quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

enxurradas de fevereiro

"Qualquer um de nós já amou errado, 
já odiou errado".

ernst ludwig kirchner - mulher com sombrinha

amei a tantos
todos, tolos, charlatões*
cafajestes,
mas nunca quis nenhum
amava-os em meu silêncio
e em minha ironia
sonhava-nos
e desistia
recolhia meus desejos e
deitava-os na sarjeta
e se iam, entulhos
nas enxurradas de fevereiro
inevitáveis como as
quartas-feiras de cinzas

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*admite mais de uma forma para o plural


XXII - II -  MMXII

vinícius & toquinho, marcha da quarta-feira de cinzas

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

relicário*



"Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura"

                             Mário Cesariny 
mário cesariny - penélope corre ao encontro de ulisses

hoje eu acordei assim guardando os sentimentos e as lembranças num relicário, no santuário da memória e do coração, destino sagrado onde as coisas gratas se concentram, se renovam e se transformam. lugar em que nada está desacompanhado, recordações e honrarias dignas da mais nobre monarca, sem nenhuma dose de casmurrice, mas de desvelada alegria, do que me sustêm nos tempos de escassez, um manancial particular onde na hora da sede e da fome, me alimento e me nutro.
uma gaveta onde guardo meus dias, e os melhores acontecimentos, os essenciais e únicos, aquilo que foi palpável e aquilo que o desejo toca. nele estão até os meus mais doces suspiros, do que vivi e do que não consegui viver, mas passa a ser uma doce ilusão, e esta também cabe nesse retábulo de emoções. nesse espaço guardo especialmente as minhas não desistências, que me deram grandes alegrias nas vivências, nada incomum ou excepcional, mas a simplicidade de um sorriso espontaneo, o brilho do olhar apaixonado, a leitura dos livros que desejei ler e li, dos encontros realizados, das noites de lua e céu estrelado, das conversas noites adentro, daquele outono distante, daquele sorvete de pistachio, e especialmente do seu riso enamorado e os seus olhos resplandecentes.

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XV - X - MMXI

*da 'séria série': cartas de penélope.

nando reis canta, dele, relicário, em paceria com a cássia eller. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"mulher ao luar"

"Momentos há em que quebro, caio e me afundo.
No abismo de pesadas penas, 
Existo na saudade de mim".

ismael nery - mulher ao luar

naquela noite não se importou com o frio
recolheu-se em si
aquietou-se na janela

olhar parado, sem brilho
- moldura de pedra -
crispado no infinito

e repassou a vida como num filme
mudo, em preto e branco
ou como se estivesse folheando - sem ver -

as folhas de um álbum
separadas por papel manteiga
com fotografias amareladas, em sépia

envelhecidas, como a sua alma
apesar do luar e do cheiro de jasmim
que cortavam o ar como uma lâmina

impossível não sentir aquele frio na espinha!

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 * podem lê-lo no seu blogue porta sonhos, e o fragmento poético foi recolhid do seu livro: Na Utopia Sou Pofeta, recomendadíssimo!

XX - I - MMXII

sempre ele, chico buarque, numa parceria com o tom jobim, retrato em branco e preto

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

minha mãe


minha mãe só consigo entendê-la de longe
de perto dói
minha mãe quando perto
fica longe

quando longe
fica perto
e nesse deserto
vago

e nesse vácuo
perscruto
e nesse silêncio
escuto

as dores de minha mãe.

minha mãe quando perto
sou filha
quando longe
sou mãe

e entre a distancia
e o gesto
seja longe
seja perto

vejo decerto
as alegrias de minha mãe.

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para a minha mãe, dona maria colares (pele de pêssego), pessoa ímpar, incansável, hoje completa 73 anos, 57 de casamento, 7 filhos, 22 netos e 4 bisnetos.

essa música lhe diz muito: dez anos - versão do bolero mexicano diez años, de raphael hernández, por lourival  faissal, com a gal costa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

a vida espreita em cada esquina

"Eu tenho a vida
partida
em mil pedaços
cola-os tu com dois abraços"

a vida espreita em cada esquina
com seus olhos de escárnio
e convites sombrios
entre estupefata e resiliente
desvio

a vida espeta em cada esquina
com suas garras afiadas
tentáculos em inoxidável aço
e dessa dureza diária
com pequeninos passos
desvio

a vida insiste em cada esquina
cheia de fome,  insaciável 
escancarando a boca da noite
de tragar suspiros 
de engolir sonhos
e devolver rascunhos
retintos

a vida persegue em cada esquina
abouejando o tempo
obstaculizando caminhos
e perdida entre as memórias
em meio às - minhas - ruínas
e escombros, sem desvios
lhe re-encontro

