quarta-feira, 3 de agosto de 2011

... e naquela noite no elevador

imagem retirada da internet

não se importavam com o frio, nem tampouco com os riscos que corriam. ela sabia apenas que o queria, sim ela o queria, e naquele instante. o clima sentido na balada, há pouco tempo atrás, quando dançaram colados à meia-luz, o corpo teso dele, o tremor dela, a mistura dos cheiros, a música, a voz... estarem agora a sós no elevador, atiçara por fim a explosão de sentimentos vividos naquele lugar abarrotado de pessoas, nas poucas horas em que lá estiveram.
com os olhos cheios de lascívia fixos nos dele, aproximou-se, e com as pontas dos dedos, de forma suave, desenhou seu rosto, detendo-se nos lábios, contornou-os… em seguida encostou todo o corpo contra o dele, de modo que não havia nenhum impedimento entre eles, beijou-o na boca, e com a língua lambia seus lábios, de maneira ávida e gulosa, de forma ininterrupta, estava arrebatada de desejos. ele em estado de choque -  deslumbrado e ao mesmo tempo -, paralisado com a ousadia daquela mulher, mas seu corpo inteiro denunciava o ápice do tesão e tensão em que ele também se encontrava: as pupilas dilatadas, sangue queimando por dentro, o coração dando pancadas no peito… já era dela prisioneiro, desejava-a, sua pele branca e macia, olhos perspicazes numa tonalidade que o confundia. dona de uma boca sensual, lábios carnudos pintados com um batom vermelho, inalava desejo; um cheiro de cio, tomava conta do ambiente, e a mistura do odor do corpo dela com a fragrância do perfume que usava – uma mescla de fougère com cardamono – enlouqueciam-no.
ela ria diabolicamente; ele estático, tragado pela vontade de tocá-la, apalpar suas carnes macias, e pelo medo de serem flagrados. ela irresponsavelmente brincava com os botões do elevador, o queria ali, naquele exíguo, frio, impessoal e perigoso ambiente - de certo modo, saber que poderiam ser interrompidos a qualquer momento pela chegada inesperada de alguém, estimulava-a e aumentava a libido, o desejo. explosão à toda! enroscava nele as suas pernas alternadamente; que por sua vez segurava-na pelas costas, e prendia-na com a força do próprio corpo, e firme puxava-na para cima dele; num volteio rápido, prendeu-na contra a parede do elevador; com uma mão, apertava sua anca, com a outra desatava seu casaco e seu vestido vermelho; ficou extasiado quando se deparou com um par de seios generosos, duros como alabastro e biquinhos rosa, mergulhou dentro da blusa; gemendo, louco de paixão sugava-lhe os mamilos; sua mão descia e tocava o sexo dela, túrgido, quente e úmido… um estado de fúria tomou conta de ambos, então ela apressou-se a desabotoar a camisa dele, e acariciou-lhe o dorso, a necessidade de senti-lo em sua pulsão era imperativa. enquanto suas mãos trêmulas desapertavam o zíper da calça dele, se esfregava, se oferecia, sem pudores ou limites, não resistindo à sua boca, beijou-o de forma a engoli-lo, depois desceu docemente até ao pescoço e deu um chupão faminto, deixando sua marca, alternava os beijos e chupões; quando finalmente ele implorara entre murmúrios e palavras inaudíveis que ela descesse e o abocanhasse rijo. ela solta uma gargalhada, e morde os lábios dele, quando vê um filete de sangue escorrendo no cantinho da sua boca, abre a porta do elevador e sai caminhando sem olhar para trás… certificara-se do desejo poderoso que  les deux nutriam um pelo o outro; e sabia sem se virar, que ele estava lá, à porta do elevador, petrificado, semi-despido em estado de alumbramento. não tinha dúvida, aquele homem já era dela.


massive attack - dissolved girl

segunda-feira, 25 de julho de 2011

barcos à deriva

(imagem recolhida na internet)

quebra de padrões
naquela tonalidade cinza
uma linguagem chumbo


bifurcações nos caminhos
à esquerda ou à direita?
interroga o tempo áspero


situações velhas
para resoluções novas
costumes puídos


contratos desvalidos
escritos na areia do mar
embates nocivos


delicadezas na gaveta da escrivaninha
desmemórias
histórias que se desfazem


dureza pincipal ponto
desdém
esse cais de porto


embarcações que não atracam
barcos à deriva
não chegam afinal na praia

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Para Ana Carolina

X - X - MMIX

Cais - Milton Nascimento/Ronaldo Bastos

domingo, 10 de julho de 2011

in memoriam

                                                                                                                                                                         imagem recolhida na internet


o veneno vermelho da saudade
tingia de morte
um amor que já desafalecia

aquele imenso amor
- aquele que pensava ser um dia -
nem deu por si


quanto
como desaparecia
 

na lápide se inscreveria
in memoriam:
aqui jaz aquele que tanto tentou

mas não vingou

só adoecia
e não sobreviveu!

