo, com alceu valença, pero, escuchala con quien queira, abajo algunas sugerencias:



ahmad jamal
alberto dominguez
alfredo sadel
altemar dutra
anacani sings
antonella ruggiero
aura d ´angelo
bachatango
ben light orchestra
benny goodman
billy vaughn
billy may and his orchestra
boney diaz quintet feat david gallermo
buena vista social club
café habana
café tacuba
carla dupont
carola standertskjöld
cliff richard
david el gales
dexter
eddie osborne
el mariachi
emilio tuero
ethel smith
fausto papetti
four aces
foxy browny
francisco alves
guitarra clássica
glen miller
hammond
ibrahim ferrer
james last
javier solis
jerry gray
jossie esteban y la patrulla
julie london
julio iglesias
jorge sanchez
kai warner
kino moran
klevin klimek
la portuária
latin show
laura fygi
laurel aitken
likkle wicked & foxy
linda rontstad
los iracundos
los siderals
los majos
los rabanes
luis mariano
luis miguel
lupita palomera
manfred muller
margarita luna
matadors
nana mouskouri
nat king cole
nelson ned
nelson gonçalves e montesserat
nilla pizzi
orhestra roberto delgado
orchestre benoit przybyla
oscar solo
pablo milanes
paco de maría
pan hall
paul mauriat
phyllis dillon
plácido domingo
ray conniff
roberto valle
sara montiel
semino rossi
siete santos
si zentner and his orchestra
sylvia syms
the 50 guitars of tommy garret
the dematrons
the estrada brothers
the fenders
the firebirds
the cliffters
the neptunas
the shadows
the ventures
tobago euphonic sounds steel orchestra
trini lopez
trio irakitan
trio los tres caballeros
trio los panchos
walk don´t run
xavier cugat

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

em setembro será outro tempo


Persistência da Memória - Salvador Dali

ora sou a mais paciente das criaturas humanas, ora sequer abro os olhos, porque não quero nem ver a luz do dia. essa contradição em permanência que sou se chama em parte saudade. ando com saudades desmedidas, especialmente de mim, estou impaciente com o tempo que não passa, e voa ao mesmo tempo. 
além da ambiguidade que é senhora dos meus dias. e como se não fosse suficiente ainda estou vivendo um tempo que não é mais meu. esse tempo desconhecido, disforme, mole, escorregadio, fugindo pelos dedos, subtraindo as horas, uma subjetividade do tempo carregado de incompreensões. hermético. orgânico. caótico. imperativo. inegociável. cheio de abstrações e enigmas.e que me dá uma sentença clara, direta: já passa do momento do desfecho, chega de deslocamentos! não permita que o tempo arruíne os projetos, os sentimentos; que desaqueça a alma, desmonte-o, surpreenda-o. encha o vazio de sentidos, aspire a nova brisa e renove todos os sonhos... as coisas boas se vão suavemente, mas sempre retornam repletas de possibilidades.
ainda bem que logo, logo vai entrar setembro, outro tempo, outros projetos, outras nascentes, outras gentes,  e muitas boas novas entrarão juntas nos campos,  plantaremos e colheremos, outras, e mais sementes para novas messes.

certas canções e situações são inesquecíveis, sol de primavera - beto guedes, faz parte desses momentos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"a linha e o linho"

imagem colhida na internet

tenho cócegas nos dedos
que me obrigam a fazer ranhuras

a rabiscar
a experimentar
outras texturas

tenho cócegas nos dedos
que me obrigam a dedilhar as notas

sair do limbo

escrever um poema sinfônico
traçar uma rota

tenho cócegas nos dedos
que me obrigam  a trançar linhas

- as tuas, as minhas -
tocar no linho
deslizar nos dias

e reinventar um mundo!
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III - VIII - MMXI

O Dimas lapidou a poesia trançando algumas linhas do linho, sofisticando-a:

Vinde, versos, vinde!
Rimas, fala, canto.
Na boca, um poema, um brinde,
Língua que lambe encanto.

Faz, refaz e desfaz,
Vai e reinventa o mundo.
Semeia o chão fecundo,
Que brotam palavras de paz.