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 XV - X -  MMXI

djavan, esquinas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

poema-gaivota

"Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar"


e aquele sonho  voou na asa de uma gaivota
errático, errante, rasante
carregando a brutal ilusão
deixando a saudade que ninho noturno
se acomoda soturna
estado de  introspecção
suspiros lucífugos
nas notas de uma canção

daquele voo distante
nunca mais a gaivota retornou
não se sabe de asa quebrada
não se sabe de prisão
se perdeu o rumo, a direção
- ou se o sonho morreu em qualquer estação -
ou voa plangente pelo mundo
sem consolo ou esperança

para um taciturno coração!

o poema gaivota, do alexandre o´neill, entre outras situações, mudou muito de/em mim. li-o desde sempre com o coração na boca, depois dele, nada mais foi igual para mim, nunca mais! ficou tatuado na minha alma, na minha carne, associado a isso, uma certa presença, por mais que se ausente, mas o vácuo é também a existência, e nesse átimo de segundo, ficou o para sempre. surpreendentemente vivi esse poema ao extremo. e tudo nele, e o que vibra dele é essencial como o ar que eu respiro ou como a água que bebo. não sei como existi antes deles. esse poema agora é o eixo de tudo, eternizou-se, eternizou-me, eternizou-te!

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XII - I - MMXII

sónia tavares, gaivota, do o´neill

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

os dois

"Vamos viver o amor
vamos viver o amor e nada mais
Só o amor. Sem os efeitos colaterais".
Claufe Rodrigues


giorgio de chirico - the duo
os estilhaços demonstravam
o estrago fora feito
e pacientemente ela esperava
a reconstrução

varreu os cacos do chão
depois colaria a alma
resguardara-se com calma
vivera a expiação com resignação

uma purificação é tarefa divina
tem que esperar o sopro do céu
esgotar todos os grotões da existencia
e entender de  unguentos

porque sentir faz parte da cura
e sentir nem sempre é silencioso
e o inimaginável
é terapêutica  trama

e a atitude
e a quietude
e a plenitude
e a amplitude

ensimesmada olhando o teto
já sabia o que viria
porque havia no desvio do foco
um já lugar

dentro do outro
naquele largo olhar
já havia um lugar
naquele outro

sem maiores explicações!

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XXI -  XI - MMXI

luiz melodia  magrelinha

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

você tem que acordar é por dentro!

"Onde cê tava? Tava sumida, morreu?"
E a gente com aquela cara de fantasma moderno,
de expersona falida:
- Não, tava só deprimida".
figura: max ernst

Um belo dia você avista o mundo pela janela, sol irradiante, canto de pássaros, cheiro de pão assado, a chaleira avisando que a água ferveu, o café que exala da cozinha do vizinho.
A constatação que o dia amanheceu.
Carros, apitos, buzinas, gente que grita. Uma cantoria ao lado anuncia que alguém está debaixo do chuveiro. Um cão que late, a cidade que desperta. Um choro de criança vindo não sei de onde.
E acontece o insight: você tem que acordar é por dentro, e não deixar a vida simplesmente acontecer aqui fora!

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III - I - MMXII

na primeira manhã - alceu valença

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

vá ser feliz em 2012!

"Já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente".
Lygia Fagundes Telles