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IV.VI.MMXI

O mundo todo canta essa música, Insensatez* - Tom Jobim e Vinicius de Morais - vamos ao Tom...



*Alguns interprétes de Insensatez, escolha o seu...

Alaíde Costa
-->
Andrea Lindsay
Clara Nunes
Eliana Printes
Elis Regina
Emilio Santiago
Fernanda Takai
Francis Albert
Frank Sinatra
Jair Rodrigues
Joao Gilberto
Lalo Schifrim
Marcela Mangabeira
Maria Creuza
Mercedes Sosa
Monica Salmaso
Nana Caymmi & Hélio Delmiro
Paula Morelembaum
Paulinho Nogueira
Roberto Carlos
Rosa Passos
Sylvia Telles
Shirley Espíndola
Toquinho
Vinicius de Morais

domingo, 3 de julho de 2011

e lá "onde o judas perdeu as botas"..

o dia amanheceu normal como sempre, como todos os outros. pendências para acertar, resoluções externas, definições com o engenheiro, checklist - é chegado o momento de finalizações, enfim -, a baritação,  a cadeira, o compressor, a porta do laboratório, sala disso, sala daquilo... pós-almoço, tempo quente, quase derretendo e o convite:
- queres ir passear de lancha?
nem pensei, respondi na lata: quero! vou só checar uns telefonemas, dar umas orientações e estarei pronta.
o passeio, a travessia para a outra margem do rio, e uma parada naquela areia branquinha e fina, uma vontade de misturar-me com ela e descer rio abaixo... sentei-me à margem e fiquei contemplando o prenúncio do por do sol, as cores que se alternavam, uma paisagem quase comum, se não fosse pelo céu cinzento, raiado de laranja incandescente e o rio deslizando tranquilo naquele fim de tarde, e o pensamento longe, tão longe que quase não o retomo. a impressão que tive era que o vento sussurrava aos meus ouvidos, me inquirindo:
- como é o seu nome?
- v., e o seu?
- e., você sabe nadar?
- hunrum. 
- e por que você não nada? 
- ah, tenho medo de contrair esquistossomose...
- esqui o quê?
- barriga d´água, doença do caramujo,  "xistose".
- ah, já sei, uma pessoa morreu disso.
- você quer olhar o rio?
- mas eu já estou olhando
- não, a gente olha o rio é de cabeça pra baixo, ele fica mais bonito! quer ver?
-quero! vamos!
me pus a plantar bananeira com o e. e de fato o rio parece outro. passamos a conversar naquela posição, perguntava-me tudo, e dizia-me tudo, falante, divertido, agradável, cheio de curiosidades, queria saber se eu gostava de sol, porquê eu tinha a mesma cor da areia, porquê meu cabelo era assim, assado, porquê eu falava diferente dele... milhões de indagações para um menino esperto de apenas seis anos de idade... e uma curiosidade do tamanho do mundo.
algum tempo depois, decidiu pular para dentro de uma fenda na areia, e ficou escavando a terra com as mãos, convidando-me para fazermos "castelos de pés" - cobre-se o pé com com areia úmida, e depois, devagar puxa-se o pé, sem desmanchar a tal construção, e vai-se fazendo vários destes, todos próximos, os tais "castelos de pés"-, achei divertido aquilo tudo, e pulei para dentro da fenda com ele e tentei edificar um feudo, insucesso total, ao contrário do garoto.
- eu agora vou tomar banho e jantar, minha mãe tá chamando, tchau, moça!
- tchau, e prazer viu?
recebi um sorriso farto como resposta, um aceno de mão e algumas "estrelas" puladas na areia...(ele todo rajado de areia, descalço, um calção surrado, pulou no rio, mergulhava, fazia a festa, diluía-se junto, fundia-se com a água, depois saiu e sumiu).
sentei-me outra vez à beira do rio, desta feita, no interior de uma canoa, e deixei os meus pés dentro da água, e brincava de fazer movimentos circulares com os pés, para ver o banzeiro na superfície. a.c. aproxima-se e pergunta se pode entrar no rio, respondo que sim, desde que ela não se afaste, afinal não conhecemos a profundidade dele, nem tampouco a força da correnteza, e além do mais já estava escurecendo...
enquanto me aquieto na canoa, olhando aquela natureza tão familiar, a pergunta chega repetidamente como um eco:
- ela já é batizada?