Dimas Lins
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advinhem? o óbvio ululante: a linha e o linho - gilberto gil

sábado, 13 de agosto de 2011

ontem à noite no porteño

imagem recolhida na internet

escrever tem um quê de insondável
tem um quê de determinismo
tem um quê de filosófico
tem um quê de metafísico
escrever, escrever
gêneros textuais

definição, explosão, metáfora, alegria
fodere no baixo latim
numa sexta atemporal
pedras, estradas, pontes, sementeiras num canto da cidade
interligados e conf(id)luentes
rios do mundo que desembocam no Recife

entre mesas e cadeiras
luzes artificiais
o fogo da poesia numa chama de vela
que mesa alegre era aquela?
de João Cabral a Mário Faustino
de Drummond a Ítalo Calvino

de Manuel Bandeira a Mia Couto
António Lobo Antunes e Fernando Sabino
mas não parou por aí
uma partícula e era prosa
quando penso em América do Sul
nunca lembro Vargas Llosa

concordância ancestral
extraídas das entranhas da terra
transformando em ouro os metais vis
lóg filosofal
perpetuada por um poeta genial

outras feras também estavam lá
em rosa pura e lírio
Cecília e Clarice
contrárias e complementares
entre as linhas, as costuras da emoção
uma é feitiçaria e a outra magia, ambas: poesia

quando publicamos a obra já não nos pertence
Graciliano Ramos presença indispensável
sentimento, sangue e carne tudo transformado em arte
Osman Lins nos arrebata, Nove, Novena
Avalovara e um  palindrômico emblema
Guimarães, ah o Rosa quem não já se enveredou pelo Grandes Sertões...?

Alice Ruiz e Paulo Leminski
não poderiam se ausentar
concisão e objetividade em meio ao desejo
na passagem em potencial
da interface virtual para o sabor do real
vai, vai e temos um haikai

Galeano e Cortázar
foram se instalar entre abraços
fantásticas palavras-pontes
Mafalda do Quino também estava lá
mas não há como sobre O Muro ficar
numa mesa de poetas, sonhos desdobrados de dentro da bolsa

a melancolia também é matéria no ar:
Sartre pode me explicar
a confissão que se ouve
pelo canto da boca
ladeada de delicadezas
sementeiras que brota(m)vam  vida

sua inspiração está na lida cotidiana
como o mestre do nordeste
Patativa do Assaré
meus versos é como semente
que nasce arriba do chão
mas sempre bebendo na fonte do coração

nos encontros marcados pela vida
nunca se sabe onde vai dar
isso foi só o começo desse nosso estradar
uma rede de afetos
começou a se formar
interligados pela escrita
inesgotável fonte de amar!

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Olinda, XII - VIII - MMXI

Para Magna, Josias, Dimas e Fabiana, obrigada pela alegria de ontem!

Lena, Ducaldo e Edjane, um agradecimento para lá de especial (e um pedido de perdão) por aturarem uma gente tagarela e ávida por poesia, e excesso de alegria. vocês são parceiros dessa festa! 
Também estavam presentes nas palavras, no carinho e na admiração, Ana Cláudia, Samarone, Naire e Silvinha.

Belchior, Ypê

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

poeminha sem título

imagem retirada da internet


em pouso
repousadas entre as pernas
estendidas sobre o corpo

essas mãos que nada dizem
nada fazem
nem afagam

e afundam
como desejos
que não podem ser ditos

proibidos
pássaros aprisionados
entre o choro e o riso

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XXX - VII - MMXI
monica salmaso, canto em qualquer canto - ná ozzetti e itamar assumpção - sem mais delongas, a voz e a interpretação dela dispensam comentários. curtam!

se desejarem, podem escutá-la com a ná, com o itamar, com a regina machado, com a valéria oliveira, com o ney matogrosso... (http://www.radio.uol.com.br/#/album/ney-matogrosso/canto-em-qualquer-canto/13030)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