figura: balthus

Diante do hiato proposto pela vida, nada mais precisa ser dito, apenas sentido e  entendido. Ponto e basta! Os elementos, as condições são oferecidas, explicitamente oferecidas, mas a desatenção, a tibieza e a covardia, fingem não entender. E o que ocorre a partir de então é uma busca inócua para explicar o desnecessário, o óbvio. A vida está aí, pulsando, quente, vibrante, convidando, convidativa, e cada um em sua amargura e armadura finge que não vê, desiste de viver, de viver a plenitude, sem as buRRocracias, os conflitos e arranjos capengas, as costuras infelizes que solapam as relações. O tempo urge, e não há ensaio para vida, nesse palco, não há replay. Não se desgaste, não perca tempo investindo no que sabes, não frutificará. 
Ser feliz é um exercício diário tanto quanto ser infeliz, escolha o que é saudável, sorria mais, queira para si a alegria do amor, do amor que constrói, que faz crescer, do amor que estimula, que faz avançar. Desse amor que nem os contos de fadas são capazes de prever, mas que encontras nos lugares mais inesperados... Viva, viva sem perder tempo com relações falidas, com situações inexplicáveis. O tempo perdido é irrecuperável!
Se tiveste a felicidade de encontrar alguém que o compreenda e que o ame, e que tu o compreendas e o ames também, vai enfim ser feliz, as convenções sociais são algemas que impedem apenas a sua felicidade e não de quem as impõe, pensa nisso! E se circunstacialmente calhar de encontrares uma aeromoça no seu caminho - mera ficção, não me responsabilizo pelo real em sua vida -,  voe até o infinito com ela, seja feliz e a prática do desapego que começaste bem antes, será a base para viver essa felicidade que lhe foi inesperadamente apresentada. Não esqueças que és mais um/a "na multidão incontável de metades" que andam "pelo mundo, à procura da sua outra parte, fragmentos de um uno incompleto, carente de sua unidade e de um fechamento". Quando calhar de encontrares o "duplo do seu uno, a forma original dos seres inteiros", não titubeie e agarre-o com força e não solte nunca mais, porque esse prazer do re-encontro e a felicidade, será(ão) de vocês!
faça um ano novo de verdade, vá ser feliz em 2012!

sinherê - edu lobo e gianfrancesco guarnieri, com maria bethania

domingo, 11 de dezembro de 2011

só por hoje

 "Se eu ainda tivesse ilusões,
que não tenho, a maior de todas seria esta:
 fazer de mim mesmo um poema".
mulher sentada - ismael nery

só por hoje eu queria não ter passado
nem futuro
só esse presente

só por hoje eu queria furar todos os meus cercos
esquecer todos os meus conceitos
implodir as minhas blindagens

só por hoje eu queria que esses reflexos de luz(es)
nunca mais saíssem da minha retina
que saltássemos esse precipício

tenho calhas (e precipitações) ao longo do corpo
e quero o seu mergulho dentro de mim
vem beber o atlântico que deságuo

vem colher a flor que eu guardei
aquela que eu lhe mostrei
quando nos encontramos no meio do nada

e quase nada nos dissemos
mas nos desejamos, sabemos
vamos saciar essa(e) - poema -  fome

nem que seja só por hoje!


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XXII - XI - MMXI

marisa monte - infinito particular, dela, arnaldo antunes e carlinhos brown

domingo, 4 de dezembro de 2011

a colecionadora de adeus(es)*

"...Não somos os mesmos, mas sabemos mais uns dos outros.
E é por esse motivo que dizer adeus se torna complicado!
Digamos então que nada se perderá. Pelo menos dentro da gente..."
João Guimarães Rosa
Niña delante de la chimenea - Balthus