virei-me e deparei-me com uma menina de olhos vivazes, amendoados, castanhos, cabelos longos, e uma vontade louca de sair da sua mesmice relacional, conversar com uma pessoa desconhecida e finalmente contar as suas histórias, fortalecer a própria crença a partir do imaginário coletivo.
- sim, é, sim, por quê?
- porque se ela não for, ela não pode tomar banho às seis horas da tarde.
-e não? e por quê não?
- "porque senão a mãe d´água vem buscar ela"
- buscá-la, como assim?
- é que qualquer pessoa se não for batizada, não pode tomar banho às seis horas da tarde, a mãe d ´água vem buscar na hora, e nem vemos quando arrasta a pessoa pro fundo do rio e nunca mais a gente vê, sabia?
- sabia não... oxente!
- pois é, e a mão dela é fria e ligeira. eu já sou batizada por isso eu banho qualquer hora, mas a hora que eu mais gosto é dez da noite, a água tá morninha e boa! e também esse rio é cheio de cobras e jacarés...
(meti meus pés pra dentro da canoa e fiquei ali observando aquela menina, cheia de vida, conversadora, contando os "causos", as histórias que sua avó, mãe, as pessoas da comunidade, contam/contavam e a força da oralidade, ficamos conversando sobre tudo, ela estudava em dois turnos, duas séries diferentes, "só por causa de uma matéria - matemática" - ; como se constrói uma pipa; o seu cão que nadava léguas naquele rio; e que as pessoas diziam que o irmão comia cobra, e ela rebatia veementemente essa acusação, ele apenas matavam-nas, tratavam-nas, deixavam-nas limpinhas, e só guardava a gordura delas. mas que ela gostava mesmo era da carne de jacaré; e que em sua casa havia quatro tatus, mas um fugira, outro a família comera, um terceiro morrera de raiva por ter sido aprisionado, e o quarto estava lá,  e era ela quem cuidava, alimentava, etc...)
- mas olha, dona, sabia que se alguém levar para sua casa os ovos de uma cobra, ela vai buscar na sua casa, à meia noite? a pessoa pode morar onde morar, mas a cobra vai atrás.
- eita, é mesmo? sabia não... mesmo sem ter o endereço a cobra vai atrás?
(confesso que num ímpeto quase indaguei se a cobra tinha gps)
perguntei-lhe seu nome: a., sua idade, o que mais gostava de fazer, etc. ficamos proseando com bastante entusiasmo, até que ela se despede, ia ajudar a mãe na banca - vender mingau de milho, munguzá -. e aproveitei para tirar a.c. da água, e subir para comer um delicioso peixe frito, acompanhado daquela "cerva" geladíssima.
o céu estava estrelado, luzes difusas na outra margem, temperatura amena, e na mesa, uma conversa boa, e ótimas companhias.
quando já estamos nos despedindo, avisam-me: "a., tá perguntando se a senhora não quer um copo de mingau"? eu já nem podia mais ver comida na minha frente, mas como rejeitar uma oferta tão carinhosa como aquela?
- sim, claro que sim, com muito gosto!
nessa hora fico toda "cheia de dedos", e se eu perguntar quanto custa, será que a menina ficaria ofendida? perguntava-me, e respondia-me imediatamente: sei não, será? decidi arriscar e perguntei. docemente ela disse que não precisava pagar não, ela estava me dando. mas como ser justa diante de uma situação dessas? afinal ela não auxiliava a mãe por lazer, não vendiam mingau de milho pra fazer graça, mas por necessidade óbvia e eu não queria deixar de ajudá-las. então combinei com ela, que naquela noite eu pagaria, mas que na próxima vez eu aceitaria a cortesia. ela então concordou e saiu acenando.
e eu fiquei fazendo mil conjecturas acerca da vida, dos encontros, e do quanto tudo pode ser simples, se quisermos...

sei lá, saí de lá e fiquei escutando o palavra cantada - trilhares...

domingo, 19 de junho de 2011

anjo vencido

(imagem colhida da internet)

amassei as flores
rasguei as cartas
queimei as fotografias

devolvi o anel
quebrei os discos
apaguei as estrelas

e fiquei anjo vencido
esquecido, dormido
cama de pedra

asas encharcadas
molhadas
das lágrimas que não chorei!

