quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Assombrosa Verdade

imagem: waldete cestari

então aquela assombrosa verdade
sem culpa e sem alarde
caiu como uma luva
em minhas mãos gélidas
- pela ausência do seu toque -

e meu olhar opaco perdido
vagava distraído
como as folhas soltas de um outono distante
escondido da emoção
- quando olhei para o lado já não estavas -

o mundo girou
a vida aconteceu
uma estrela explodiu
uma flor nasceu
- nada reparei -

fiquei com dó de mim
perscrutando os abismos
intercalando indagações e lamentos
num dado momento a vida acenou da janela
- decidi sorri
r-lhe de volta -

Quem comigo comemora? Ele sempre, Chico Meu Amor Buarque de Holanda Olinda Brasil e do Mundo, cantando: Carolina - "Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo..."


domingo, 5 de setembro de 2010

Vai, Coração


(imagem recolhida na internet)


vai, coração

anda

vai para a vida

chega de tanta partida

de tão partido


vai, coração

vai sim

sorria para a vida

sim

mil risos sem fim


vai, coração

vivre au grand jour

na claridade da vida

sai da penumbra

desanoiteça


vai, coração

renuncia a sosinhez

anuncia seu regresso à vida

esqueça de se esquecer

vamos, eu te aqueço


Sempre que leio os poemas do Samarone, dá vontade de escrever e fazer esse exercício de intertextualidade.


Curtis Mayfield - People Get Ready, preciso dizer mais? No entanto se preferires com o Jeff Back, é válido também! Feche os olhos, sinta a música e pegue o trem, viaje!







quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Sentir*

(imagem recolhida na internet)

um sentimento sacralizado
que prende e agoniza
em sua dubiedade, liberta e escraviza
- e nutre a existência -

que anula a realidade
provoca inquietude
alimenta vicissitudes
- mas não foge dele -

tudo ter
quase tudo ter
e não ter
- mas cristaliza -

esse sentimento demais
a cada dia mais
reverberando o grau de desejo
- mas subverte a ordem
-

quantas vezes se ouviu o silêncio
quantas vezes soprou o vento sul
quantas vezes girassóis floriram na janela
- apesar da paisagem inóspita -

cíclico
variantes (e variáveis)
flecha do tempo
- tiro certeiro -

esse sentimento ancestral
que movimenta espaços
derramando-se
- mas ignorado -

ser e mundo
revelando segredos
esgueirando-se
- mas fiel ao hermetismo -

silenciosa presença
quase sempre noturna
e uma saudade profunda
- mas contrapõe-se à vida -

*Especialmente para você, que me deu tanto, que me deu tudo. Inclusive essa (e outras) música(s)... E pelo nosso tempo.


Nei Lisboa - Pra te Lembrar. Precisa dizer mais? Cantemos: "Que que eu vou fazer pra te esquecer?/ Sempre que já nem me lembro/ Lembras pra mim/ Cada sonho teu me abraça ao acordar/ Como um anjo lindo..."

domingo, 15 de agosto de 2010

Flor de Cactus

(imagem recolhida da internet)

como dói
essa dor certeira
essa que insiste
e resiste
alheia
ao bramido

essa dor que rasga
mas não se vê o talho
queima sem lume
sangra mas não escorre
silêncio mortal

... mas ainda restam
a saudade
que se instala sorrateira
o percurso mental
a autopoiesis

e essa memória sempre-viva
feito flor de cactus
insistindo em brotar
na terra que já secou
em adiantada estiagem

e afiados espinhos...


Fátima Guedes - Flor de ir Embora... Oiçamos-na!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Contingência

(imagem recolhida na internet)

não era um ensaio de vida
um recorte incomum
de um tempo suspenso no ar
havia sempre um sol resplandecente
jogando seus raios no mar


intensidade e harmonia
entre cumplicidades e poesias
risos rasgados na boca
tanta esperança no olhar
uma cartografia da alegria


eis que por uma contingência
deu-se o imponderável
algo difícil de imaginar
transliteração
de uma existência para outra


e as palavras outrora tingidas de amor
caíram no esquecimento
desbotaram de saudades
sentidas, magoadas
com o silêncio absurdo da ausência


Tão Só - Pimp´s, do cedê: Nha Alma Já Revelá, mais música com a qualidade caboverdiana. Simplesmente amo essa música! Gosto do tom melancólico da voz do Dany, emprestado à canção. Só eu sei o que essa música causa em mim, só eu sei! Sintam-na, ouçam-na também com os poros. Uma pena que a maioria aqui não perceba o crioulo... Conheçam mais do Pimps aqui.


domingo, 8 de agosto de 2010

"Love Hurts"

(imagem colhida na internet)


é porque o sentimento pesa dentro do peito

e o coração petrificado de amor

nem bate nem apanha

entorpecido já não sente mais dor


Qual é a música desse momento? Só dá ela: Love Hurts Boudleaux Bryant/Felice Bryant-na inesquecível interpretação do Nazareth.




segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Presentes

(imagem recolhida da internet)



à alegria: um vermelho intenso para contornar lábios que sorriem

à esperança: um azul ultramarino e a travessia dos oceanos

às manhãs: dias brancos em searas seguras

aos sonhos: um arco-íris com potes de ouro ao final

aos dias chuvosos: lápis de gizes em tonalidades gris e sépias para circularem afinidades

às noites escuras: estrelas em amarelo ouro e cometas pratas para tecerem bordados de encantar

