quinta-feira, 26 de abril de 2012

sinfonia dos baobás

"[...]nessa época nascem lindas flores brancas 
que vivem pouco tempo, 
mas ao invés de cair na terra quando morrem, 
elas vão para o céu e se transformam em estrelas[...]"
fotografei esse jovem baobá (tem apenas 30 anos), no bairro da Encruzilhada, no Recife


Nem na aridez daquele tempo de fugas
Insensatez
Turvou-me os olhos para aquela vida:
Farta, simples, despida de alegorias

De um tempo que mil vozes eu ouvia
E no peito já sabia
Um desejo guardado, calado
Em invulgar harmonia

Basta o reconhecimento
Aquela voz me dizia
Enquanto girava o mundo
Sons, apitos, buzinas, assovios

Um só gesto e o caminho do entendimento
Se abria
Um tempo de riso fácil
Falava de paz e simetria

Uma florada que inesperada se abria
Numa única noite
Um desenho preso à haste
Cálice externo, onde se equilibram:

Sépalas, pétalas,
Verdade e  fantasia
A taça e a flor
Coloridas, odorantes

Mundo pleno de magia
O verde e a rosa
Ponte sagrada
Fonte de inspiração

Da ancestralidade ritual e poesia
De um sentimento universal
Seis mil anos eu vivia
Do ribombar da alma

Na mais profunda calmaria
Explodiu como uma estrela
Desmaiada no céu
À fronda dos baobás

Tu, minha sinfonia!

Olinda, 25 de abril 2012
(16:54h)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

um gosto de framboesa

"Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. Por que
havemos de ser unicamente
humanos, limitados em chorar"?


marc chagal -  the woman with the roses

...ficou o gosto suave  e suculento da framboesa
touceiras plenas de frutificação
um vermelho tão cheio de vivas
a delicadeza da vida

no desponte do olhar
o desejo sumarento
dos gomos
explodindo um sabor apurado
e

feito doce
algodão em nuvem 
que derrete flocos
neve de açúcar
naquele (e)terno
beijo de ontem!

fagner canta da cecília meireles, canteiros

domingo, 1 de abril de 2012

aquela coisa toda

"Pois é somente na escura solidão
 que se inicia o trabalho da memória".

figura: paul gauguin

procurei - em vão no passeio
as pegadas
não estavam mais lá
foram lavadas
levadas pelo tempo
nenhuma marca
memória
não mais havia
tentei perceber
o que eu naquele instante sentia

buscava em algum canto
qualquer coisa
um fato que lembrasse aqueles dias


nada
não encontrei nada

nenhum vestígio
de algo
algo que dissesse
- nem que fosse o resquício -
daquela coisa toda

daquela coisa
que naquele tempo
de migalhas
dizia
compreendi enfim
que o tempo fez por mim
o que
naquele tempo
eu não conseguia

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 XX - VII - MMXI

carmen mcrae canta, if i should lose you

quarta-feira, 14 de março de 2012

10h30min

"O presente é uma partícula mínima de tempo,
cada vez mais comprimida
entre o que foi e o que será."

figura: lazar markovich lissitzky 

o tempo só para no relógio
e em nada mais
o relógio é o tempo que para
- como aquele meu
que está sem pilha
parado
há muito
na parede da cozinha -
e se repete continuamente
lá o tempo é sempre o mesmo:
10:h30min

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IV - III - MMXII


a minha querida amiga magna, do sementeiras, deixou esse poema-comentário:

FUTURO

Futuro é acordar
De manhãzinha
E ver as sombras
Mudando de lugar ao longo do dia

Magna Santos
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*ando completamente embriagada de maria rita kehl. amig@s estou numa roda-viva, sem nenhum tempo, mas assim que possível, visitá-los-ei, como dantes.

crossroad - tracy chapman

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

à un certain moment

"o poema final ninguém escreverá
[...]
em vez de juízo final a mim me preocupa 
o sonho final"*.
guido hebert  - girl resting


lânguida e preguiçosamente estendida
naquele balanço de rede
se deixava levar
naquela noite de pouco luar
o vento trazia um inconfundível cheiro
de maresia que impregnava o ar
um som de trompete
vindo de algum lugar
enchia de notas aquele silêncio acolhedor
em seu peito explodia uma emoção incontida
de uma inexplicável alegria, nascida de um percurso
não sonhado, inimaginável
e pensou, de olhos fechados
com um quase sorriso:
não lhe escreveria um poema final
afinal um mundo já acabara
mas isso não se configurava o seu fim
porque a cada manhã
à un certain moment



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XXIX - II - MMXII

* o poema o fim do mundo, está no livro, o engenheiro, do joão cabral, após lê-lo, fiz esse exercício de intertextualidade, nas duas últimas estrofes do meu.  

miles davis, blue in green

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

enxurradas de fevereiro

"Qualquer um de nós já amou errado, 
já odiou errado".

ernst ludwig kirchner - mulher com sombrinha

amei a tantos
todos, tolos, charlatões*
cafajestes,
mas nunca quis nenhum
amava-os em meu silêncio
e em minha ironia
sonhava-nos
e desistia
recolhia meus desejos e
deitava-os na sarjeta
e se iam, entulhos
nas enxurradas de fevereiro
inevitáveis como as
quartas-feiras de cinzas

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*admite mais de uma forma para o plural


XXII - II -  MMXII

vinícius & toquinho, marcha da quarta-feira de cinzas

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

relicário*



"Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura"