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MMXI

São Jimi Hendrix, Angel. Voe, voe através da canção, alcance o céu, mas não tente me alcançar... Não mais!

domingo, 5 de junho de 2011

o que importa?


foto: deborah tuberville

o que importa o que eu seja?
o que importa o que eu diga?
o que importa o que eu faça?
o que importa o que você saiba?
o que importa o que eu sinta?

No fundo, no fundo mesmo (você não sabe nada sobre mim), só eu sei dos eus que sou; das dores que senti; das saudades que vivi; das incontáveis vezes que eu tive que morrer sozinha, me esconder do mundo; só eu sei, sobretudo, o que eu não vivi.
Dos meus espasmos e espantos só quem sabe sou eu!

Eu gosto mesmo da voz dessa moça, especialmente quando ela canta blues: Klébi Nori ,  A Cidade de Outro

quinta-feira, 26 de maio de 2011

um ângulo reto

foto: António Domingues

A concepção, o ângulo e o artista. O artista, a concepção e o ângulo, um plano composto de uma abertura e duas semi-retas, onde a origem comum foi criada pelo manejo da lente artificiosa do fotógrafo, aproveitando a bissetriz ali existente! Uma geometria do olhar, em que elementos simplórios magnificam-se, eis a sensibilidade em alto grau! Duas, três  linhas, reais e fictícias (?); sombra e luz:  um jogo de contrários  presentes na imagem, meios indispensáveis à obra do artíficie, que com grande habilidade nos mostra o ângulo reto, exposto na areia da praia, disposto, à espera de quem o significasse.

John Coltrane - Naima

segunda-feira, 16 de maio de 2011

fio de ternura


imagem colhida na internet


como posso dizer que o silêncio habita em mim
se o teu riso brinca comigo
se a tua voz ressoa melodiosa
num fio de ternura aos meus ouvidos

como posso falar de vazio
se estou tomada pelo calor dos teus abraços
e a vida se multiplica
nas canções que me deste

como posso esquecer o céu de cristal
se seus olhos cheios de promessas
caleidoscópicos
me falam dessa grandeza descomunal

como conjugar ausência
se teu corpo quente aquece minha pele nua
e bebo da tua boca a última gota do teu beijo
e minha mão desliza na tua

como te imaginar longe de mim
se a cada noite te esgueiras docemente
entre os meus lençóis
e deitas tão suavemente

e nesse espaço interdito
conto dias
cato conchas
planto flores
costuro rendas

enfeito esse vão 
invento-me alegrias
em transbordo de amor
para sorrir mais uma vez em novo dia



Há quem prefira A taste of honey - Bobby Scott e Ric Marlow - com os Beatles... Mas eu a-m-o com a Lizz Wright! Deambule, deambule...

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Recife*

imagem recolhida na internet

…”ladies and gentleman, we are going through an area of turbulence, for please keep them seated and with the belt buckles, son we landed in Recife, the weather is artly cloudy and average temperatura is 26º”...

E eu com o rosto coladinho na janela do avião, ansiosa e com os olhos registrando essa tão conhecida, amada e sempre surpreendente paisagem... Como eu gosto de chegar ao Recife à noite... Lá de cima do céu tento identificar cada avenida, cada rua, os espaços negros (as nossas lagoas, mangues e os canais)... Cada veia, cada artéria, me lembra o sistema circulatório (com os músculos e as terminações nervosas) do corpo humano, pequenos vasos que se interligam e formam esse grande complexo que vibra e pulsa intermitente, 24h sem parar, o Recife... Um corpo que se vai formando lá embaixo, cheio das referências que me constroem, e que o constroem. “Uma engrenagem misteriosa”, que nos torna parte indissociável dele. Ou como diria Merleau-Ponty, ao referir-se ao corpo humano: “o corpo é o espelho de outro corpo”, essa cidade me reflete, e a ligação que eu tenho com ela se revela no amor e na paixão que em mim transbordam que me espelham. Um desejo incontrolável de mapear a minha cidade, e a emoção que me toma por estar em casa, duplamente em casa: a da minha emocionalidade e o meu lugar no mundo, o meu ponto de referência, de existência. O Recife. É aqui que eu sei quem sou e que me reconheço viva, vibrante, vital.
imagem colhida na internet

