
imagem recolhida na iternet
Quando eu choro, eu choro mesmo, não faço economia de lágrimas, nunca fiz, choro, chorando; os choros todos que estavam guardados, muitos deles por falta de tempo de dar-lhes vazão, ou então pela invasão de tantas outras urgências, que vou adiando os choros que eu deveria chorar, e quando a necessidade se faz calamitosa, essa que estou chorosa, derrama um Nilo pelas retinas, nada me anima, nem mesmo a mais brilhante estrela no céu; nem flor, nem abraço, nem beijo, nem barco, nem pêssego, nem pão quente de manhã, nem café, nem avião de papel, nem aquela melodia d´Ella, que o vento me traz, na calada da madrugada, nada, nada. Então me ponho a nadar, entre as lágrimas que quase chegam a me afogar. Me afogo fácil me distraio com a simplicidade da vida, um pé de margarida, aquela borboleta que fica borboleteando na minha varanda, a gata branca que tenta alcançá-la, ou me convida para brincar, ou com a flor que desabrocha quando esperávamos tanto e o esquecimento nos brinda com o inesperado mais esperado. Aquela carta que nunca imaginei receber, ou a poesia que nasceu, mesmo quando acabei de esquecer.
Choro pelo livro que nunca li, pelo romance que eu não vivi, pela dor de quem nem conheço ou conheci, pela minha frustração e pela do meu irmão; pela saudade de quem conheço e está longe, até por quem desconheço e em algum lugar do planeta, se esconde. Choro. Choro pelas coisas banais e profundas, pelos desencontros do mundo, pelos amores que findam, pela atenção que mingua. Choro até pelo que não sei, mas está guardado bem fundo nesse coração fecundo, um poço tão infindo que mesmo desmaiando não chego ao seu profundo e nem caibo nele, porque nem tamanho tenho... Flutuo pelo mundo feito pluma sem destino.
Olinda, X - IX - MMIX
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Quem eu escuto? Sim, é Ella mesma, The Man I love, cantarolemos, roucamente baixo: "... Maybe I shall meet him Sunday/ Maybe Monday, maybe not..."