... e naquela noite no elevador

imagem retirada da internet

não se importavam com o frio, nem tampouco com os riscos que corriam. ela sabia apenas que o queria, sim ela o queria, e naquele instante. o clima sentido na balada, há pouco tempo atrás, quando dançaram colados à meia-luz, o corpo teso dele, o tremor dela, a mistura dos cheiros, a música, a voz... estarem agora a sós no elevador, atiçara por fim a explosão de sentimentos vividos naquele lugar abarrotado de pessoas, nas poucas horas em que lá estiveram.
com os olhos cheios de lascívia fixos nos dele, aproximou-se, e com as pontas dos dedos, de forma suave, desenhou seu rosto, detendo-se nos lábios, contornou-os… em seguida encostou todo o corpo contra o dele, de modo que não havia nenhum impedimento entre eles, beijou-o na boca, e com a língua lambia seus lábios, de maneira ávida e gulosa, de forma ininterrupta, estava arrebatada de desejos. ele em estado de choque -  deslumbrado e ao mesmo tempo -, paralisado com a ousadia daquela mulher, mas seu corpo inteiro denunciava o ápice do tesão e tensão em que ele também se encontrava: as pupilas dilatadas, sangue queimando por dentro, o coração dando pancadas no peito… já era dela prisioneiro, desejava-a, sua pele branca e macia, olhos perspicazes numa tonalidade que o confundia. dona de uma boca sensual, lábios carnudos pintados com um batom vermelho, inalava desejo; um cheiro de cio, tomava conta do ambiente, e a mistura do odor do corpo dela com a fragrância do perfume que usava – uma mescla de fougère com cardamono – enlouqueciam-no.
ela ria diabolicamente; ele estático, tragado pela vontade de tocá-la, apalpar suas carnes macias, e pelo medo de serem flagrados. ela irresponsavelmente brincava com os botões do elevador, o queria ali, naquele exíguo, frio, impessoal e perigoso ambiente - de certo modo, saber que poderiam ser interrompidos a qualquer momento pela chegada inesperada de alguém, estimulava-a e aumentava a libido, o desejo. explosão à toda! enroscava nele as suas pernas alternadamente; que por sua vez segurava-na pelas costas, e prendia-na com a força do próprio corpo, e firme puxava-na para cima dele; num volteio rápido, prendeu-na contra a parede do elevador; com uma mão, apertava sua anca, com a outra desatava seu casaco e seu vestido vermelho; ficou extasiado quando se deparou com um par de seios generosos, duros como alabastro e biquinhos rosa, mergulhou dentro da blusa; gemendo, louco de paixão sugava-lhe os mamilos; sua mão descia e tocava o sexo dela, túrgido, quente e úmido… um estado de fúria tomou conta de ambos, então ela apressou-se a desabotoar a camisa dele, e acariciou-lhe o dorso, a necessidade de senti-lo em sua pulsão era imperativa. enquanto suas mãos trêmulas desapertavam o zíper da calça dele, se esfregava, se oferecia, sem pudores ou limites, não resistindo à sua boca, beijou-o de forma a engoli-lo, depois desceu docemente até ao pescoço e deu um chupão faminto, deixando sua marca, alternava os beijos e chupões; quando finalmente ele implorara entre murmúrios e palavras inaudíveis que ela descesse e o abocanhasse rijo. ela solta uma gargalhada, e morde os lábios dele, quando vê um filete de sangue escorrendo no cantinho da sua boca, abre a porta do elevador e sai caminhando sem olhar para trás… certificara-se do desejo poderoso que  les deux nutriam um pelo o outro; e sabia sem se virar, que ele estava lá, à porta do elevador, petrificado, semi-despido em estado de alumbramento. não tinha dúvida, aquele homem já era dela.


massive attack - dissolved girl

segunda-feira, 25 de julho de 2011

barcos à deriva

(imagem recolhida na internet)

quebra de padrões
naquela tonalidade cinza
uma linguagem chumbo


bifurcações nos caminhos
à esquerda ou à direita?
interroga o tempo áspero


situações velhas
para resoluções novas
costumes puídos


contratos desvalidos
escritos na areia do mar
embates nocivos


delicadezas na gaveta da escrivaninha
desmemórias
histórias que se desfazem


dureza pincipal ponto
desdém
esse cais de porto


embarcações que não atracam
barcos à deriva
não chegam afinal na praia

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Para Ana Carolina

X - X - MMIX

Cais - Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

domingo, 10 de julho de 2011

in memoriam

                                                                                                                                                                         imagem recolhida na internet


o veneno vermelho da saudade
tingia de morte
um amor que já desafalecia

aquele imenso amor
- aquele que pensava ser um dia -
nem deu por si


quanto
como desaparecia
 

na lápide se inscreveria
in memoriam:
aqui jaz aquele que tanto tentou

mas não vingou

só adoecia
e não sobreviveu!

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IV.VI.MMXI

O mundo todo canta essa música, Insensatez* - Tom Jobim e Vinicius de Morais - vamos ao Tom...



*Alguns interprétes de Insensatez, escolha o seu...