Cada um/a tem o seu Recife, cada um/a o cantou ao seu modo, desde os grandes da literatura, aos compositores de todos os ritmos e estilos musicais. Não quero explicar o Recife, o que aqui conto é um canto de saudade de uma cidade que me traga e dela eu saboreio tudo o que posso. Uma cidade de uma gente briosa (alguns com traços de uma rudeza natural como a terra), mas orgulhosa da sua história, das guerras libertárias, desses tantos movimentos de independência, desse desejo ancestral de ser livre, de uma liberdade que jamais se dobrou aos colonizadores, recuava, alinhava, analisava e retomava o voo nessa imensidão azul da autonomia. De uma cidade que tem em sua genealogia um "destino" que não foi cumprido: “um outro Portugal”, e que não se dobrou a Utopia do Poderoso Império (os bastidores da política em/entre Portugal e Brasil, de 1789 a 1822), pensado anteriormente por Camões (n´Os Lusíadas), depois por Padre Vieira (também um Império Espiritualista), ou ainda a Mauristsstad (Mauritzstadt) de Mauricio de Nassau... E a continuação do sonho em Fernando Pessoa, onde o Quinto Império estaria para além de um vasto território, mas um Império Cultural (acho que vou me aprofundar ainda mais nos estudos sobre os PALOP)...

imagem colhida na internet

Dessa cidade anfíbia (cada vez mais anfíbia, sobretudo, agora que chove, chove, chove...), com suas casas cariadas à poética de Carlos Pena Filho, o poeta dos azuis, essa cidade que a tem atravessada, o  Cão sem Plumas do mestre João Cabral, que é ao mesmo tempo, “Recife, Cidade Lendária” de Capiba, 

Capiba - foto G.B.

é dessa cidade que é de todos, e que não está nas ofertas turísticas, que nos convida a flanar por suas ruas e avenidas, que fortalece essa vaidade recifense, detentora de títulos únicos, presentes no imaginário coletivo, como a Caxangá, a maior avenida em linha reta do mundo; Guararapes, cuja altura dos prédios não ultrapassa a largura das ruas... De acordo com os recifenses, Deus, após a criação do mundo, foi descansar no sétimo dia em Fernando de Noronha, afinal, lá é também um paraíso; dizem ainda que, se Ele “tivesse um umbigo e fosse colocar um piercing, seria em Pernambuco”. É desse Recife que eu sinto saudade, esse que está sempre dentro de mim.

imagem recolhida na internet


É-me impossível caminhar pela praça da Independência (a pracinha do “Diário”) e não ficar desgostosa diante do descaso ao qual a relegaram, o que me salva de uma profunda angústia é recorrer à História, e resgatar as tantas revoluções vividas e imaginar o percurso feito pelos “revoltosos”, os insurretos, então me encaminhar rumo à estátua do Carlos Pena Filho e ficar com meu silente diálogo, retrucando acerca do Guia Prático da Cidade do Recife, e como um mantra, repetir: 

Nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
são trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.

e lhe informar que o Savoy (que recebeu Simone de Beauvoir, Sartre, Orson Welles...) não existe mais, não resistiu às sucessivas crises de mercado, com outros hábitos e gostos, lá já foi tudo e não é mais nada, vai virar qualquer coisa agora, fruto da especulação imobiliária.
Carlos Pena Filho - foto: G.B.


Passear pela praça Maciel Pinheiro, ficar quieta  e me integrar à paisagem, imaginando Clarice caminhando por ali, e então me aproximo da estátua em tamanho natural, com a sua máquina de escrever, no colo, e me perco em minhas deambulações, o quanto o Recife esteve em Clarice, o quanto essa cidade a fez, se fez em/dentro de Clarice   e concordo com ela, “viver no Nordeste ou Norte do Brasil é viver mais intensamente e de perto a verdadeira vida brasileira”, esse lugar com mais ingenuidade, com maior receptividade que é o Recife ... Então dialogo livremente com ela, faço-lhe perguntas que talvez jamais sejam respondidas, mas “enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas”, seguirei com minhas introspecções lispectorianas, tentando encontrar o peso do inauferível... Sentar-me num banco qualquer da praça e observar os transeuntes apressados, escravos do tempo (da falta dele). Uma anti-Macabéa que jamais se alheia ao mundo. Eu sinto e falo Recife, porque é aqui que tenho as minhas raízes fincadas, grudadas nesse chão, é daqui que a vida brota em mim e me leva a outros mundos e me faz desconhecer o “inconquistável”. Tenho um grande prazer em observar o meu entorno, costumo fazer isso quando posso, em qualquer lugar do mundo. Observar e estudar o vai e vem da cidade no passo das pessoas, mergulhar na imaginação e inventar histórias a partir de um cadenciar dos passos, da coluna mais vergada, do olhar taciturno, ou dos risos que se espalham pelo vento, trazendo a algazarra das gentes felizes, aqui não é diferente.
Clarice - foto: G.B.

