o silêncio na cozinha
não era apenas a ausência de som
estava nas castanhas mofadas
na loiça suja dentro da pia
no lixo acumulado
e na roupa estendida no varal
o silêncio olhava para a sala de jantar
com os pratos vazios
ninguém sentado nas cadeiras
e o carrossel de imagens
rodando no deserto
que era preciso atravessar
o silêncio alardeava
sobre as mudanças acontecidas
tudo que estava abarrotado nas memórias
a luz acesa por esquecimento
quem sabe não deu tempo apagar
o silêncio dizia coisas
o silêncio contava do tempo
das inquietações
das gavetas abertas do armário
cheias de meias esquecidas
das dores que sangravam
espalhadas por todos os cantos
que o silêncio insistia em amordaçar
por não ter sido gritado
quando devia gritar e alcançar
o espaço que agora se apresentava
desolado e sem sonhos para sonhar
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XX - VI - MMXXVI
Zélia Duncan - Catedral
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