Alaíde Costa
-->
Andrea Lindsay
Clara Nunes
Eliana Printes
Elis Regina
Emilio Santiago
Fernanda Takai
Francis Albert
Frank Sinatra
Jair Rodrigues
Joao Gilberto
Lalo Schifrim
Marcela Mangabeira
Maria Creuza
Mercedes Sosa
Monica Salmaso
Nana Caymmi & Hélio Delmiro
Paula Morelembaum
Paulinho Nogueira
Roberto Carlos
Rosa Passos
Sylvia Telles
Shirley Espíndola
Toquinho
Vinicius de Morais

domingo, 3 de julho de 2011

e lá "onde o judas perdeu as botas"..

o dia amanheceu normal como sempre, como todos os outros. pendências para acertar, resoluções externas, definições com o engenheiro, checklist - é chegado o momento de finalizações, enfim -, a baritação,  a cadeira, o compressor, a porta do laboratório, sala disso, sala daquilo... pós-almoço, tempo quente, quase derretendo e o convite:
- queres ir passear de lancha?
nem pensei, respondi na lata: quero! vou só checar uns telefonemas, dar umas orientações e estarei pronta.
o passeio, a travessia para a outra margem do rio, e uma parada naquela areia branquinha e fina, uma vontade de misturar-me com ela e descer rio abaixo... sentei-me à margem e fiquei contemplando o prenúncio do por do sol, as cores que se alternavam, uma paisagem quase comum, se não fosse pelo céu cinzento, raiado de laranja incandescente e o rio deslizando tranquilo naquele fim de tarde, e o pensamento longe, tão longe que quase não o retomo. a impressão que tive era que o vento sussurrava aos meus ouvidos, me inquirindo:
- como é o seu nome?
- v., e o seu?
- e., você sabe nadar?
- hunrum. 
- e por que você não nada? 
- ah, tenho medo de contrair esquistossomose...
- esqui o quê?
- barriga d´água, doença do caramujo,  "xistose".
- ah, já sei, uma pessoa morreu disso.
- você quer olhar o rio?
- mas eu já estou olhando
- não, a gente olha o rio é de cabeça pra baixo, ele fica mais bonito! quer ver?
-quero! vamos!
me pus a plantar bananeira com o e. e de fato o rio parece outro. passamos a conversar naquela posição, perguntava-me tudo, e dizia-me tudo, falante, divertido, agradável, cheio de curiosidades, queria saber se eu gostava de sol, porquê eu tinha a mesma cor da areia, porquê meu cabelo era assim, assado, porquê eu falava diferente dele... milhões de indagações para um menino esperto de apenas seis anos de idade... e uma curiosidade do tamanho do mundo.
algum tempo depois, decidiu pular para dentro de uma fenda na areia, e ficou escavando a terra com as mãos, convidando-me para fazermos "castelos de pés" - cobre-se o pé com com areia úmida, e depois, devagar puxa-se o pé, sem desmanchar a tal construção, e vai-se fazendo vários destes, todos próximos, os tais "castelos de pés"-, achei divertido aquilo tudo, e pulei para dentro da fenda com ele e tentei edificar um feudo, insucesso total, ao contrário do garoto.
- eu agora vou tomar banho e jantar, minha mãe tá chamando, tchau, moça!
- tchau, e prazer viu?
recebi um sorriso farto como resposta, um aceno de mão e algumas "estrelas" puladas na areia...(ele todo rajado de areia, descalço, um calção surrado, pulou no rio, mergulhava, fazia a festa, diluía-se junto, fundia-se com a água, depois saiu e sumiu).
sentei-me outra vez à beira do rio, desta feita, no interior de uma canoa, e deixei os meus pés dentro da água, e brincava de fazer movimentos circulares com os pés, para ver o banzeiro na superfície. a.c. aproxima-se e pergunta se pode entrar no rio, respondo que sim, desde que ela não se afaste, afinal não conhecemos a profundidade dele, nem tampouco a força da correnteza, e além do mais já estava escurecendo...
enquanto me aquieto na canoa, olhando aquela natureza tão familiar, a pergunta chega repetidamente como um eco:
- ela já é batizada?
virei-me e deparei-me com uma menina de olhos vivazes, amendoados, castanhos, cabelos longos, e uma vontade louca de sair da sua mesmice relacional, conversar com uma pessoa desconhecida e finalmente contar as suas histórias, fortalecer a própria crença a partir do imaginário coletivo.
- sim, é, sim, por quê?
- porque se ela não for, ela não pode tomar banho às seis horas da tarde.
-e não? e por quê não?
- "porque senão a mãe d´água vem buscar ela"
- buscá-la, como assim?