Fazer o caminho pela Aurora, antes admirá-la desde a Rua do Sol, a melhor paisagem dela, é vista do outro lado, um cartão postal sem igual...
Rua da Aurora - imagem colhida na internet


O encontro com João Cabral e a prosa se alonga, o mestre sempre me emocionará, ali contemplando o Capibaribe, “todo rio só existe porque segue. É o movimento que o faz”, o Cão sem Plumas (atravessando a cidade), 
Rio Capibaribe - imagem colhida na internet


divagar olhando a arquitetura ímpar desse lugar, entrecortado por suas belas e seculares pontes, num filigrana traçado a confirmar a complexidade da cidade em conjunto com os seus habitantes, a alma do Recife está em todo lugar, na história que a traduz, nas pontes que o fazem, nas Ilhas (Recife Antigo, Ilha de Santo Antônio e Ilha da Boa Vista) que o originaram, na culinária, na fala, identidade que é reconhecida em qualquer lugar do planeta: o Recife, o meu! 
 João Cabral, ao fundo, o Teatro Santa Isabel - foto: G.B.


Percorrer sem pressa até onde me espera Manuel Bandeira, ali quieto na Aurora, vislumbrando o Capibaribe noutra perspectiva, acompanhando o rio sobre o ombro de João Cabral, a contar-me sobre a Estrela da Vida Inteira (a minha edição é a 20ª, rabiscada de fio a pavio), e qual o sentido da sua Pasárgada, confabularmos sobre Osman (e segredar-lhe aos ouvidos, que acima de todos os livros dele, amo Avalovara e Nove, Novena), embora quase toda a gente tenha se encantado com Lisbela e o Prisioneiro
Manuel Bandeira - foto: G.B.


e sobre Joaquim Cardozo, e das tantas injustiças cometidas nesse mundo, e do quase esquecimento deste que foi/é um dos grandes do movimento Concretista, e continuar a indagar, onde estará César Leal, verdadeiro cavalheiro, sempre à disposição de quem necessitasse orientação e informação, nunca ninguém jamais me desfiou João Câmara como ele, nem o próprio João, uma das minhas grandes paixões na pintura, que foi meu objeto de estudo, e às 4ª feiras, geralmente conversávamos "potocas", e colhia material para o meu T.T.C. em História da Arte.
Joaquim Cardozo - imagem colhida na internet

Mais do que uma cidade de sonhos, o Recife é a minha cidade real, onde ouço os murmúrios das pessoas, com os passos rápidos, nos passeios públicos, nas avenidas destacando-se os "rios, pontes e overdrives, impressionantes esculturas de lama, mangue, mangue", que continua a produzir o homem-caranguejo, que vive enfiado na lama, sobrevivendo da lama, do mangue e das demais vidas ciliares, há muito (de)anunciado na Geografia da Fome, de Josué de Castro, uma incontestável verdade sobre o desenvolvimento do mundo, que é antes, o das pessoas, "na realidade, o subdesenvolvimento não é a ausência de desenvolvimento senão a conseqüência de um modelo universal de desenvolvimento equivocado. O subdesenvolvimento é o produto de uma má utilização dos recursos naturais e humanos...Só através de uma estratégia global de desenvolvimento, capaz de mobilizar a todos os fatores de produção em favor da coletividade poderemos eliminar o subdesenvolvimento e a fome da face da terra", uma cidade que abraça nativos e estrangeiros com a mesma desigualdade, que contempla num mesmo altar o sagrado e o profano; que se expande e dilata dentro de cada um de nós, que se alarga em tensão e caos, como toda grande metrópole, e cresce cada vez mais na vertical, encastelando homens e sonhos em altíssimas torres, isolando e afastando as pessoas da natureza, no maior estilo pós-moderno, mas apesar das mazelas, meu amor não se abala, sofre, renasce, mas não finda, e sei que ela sofre com as misérias que lhe causam e reflete na qualidade de vida da população, contudo, mantenho-a sempre vívida em mim.