à solidão: um violino pigmentado pela garança e uma sinfonia de Chopin

à desumanidade: um canteiro de rosas de todas as cores e o livro Palomar, do Italo Calvino, para amolecer espíritos de pedras

aos desbotados: o cerúleo, a safira, a água-marinha e o mirtilo eternizados nas telas de Jan Vermeer

aos esquecidos: todo o registro fotográfico daquilo que foi uma vida e estar junto fazia sentido

aos atrasados: um relógio de bolso sem ponteiros para nunca perderem a hora

aos sedentos: água de flores guardadas em alguidá

aos amargurados: trufas recheadas de contentamento

aos que perderam a fé: a delicadeza de um filme do Jacques Tati

aos perdidos: a linha do horizonte para trazerem o que ficou distante

aos encontros: fogos de artifícios em explosão de cores como se fosse a paleta de Ticiano

para os dias de sol: uma rede em ocre e terracota para embalar pensamentos

às desavenças: chuvas de pétalas de flores construindo palavras de abraçar

aos desamores: licor de anis para tirar o gosto acerbo da alma

à saudade: o silêncio dos claustros, entrecortado vez por outra pelo vento suave a chamar cretcheu

aos reencontros: as 4 Estações de Vivaldi, nos jardins do Palácio de Cristal

aos afectos: o matiz castanho-sereno da estabilidade e do conforto seguro

à felicidade: uma caixinha de música, na tonalidade magenta, com uma bailarina dançando no espelho

à paixão: o fogo e sabor de um resfolegante beijo

ao amor: o brilho infinito que emoldura o meu olhar quando te vejo!




A manauara de voz linda, Eliana Printes, traz-nos sua bela interpretação da canção, Presentes - Kléber Albuquerque - cantemos juntos!



terça-feira, 27 de julho de 2010

Parindo Estrelas

(imagem recolhida da internet)


blindei o corpo
deixei o medo na gaveta
e o coração estendido no sal
ao sol
- já não batia mais no peito -

medi os palmos que me separavam da felicidade

mas não desenhei os passos
- esqueci-me –
não vi as flores no caminho
e nem o menor sinal do amor

engoli a solidão
bebi toda a saudade
transformei a amargura em vinagre balsâmico
- coisa do tempo –

segui sozinha
engravidei-me
não fiz cerimonia, nem alarde
o momento é de parcimônia
e parti

sem mágoas
ao crepúsculo
ao sabor do vento
muitas contrações depois
pari o firmamento

- transbordando de estrelas -

Passei o dia ouvindo essa música: Grávida - Arnaldo Antunes - cantada pela Marina Lima.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Devolva!

(imagem colhida na internet)



ei moço que tal devolver meu coração

que guardas no bolso?

e deixar que eu caminhe sozinha

que eu rompa em definitivo

essa invisível linha

que costura sentimentos

tão vivos e

vãos?


Fagner canta, Conflito - Petrúcio Maia / Climério - Ninguém escutou essa música mais do que eu. Será? Ouçam-na, é belíssima!



quarta-feira, 14 de julho de 2010

Verso le Tue Braccia Accoglienti

(imagem recolhida na internet)

pois que o meu sorriso e o meu olhar
sejam para além matéria de encantar
e que a minha boca carnuda resguarde do mundo
um mundo sonhado num instante inesperado

e a minha alma de passarinho voe sem escolher caminhos
por sobre o atlântico

que no estreito de messina
sejam um
(a dois, já diluídos)

deslizando suave todos os mares
adriático, jônico, lígure, mediterrâneo, tirreno

e a minha liberdade pronunciada em todos os nãos
seja a cada dia consubstanciada

sorridere radiosamente
diante do anunciado

e nosso refúgio cintile
como aquele brilho estelar
que captas voraz das retinas a cada encontro singular

nesse desavisado fortúnio
que chegou sem alardear

esplosione e desideri
come mi faccio avanti
in passi de un ballerino
verso le tue braccia accoglienti!


Nesse momento tá no repeat a música Quando - Pino Daniele - cantada pelos Neri Per Caso. Cantarolemos e sintamos..."Tu dimmi quando quando/ Dove sono i tuoi occhi e la tua bocca/ Forse in Africa che importa..."



sexta-feira, 2 de julho de 2010

Mar de Sal

(imagem colhida na internet)


como o mar
em movimento e espumas
que hipnotiza além-horizonte
que renuncia a carne e
lava a alma em sal
salmoura

como um navio abandonado
esquecido em qualquer porto
sem rangido ou gemido
partido em mil
milhões de partículas de sal
ao vento

como maremoto
infinitos deslocamentos
enchente atemporal
transbordando por dentro
essas águas de flores águas de sal
leva

deságua
enfurecimento líquido
desvio de curso
liquida esse inesperado percurso
nuvens de sal

enterra de vez discurso

no fundo do mar!


Eu adorei o comentário-poema-espelho do Salve Jorge:

Pra tanto mar
Alguma terra
Pra que ficar
Se a vida emperra
Empurra
Suplante a surra
Que vencemos a guerra
E o sal
Vira tempero
E não será exagero
Se até o mal
Mudar o canal
Deixar de destempero
O passado enterra
E num novo discurso
Seguir o curso
De mares nunca dantes navegados...




Geraldo Azevedo canta: Caravana - dele e do Alceu Valença. Sem perguntas e sem respostas, apenas ouça, cante e sinta: "Corra não pare, não pense demais/Repare essas velas no cais/Que a vida é cigana..."





































































voo cego

O corpo é o limite. O corpo é o que me impede de ser pássaro Alejandra Pizarnik A  Alejandra Pizarnik imagem:  Fernando de Noronha, Brasil. ...