sábado, 13 de novembro de 2010

tempo ateu

(imagem recolhida da internet)


o tempo é ateu

e a fé desacontece

mas cá dentro

pulsa um coração

que desmaia e

todo dia anoitece

sobrevivente, sempre amanhece

nessa vida breve que tanto entontece...


Em prece: Sentinela - Milton Nascimento / Fernando Brant - com a interpretação do primeiro e da soberba Nana Caymmi. Solte a dor a plenos pulmões, cante o mais longe que a sua voz alcançar...


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O que ainda resi(ste)de

(imagem colhida da internet)


o que em mim reside fera
resiste homem
rasga a carne por dentro
bicho
me consome

o que em mim reside candura
resiste mulher doçura
cristaliza por dentro
pedra
cal
cimento

e nessa textura
em cru
tantas vezes
padecimento
resiste sem que eu modifique
a saudade que grita um nome por dentro

e por fora
emudecimento
olhares além horizonte
mãos que direcionam
entalhe
qualquer esculpimento

remoção imaterial
reconstrução de superfícies
interior desertificado
resiste talvez
o que jamais será restaurado...

Roberta Flack, com sua inconfundível voz, canta: Killing Me Softly With His Song - Charles Fox/ Norman Gimbel - essa música me acompanha desde que eu era molecota, e terça-feira passada (02.11.10), escutei-a incessantemente, lógico que bebi todas as vodkas ... Som na caixa "didêi", com ou sem saudades, oiçamo-na, porque é uma música linda!


sábado, 23 de outubro de 2010

sete trombetas apocalípticas*

(imagem recolhida da internet)


um estrondo um furor
um rasgo no céu surgiu
sete anjos
desceram
com sete facas afiadas
as lâminas cortantes
avermelhadas
recobriram o mundo que ardia
quando tudo esvaecia
e o apocalipse eu vivia

nas terras negras
inférteis
tenebrosas e sombrias
por sobre as sete serpentes
bailarinas descalças
com movimentos pungentes
em invulgar harmonia
deslizavam os sete véus
que (in) devidamente escondiam
as sete cores da minha nostalgia

na travessia dos sete mares
no agito das ondas altas
princípio de ventania
meu canto de dor invadia
os sete dias da semana
inscrevendo na carne viva a minha agonia
das sete mil vezes sete
que todos os dias eu morria
e das sete mil vezes sete
que todos os dias eu (re)nascia
e ante a destruição

do que eu sequer sabia
que dos sete pecados capitais
gula
avareza
inveja
ira
soberba
luxúria
preguiça
sete mil bocas sorviam
ávidos sequiosos da minha sangria

e num inesperado clarão
como se fosse
o sol em combustão
estrelas de sete pontas
de ponta a ponta
com resplandecente luz
naquele dado momento
o canto das sete trombetas
laceraram o firmamento
e se fizeram ouvir
a ode triunfal das sete Marias!


Porto, 30 de junho de 2009


*Para Pina Bausch.


Para mim ele é o deus da guitarra, e como todo deus, merece ser reverenciado, Eric Clapton, Knocking on Heaven's Door (Bob Dylan), aumenta o som e transcenda junto, porque é da natureza do blues esse corte na alma!




quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Só depois...

(imagem colhida na internet)


só depois de tanto impasse

desencontros e embaraços


só depois do teu riso franco

dos teus olhos me causarem espanto


só depois desse toque de cetim

da serenidade que explodiu em mim


só depois de desaguar nesse desejo intenso

e navegar nesse mar imenso


só depois de contarmos as estrelas

nosso quarto estado da matéria


só depois de o céu se abrir em copas

e minha alma desabrochar em flor


entendi que

um tempo novo chegou


só depois…


Tenho escutado bastante a Dianne Reeves, a quem tive o prazer de ver e ouvir, no Teatro Metropol, em Tarragona, Espanha, (en)canta com , In Your Eyes. Apenas oiça... Feche os olhos e contemple os mundos.


domingo, 26 de setembro de 2010

Numa noite

(imagem recolhida da internet)




de lugar nenhum tu chegastes


numa noite qualquer


numa noite morna


numa noite


dessas em que nada de imponderável acontece




na irresponsabilidade de julho


vimos o sorriso se desenhar em nossas bocas


rumores doces e olhares brilhantes


quanta sedução


delicadezas num fio de voz






e voamos


no azul das tuas retinas embevecidas


nos meus castanhos que brilhantes engolem tua paixão


nas tantas alegrias divididas


na vida que pulsa em nós




Porque eu adoro essa música, assim como a voz dessa moça, Madeleine Peyroux: Life is Fine. Curtam!







quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Assombrosa Verdade

imagem: waldete cestari

então aquela assombrosa verdade
sem culpa e sem alarde
caiu como uma luva
em minhas mãos gélidas
- pela ausência do seu toque -

e meu olhar opaco perdido
vagava distraído
como as folhas soltas de um outono distante
escondido da emoção
- quando olhei para o lado já não estavas -

o mundo girou
a vida aconteceu
uma estrela explodiu
uma flor nasceu
- nada reparei -

fiquei com dó de mim
perscrutando os abismos
intercalando indagações e lamentos
num dado momento a vida acenou da janela
- decidi sorri
r-lhe de volta -

Quem comigo comemora? Ele sempre, Chico Meu Amor Buarque de Holanda Olinda Brasil e do Mundo, cantando: Carolina - "Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo..."


domingo, 5 de setembro de 2010

Vai, Coração


(imagem recolhida na internet)


vai, coração

anda

vai para a vida

chega de tanta partida

de tão partido


vai, coração

vai sim

sorria para a vida

sim

mil risos sem fim


vai, coração

vivre au grand jour

na claridade da vida

sai da penumbra

desanoiteça


vai, coração

renuncia a sosinhez

anuncia seu regresso à vida

esqueça de se esquecer

vamos, eu te aqueço


Sempre que leio os poemas do Samarone, dá vontade de escrever e fazer esse exercício de intertextualidade.


Curtis Mayfield - People Get Ready, preciso dizer mais? No entanto se preferires com o Jeff Back, é válido também! Feche os olhos, sinta a música e pegue o trem, viaje!







quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sentir*

(imagem recolhida na internet)

um sentimento sacralizado
que prende e agoniza
em sua dubiedade, liberta e escraviza
- e nutre a existência -

que anula a realidade
provoca inquietude
alimenta vicissitudes
- mas não foge dele -

tudo ter
quase tudo ter
e não ter
- mas cristaliza -

esse sentimento demais
a cada dia mais
reverberando o grau de desejo
- mas subverte a ordem
-

quantas vezes se ouviu o silêncio
quantas vezes soprou o vento sul
quantas vezes girassóis floriram na janela
- apesar da paisagem inóspita -

cíclico
variantes (e variáveis)
flecha do tempo
- tiro certeiro -

esse sentimento ancestral
que movimenta espaços
derramando-se
- mas ignorado -

ser e mundo
revelando segredos
esgueirando-se
- mas fiel ao hermetismo -

silenciosa presença
quase sempre noturna
e uma saudade profunda
- mas contrapõe-se à vida -

*Especialmente para você, que me deu tanto, que me deu tudo. Inclusive essa (e outras) música(s)... E pelo nosso tempo.


Nei Lisboa - Pra te Lembrar. Precisa dizer mais? Cantemos: "Que que eu vou fazer pra te esquecer?/ Sempre que já nem me lembro/ Lembras pra mim/ Cada sonho teu me abraça ao acordar/ Como um anjo lindo..."

domingo, 15 de agosto de 2010

Flor de Cactus

(imagem recolhida da internet)

como dói
essa dor certeira
essa que insiste
e resiste
alheia
ao bramido

essa dor que rasga
mas não se vê o talho
queima sem lume
sangra mas não escorre
silêncio mortal

... mas ainda restam
a saudade
que se instala sorrateira
o percurso mental
a autopoiesis

e essa memória sempre-viva
feito flor de cactus
insistindo em brotar
na terra que já secou
em adiantada estiagem

e afiados espinhos...


Fátima Guedes - Flor de ir Embora... Oiçamos-na!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Contingência

(imagem recolhida na internet)

não era um ensaio de vida
um recorte incomum
de um tempo suspenso no ar
havia sempre um sol resplandecente
jogando seus raios no mar


intensidade e harmonia
entre cumplicidades e poesias
risos rasgados na boca
tanta esperança no olhar
uma cartografia da alegria


eis que por uma contingência
deu-se o imponderável
algo difícil de imaginar
transliteração
de uma existência para outra


e as palavras outrora tingidas de amor
caíram no esquecimento
desbotaram de saudades
sentidas, magoadas
com o silêncio absurdo da ausência


Tão Só - Pimp´s, do cedê: Nha Alma Já Revelá, mais música com a qualidade caboverdiana. Simplesmente amo essa música! Gosto do tom melancólico da voz do Dany, emprestado à canção. Só eu sei o que essa música causa em mim, só eu sei! Sintam-na, ouçam-na também com os poros. Uma pena que a maioria aqui não perceba o crioulo... Conheçam mais do Pimps aqui.


domingo, 8 de agosto de 2010

"Love Hurts"

(imagem colhida na internet)


é porque o sentimento pesa dentro do peito

e o coração petrificado de amor

nem bate nem apanha

entorpecido já não sente mais dor


Qual é a música desse momento? Só dá ela: Love Hurts Boudleaux Bryant/Felice Bryant-na inesquecível interpretação do Nazareth.




os pássaros engoliram a utopia

Se durante o dia o voo dos pássaros parece sempre sem destino,  à noite dir-se-ia reencontrar sempre uma finalidade.  Voam para alguma coisa...