Tenho uma relação de amor e ódio com o Recife, essa ambiguidade é causada pela falta de cuidado que a cidade tem com os seus, e os seus com a cidade. Com a miséria que "cheira" junto com os despojos que se amontoam nas ruas, nos rios, nas calçadas. É preciso cuidar mais das pessoas do Recife, e este por elas; sofro com a violência descabida no Recife, aqui ela não é setorizada como em outros lugares do Brasil, ela está no ar, é táctil, tangente, podemos tocá-la e ela a nós. Mas isso nao diminui em nada esse sentimento grandioso, apenas sofro a dor de quem ama e perde o que ama. Mas como ficar indiferente às belezas dela? Tem uma paisagem que mora em meus olhos: o Cais José Estelita à noite, é de tirar o fôlego!
Cais José Estelita - imagem colhida na internet

Quantas cidades se encontram dentro e fora do Recife? Quantas cidades descobrimos nos bairros, nos bares, nos mercados (lugar em que primeiro descubro uma cidade, sou aficionada por mercados), da Boa Vista, da Madalena, de Casa Amarela, de Afogados, de Santo Amaro e o incomparável mercado de São José, a Rua das Calçadas, da Praia, e a presença eterna dos mascates, quanto fluxo ali se derrama e derramará, quantos acontecimentos imemoráveis poderíamos catalogar e sentir... Recife dos outrora belos carnavais, das gentes reunidas nos quintais, dos encontros aleatórios num boteco qualquer, no Buraco do Sargento, no Pátio de São Pedro, ou o tradicional restaurante, Buraco de Otília, e tantos outros restaurantes típicos, mais e menos famosos...
Caminhar na alameda defronte ao Teatro de Santa Isabel, a Praça da República e admirar a imponente casa do governo estadual, o Palácio dos Campos das Princesas, antigo Palácio de Friburgo, a morada de Nassau.
A fé imposta no período colonial, o Recife tem no centro, pelo menos 20 igrejas, que são também testemunhas da historia dessa cidade e suas gentes, mas nem tudo foi preservado, “devido a reformas urbanísticas, alguns conjuntos religiosos e civis foram demolidos, a exemplo da Igreja do Corpo Santo, posta a baixo na intervenção de 1913 a 1920”.
O Recife é um todo e multifacetado ao mesmo tempo, porque guardamos dentro de nós em retábulos o seu significado muito  particular, quem vem ao Recife nunca mais esquece, que segredo será esse que essa cidade guarda? Não sei responder, só sei sentir e me alumbrar. 
Aprecio vez por outra ir à feira de arte da Rua do Bom Jesus, e antes de entrar na sinagoga Kahal Zur Israel, propagada como a primeira das Américas, 
Sinagoga - imagem colhida na internet

demorar-me no meio da rua, pois que numa calçada, Antonio Maria está a me esperar, impossível continuar a peregrinação sem trocar meio dedo de prosa com ele e saber como se dissolve a saudade... "Ai, ai, saudade
Antonio Maria - foto: M. M.C.

Sem pressa nenhuma seguir rumo à Torre Malakoff, olhar o mar de lá do observatório, depois sentar no anfiteatro e não fazer absolutamente nada, saboreando o dia...
Torre Malakoff - imagem colhida na internet 

Caminhar pelas ruas do Recife é deparar-se a todo momento com a cultura, e reconhecer em cada paralelepípedo os sulcos das pisadas deixadas de todos que contribuíram e contribuem para essa cidade ser quem é, como é. É feita de tanta coisa, de tantos sentires e devires. Num só espaço geográfico, o mundo, "e ele começa no Recife"! O Marco Zero, o início da cidade... Imortalizada na Rosa dos Ventos do Cícero Dias.
Rosa dos Ventos - imagem colhida na internet


O Recife também tem museus, mas confesso que sao os locais onde menos vou, aqui  a história é a céu aberto, e é na luz dessa cidade que eu gosto de estar, nos sabores, nas cores, nos odores, nas ruas, entre as pessoas, escutar seus sotaques, e o que quiserem contar.
O olhar se adoça quando vemos o cair da tarde e o encontro dos raios da lua, com os canais e os rios, um espetáculo único, que deixa as águas alaranjadas num doirado e franjas refulgentes que só tem aqui, cada cidade recebe do seu morador um amor que a distingue das demais cidades, e nos caminhos dela, vamos deparando-nos com as mudanças processadas ao longo dos tempos... O Recife é para ser descoberto, desvendado, desbravado, descubra o seu!
E enquanto você não desbrava o Recife e nem "Vai danado pra Catende", ou não vais à Oropa, França e Bahia, podes ir ao Paço Alfândega, e entre uma deambulação e outra, dialogar com Ascenso Ferreira, à beira do "Capivara líquida".
Ascenso Ferreira - foto: M.M.C.