                             Mário Cesariny 
mário cesariny - penélope corre ao encontro de ulisses

hoje eu acordei assim guardando os sentimentos e as lembranças num relicário, no santuário da memória e do coração, destino sagrado onde as coisas gratas se concentram, se renovam e se transformam. lugar em que nada está desacompanhado, recordações e honrarias dignas da mais nobre monarca, sem nenhuma dose de casmurrice, mas de desvelada alegria, do que me sustêm nos tempos de escassez, um manancial particular onde na hora da sede e da fome, me alimento e me nutro.
uma gaveta onde guardo meus dias, e os melhores acontecimentos, os essenciais e únicos, aquilo que foi palpável e aquilo que o desejo toca. nele estão até os meus mais doces suspiros, do que vivi e do que não consegui viver, mas passa a ser uma doce ilusão, e esta também cabe nesse retábulo de emoções. nesse espaço guardo especialmente as minhas não desistências, que me deram grandes alegrias nas vivências, nada incomum ou excepcional, mas a simplicidade de um sorriso espontaneo, o brilho do olhar apaixonado, a leitura dos livros que desejei ler e li, dos encontros realizados, das noites de lua e céu estrelado, das conversas noites adentro, daquele outono distante, daquele sorvete de pistachio, e especialmente do seu riso enamorado e os seus olhos resplandecentes.

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XV - X - MMXI

*da 'séria série': cartas de penélope.

nando reis canta, dele, relicário, em paceria com a cássia eller. 

domingo, 5 de fevereiro de 2012

"mulher ao luar"

"Momentos há em que quebro, caio e me afundo.
No abismo de pesadas penas, 
Existo na saudade de mim".

ismael nery - mulher ao luar

naquela noite não se importou com o frio
recolheu-se em si
aquietou-se na janela

olhar parado, sem brilho
- moldura de pedra -
crispado no infinito

e repassou a vida como num filme
mudo, em preto e branco
ou como se estivesse folheando - sem ver -

as folhas de um álbum
separadas por papel manteiga
com fotografias amareladas, em sépia

envelhecidas, como a sua alma
apesar do luar e do cheiro de jasmim
que cortavam o ar como uma lâmina

impossível não sentir aquele frio na espinha!

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 * podem lê-lo no seu blogue porta sonhos, e o fragmento poético foi recolhid do seu livro: Na Utopia Sou Pofeta, recomendadíssimo!

XX - I - MMXII

sempre ele, chico buarque, numa parceria com o tom jobim, retrato em branco e preto

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

minha mãe


minha mãe só consigo entendê-la de longe
de perto dói
minha mãe quando perto
fica longe

quando longe
fica perto
e nesse deserto
vago

e nesse vácuo
perscruto
e nesse silêncio
escuto

as dores de minha mãe.

minha mãe quando perto
sou filha
quando longe
sou mãe

e entre a distancia
e o gesto
seja longe
seja perto

vejo decerto
as alegrias de minha mãe.

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para a minha mãe, dona maria colares (pele de pêssego), pessoa ímpar, incansável, hoje completa 73 anos, 57 de casamento, 7 filhos, 22 netos e 4 bisnetos.

essa música lhe diz muito: dez anos - versão do bolero mexicano diez años, de raphael hernández, por lourival  faissal, com a gal costa.

domingo, 22 de janeiro de 2012

a vida espreita em cada esquina

"Eu tenho a vida
partida
em mil pedaços
cola-os tu com dois abraços"

a vida espreita em cada esquina
com seus olhos de escárnio
e convites sombrios
entre estupefata e resiliente
desvio

a vida espeta em cada esquina
com suas garras afiadas
tentáculos em inoxidável aço
e dessa dureza diária
com pequeninos passos
desvio

a vida insiste em cada esquina
cheia de fome,  insaciável 
escancarando a boca da noite
de tragar suspiros 
de engolir sonhos
e devolver rascunhos
retintos

a vida persegue em cada esquina
abouejando o tempo
obstaculizando caminhos
e perdida entre as memórias
em meio às minhas ruínas
e escombros, sem desvios
lhe re-encontro

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 XV - X -  MMXI

djavan, esquinas

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

poema-gaivota

"Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar"


e aquele sonho  voou na asa de uma gaivota
errático, errante, rasante
carregando a brutal ilusão
deixando a saudade que ninho noturno
se acomoda soturna
estado de  introspecção
suspiros lucífugos
nas notas de uma canção

daquele voo distante
nunca mais a gaivota retornou
não se sabe de asa quebrada
não se sabe de prisão
se perdeu o rumo, a direção
- ou se o sonho morreu em qualquer estação -
ou voa plangente pelo mundo
sem consolo ou esperança

para um taciturno coração!

o poema gaivota, do alexandre o´neill, entre outras situações, mudou muito de/em mim. li-o desde sempre com o coração na boca, depois dele, nada mais foi igual para mim, nunca mais! ficou tatuado na minha alma, na minha carne, associado a isso, uma certa presença, por mais que se ausente, mas o vácuo é também a existência, e nesse átimo de segundo, ficou o para sempre. surpreendentemente vivi esse poema ao extremo. e tudo nele, e o que vibra dele é essencial como o ar que eu respiro ou como a água que bebo. não sei como existi antes deles. esse poema agora é o eixo de tudo, eternizou-se, eternizou-me, eternizou-te!

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XII - I - MMXII

sónia tavares, gaivota, do o´neill

voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...