- é que qualquer pessoa se não for batizada, não pode tomar banho às seis horas da tarde, a mãe d ´água vem buscar na hora, e nem vemos quando arrasta a pessoa pro fundo do rio e nunca mais a gente vê, sabia?
- sabia não... oxente!
- pois é, e a mão dela é fria e ligeira. eu já sou batizada por isso eu banho qualquer hora, mas a hora que eu mais gosto é dez da noite, a água tá morninha e boa! e também esse rio é cheio de cobras e jacarés...
(meti meus pés pra dentro da canoa e fiquei ali observando aquela menina, cheia de vida, conversadora, contando os "causos", as histórias que sua avó, mãe, as pessoas da comunidade, contam/contavam e a força da oralidade, ficamos conversando sobre tudo, ela estudava em dois turnos, duas séries diferentes, "só por causa de uma matéria - matemática" - ; como se constrói uma pipa; o seu cão que nadava léguas naquele rio; e que as pessoas diziam que o irmão comia cobra, e ela rebatia veementemente essa acusação, ele apenas matavam-nas, tratavam-nas, deixavam-nas limpinhas, e só guardava a gordura delas. mas que ela gostava mesmo era da carne de jacaré; e que em sua casa havia quatro tatus, mas um fugira, outro a família comera, um terceiro morrera de raiva por ter sido aprisionado, e o quarto estava lá,  e era ela quem cuidava, alimentava, etc...)
- mas olha, dona, sabia que se alguém levar para sua casa os ovos de uma cobra, ela vai buscar na sua casa, à meia noite? a pessoa pode morar onde morar, mas a cobra vai atrás.
- eita, é mesmo? sabia não... mesmo sem ter o endereço a cobra vai atrás?
(confesso que num ímpeto quase indaguei se a cobra tinha gps)
perguntei-lhe seu nome: a., sua idade, o que mais gostava de fazer, etc. ficamos proseando com bastante entusiasmo, até que ela se despede, ia ajudar a mãe na banca - vender mingau de milho, munguzá -. e aproveitei para tirar a.c. da água, e subir para comer um delicioso peixe frito, acompanhado daquela "cerva" geladíssima.
o céu estava estrelado, luzes difusas na outra margem, temperatura amena, e na mesa, uma conversa boa, e ótimas companhias.
quando já estamos nos despedindo, avisam-me: "a., tá perguntando se a senhora não quer um copo de mingau"? eu já nem podia mais ver comida na minha frente, mas como rejeitar uma oferta tão carinhosa como aquela?
- sim, claro que sim, com muito gosto!
nessa hora fico toda "cheia de dedos", e se eu perguntar quanto custa, será que a menina ficaria ofendida? perguntava-me, e respondia-me imediatamente: sei não, será? decidi arriscar e perguntei. docemente ela disse que não precisava pagar não, ela estava me dando. mas como ser justa diante de uma situação dessas? afinal ela não auxiliava a mãe por lazer, não vendiam mingau de milho pra fazer graça, mas por necessidade óbvia e eu não queria deixar de ajudá-las. então combinei com ela, que naquela noite eu pagaria, mas que na próxima vez eu aceitaria a cortesia. ela então concordou e saiu acenando.
e eu fiquei fazendo mil conjecturas acerca da vida, dos encontros, e do quanto tudo pode ser simples, se quisermos...

sei lá, saí de lá e fiquei escutando o palavra cantada - trilhares...

domingo, 19 de junho de 2011

anjo vencido

(imagem colhida da internet)

amassei as flores
rasguei as cartas
queimei as fotografias

devolvi o anel
quebrei os discos
apaguei as estrelas

e fiquei anjo vencido
esquecido, dormido
cama de pedra

asas encharcadas
molhadas
das lágrimas que não chorei!

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MMXI

São Jimi Hendrix, Angel. Voe, voe através da canção, alcance o céu, mas não tente me alcançar... Não mais!

domingo, 5 de junho de 2011

o que importa?


foto: deborah tuberville

o que importa o que eu seja?
o que importa o que eu diga?
o que importa o que eu faça?
o que importa o que você saiba?
o que importa o que eu sinta?

No fundo, no fundo mesmo (você não sabe nada sobre mim), só eu sei dos eus que sou; das dores que senti; das saudades que vivi; das incontáveis vezes que eu tive que morrer sozinha, me esconder do mundo; só eu sei, sobretudo, o que eu não vivi.
Dos meus espasmos e espantos só quem sabe sou eu!

Eu gosto mesmo da voz dessa moça, especialmente quando ela canta blues: Klébi Nori ,  A Cidade de Outro

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...