Penélope era uma criatura ímpar, se diferenciava em cada detalhe das demais mulheres. De uma invulgaridade até então desconhecida, tudo nela era inaugural. Cada gesto, cada suspiro, cada passo e situação tinham o caráter de primeira vez.
Diferentemente da maioria das outras mulheres, Penélope fazia uma coleção sui-generis: colecionava adeus(es), sim, ela guardava todos os adeus(es) sofridos ao longo da vida, cada adeus recebido ia para a caixa de porta-adeus(es). Tinha o cuidado de etiquetá-los, e deitá-los carinhosamente naquela caixinha de madeira, com ébano incrustado no tampo, para que não se diluíssem entre si e se perdessem na corrente do esquecimento. Achava que lembrar ajudaria-na a não cometer os mesmos erros, que nada mais se repetiria. E jamais esquecia o que lhe faziam. Inventariar suas tragédias, era uma forma de ausentar-se de si mesma, saía da posição de protagonista para expectadora, naquele teatro que sempre fora a sua simplória existência.
Mas havia um adeus em especial, aquele, aquele que ela jamais gostaria de ter recebido, trocava toda a sua coleção por um não-adeus dele.
Estava como sempre estivera, inerte e pálida, quando o viu, Ulisses surgiu do nada como uma aparição, não se assustara porque no processo em curso, já não se surpreendia com nada, e a inesperada chegada daquele homem não se configurava um grande acontecimento. Estava imóvel diante do que chamava de autopoiesis, imersa em suas dores, suas perdas e suas solidões, por onde quer que olhasse, só se deparava com seus restos. Tudo era deserto e destruição. Aquela presença inopinada não a demoveu da sua imobilidade e alheamento, para quem fechara a porta do inferno e sobrevivera aos tantos dilúvios, nada lhe dizia alguma coisa. Já não diferenciava luz e sombra; calor e frio; sol e chuva; fome e sede. Penélope estava tão anestesiada que desconhecia coisas e valores tais como: "prudência, justiça, fortaleza, temperança, fé, esperança e caridade", muito menos amor. Dizia que isso de amor era invenção do ócio, de alguma mente desocupada e em conluio com o inominável. Se acreditasse em destino diria que o seu era o pior dos piores. Que havia nascido para o lamento e o suplício. Achava-se a maior de todas as vítimas, até gostava de viver enclausurada nesse seu conforto entorpecido, nessa pele de sofredora.
Ulisses nada precisava dizer, porque qualquer movimento era como se já tivessem vivido desde os tempos mais remotos, numa ancestralidade (in)comum, eram o espelho um do outro; os olhares se complementavam, e a vida tinha um sabor até então jamais experimentado. Sem o mínimo esforço, conseguia dela todos os seus segredos, confessava-se a ele, como quem desejava expiar todos os seus pecados (que nem existiam).
Ela tivera tudo e perdera tudo, quando Ulisses veio, e quando foi embora, após dizer-lhe calmamente, como se estivesse anunciando o princípio do mundo: "amo-te"! E saiu sem olhar para trás, com seus passos largos, mãos nos bolsos, assoviando, e sumiu engolido pela neblina daquela madrugada, que Penélope odeia até hoje! Entendeu que aquela confissão fora o grito de liberdade dele, e o aprisionamento dela, essa declaração tornou-a cativa da esperança, coisa  que ela jurara nunca mais ter. Além de afastá-la de qualquer outra relação que porventura, ela ainda desejasse experimentar. Declama nos palcos da vida, que qualquer pessoa só é verdadeiramente livre, quando está destituída de qualquer tipo de paixão. Segundo ela, aprendeu com o Bertrand Russell, e que já nem sabe mais no que acredita. E nem tenciona creditar mais nada à nada.
Todas as madrugadas ela fica em vigília, atenta aos movimentos e sussuros do vento, esperando, quem sabe, algum milagre acontecer, caso acreditasse em milagres. E quando ela se descuida do esquecimento, vai ao espelho e torrenciais lágrimas  lhe escapam dos globos  oculares e borram toda a maquiagem, escorrendo como um veio d´água, preto, pela face, e lhe deixa com o nariz vermelho e os olhos molhados e brilhantes. E ela tem ojeriza a espelhos, porque diante deles, não pode negar quem é, ou quem deixou de ser; ali ela está despida de qualquer mentira ou desculpas, está nua diante de si mesma e todo o sentimento que ainda existe por e para Ulisses, um estúpido que materializou-se do nada e desmaterializou-se também do nada. Mas que ainda respira em seu peito. Que coração absurdo e bobo é o dela! Embora ciente de que romper esse  laço é preciso, já não sabe mais sobre precisão. Não obstante, mais que tudo é  preciso prosseguir, só existe essa (é a única) saída.
Desde então, Penélope odeia o amor entre um homem e uma mulher (esse amor sexualizado, carnal) e seus desdobramentos, tanto quanto as madrugadas. E até hoje ela tece a teia que a libertará de todos os adeus(es) sofridos. E se afoga (e se afaga) nas taças de vinho que eles bebiam diariamente.
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Olinda, XXX - XI - MMXI


*
"no 
'Aurélio' traz a flexão em "adeuses", já o 'Houaiss' não".


da cassia eller (e paulinho moska) que canta, com fabão:  nada vai mudar isso

os pássaros engoliram a utopia

Se durante o dia o voo dos pássaros parece sempre sem destino,  à noite dir-se-ia reencontrar sempre uma finalidade.  Voam para alguma coisa...