Estou em casa já, de novo, outra vez, essa é a maior alegria do mundo! E aqui é a minha fortificação,  e não é inspirada nos moldes "nassoviano" de segurança, não há invasor que abale as minhas estruturas de afeto com esse lugar, esse que é o meu de pertença, de identidade, de cep e cpf!  Longe daqui é que me sinto estilhaçada, feita apenas de areia e que qualquer vento me dissipa.
Forte das Cinco Pontas - imagem colhida da internet


Muito embora o Recife não seja só belezas, é disto que eu quero falar. E se eu não parar agora, eu não paro nunca mais, e fico por aqui, cantando uma música do meu querido Lenine em parceria com Lula Queiroga: Minha Cidade, curtam!
Praia de Boa Viagem - imagem recolhida da internet

Para entender melhor o Recife (e o Nordeste) e a sua/nossa alma, sugiro algumas leituras:

1710: Recife Versus Olinda: A Guerra Municipal do Açúcar, Nobres e Mascates . Nelson Barbalho;
A Confederação do Equador - Glacyra Lazzari Leite;
A Ferida de Narciso - Evaldo Cabral de Melo;
A Fronda dos Mazombos - Evaldo Cabral de Melo;
A Guerra dos Holandeses - Pedro Puntoni;
A Guerra dos Mascates - Luiz Geraldo Silva;
A Invenção do Nordeste e Outras Artes - Durval Muniz de Albuquerque;
A Outra Independência - Evaldo Cabral de Melo;
A Revolução Pernambucana de 1817 - Manuel Correia de Andrade;
A Revolução Praieira - Antonio Paulo Rezende;
A Revolução Praieira - Barbosa Lima Sobrinho;
A Terra e o Homem no Nordeste - Manuel Correia de Andrade;
A Utopia do Poderoso Império - Maria de Lourdes Viana Lyra;
Economia Pernambucana no século XVI - Manuel Correia de Andrade;
Frei Caneca: Acusação e Defesa - Maria do Socorro Lins Ferraz;
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca - Evaldo Cabral de Melo;
Liberais & Liberais: guerras civis em Pernambuco - Maria do Socoro Lins Ferraz;
Liberdade: Rotinas e Rupturas no Escravismo. Recife 1822 - 1850 - Marcus Carvalho;
Lopes Gama, O Carapuceiro - org. Evaldo Cabral de Melo;
Movimentos Nativistas em Pernambuco - Manuel Correia de Andrade;
Nordeste 1817 - Carlos Guilherme Mota;
O Império do Progresso: a Revolução Praieira em Pernambuco (1842 - 1855) - Isabel Andrade Marson;
Olinda Restaurada: guerra e açúcar no Nordeste - Evaldo Cabral de Melo;
O negócio do Brasil: Portugal, os Países Baixos e o Nordeste, 1641 - 1669 - Evado Cabral de Melo
O Nome e o Sangue: uma parábola familiar no Pernambuco colonial - Evaldo Cabral de Melo;
O Norte Agrário e o Império - Evaldo Cabral de Melo;
O Recife: histórias de uma Cidade - Antonio Paulo Rezende;
O Sentido Social da Revolução Praieira - Amaro Quintas;
Os Cassacos - Maximiano Campos;
Os Tempos da Praieira - Costa Porto; 
Pernambuco: da Independência à Confederação do Equador - Barbosa Lima Sobrinho;
Rubro Veio: o imaginário da Restauração Pernambucana - Evaldo Cabral de Melo;
Tempo dos Flamengos - José Antonio Gonsalves de Mello;
Um Estadista do Império - Joaquim Nabuco;
Um Imenso Portugal: história e historiografia - Evaldo Cabral de Melo;

Nota: não segui as normas da ABNT.
Nota 2:* A regra geral ensina que todo topônimo originário de um acidente geográfico é antecedido pelo artigo definido. Adverte Gonsalves de Mello, no capítulo citado (p. 17 - 26), "por que se originou de um acidente geográfico - o recife ou o arrecife - a designação do Recife não prescinde do artigo definido masculino: O Recife, nunca "Recife" e não "em Recife", "de Recife" , "para Recife".

Vale muito a pena ver o vídeo...

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...