«Se tivesse de procurar uma palavra que substituísse "música" poderia pensar em "Veneza".»
Friedrich Nietzsche
(à espera do waterbus)
A cidade parecia
ter acabado de ter as lanternas acesas por algum anjo que a queria deslumbrante
para me receber, e eu, alumbrada, com o nariz esmagado contra a janelinha do
avião, olhava os pontos salpicados de luz lá embaixo demarcando o espaço...
Pena que era noite e não pude ver o plano urbanístico de cima, com a luz do sol
a refletir no Adriático e mergulhar na sua imensidão e me encontrar sereia em
algum ponto ou porto...
Enquanto esperávamos o ônibus que nos levaria do aeroporto Marco Polo, deambulei sobre o navegante croata-veneziano, no/o que ele sentia, quando atravessava a infinidade de canais e saía para desbravar e percorrer mundos, até chegar à Rota da Seda; o encontro com Kublai Khan (o neto de Gengis Khan). Eu nem de longe ouso invocar o espírito do grande navegador, conquistador, narrador de histórias, tão elogiado n´O A Descrição do Mundo (algum tempo depois: As Viagens de Marco Polo), as glórias, as conquistas, recheadas de detalhes riquíssimos e emoções incomuns. Mas tão somente externar o brilho de minh' alma quando estive lá: Veneza!
(as gôndolas)
Pensamentos
furtivos confundiam-se com a realidade, agora já no waterbus que nos levaria ao
hostal, em Giudecca. Viajar para Veneza, é um destino insólito, completamente
diferente de tudo, de todas as cidades que já visitei aqui na Europa. Só dei
por mim que estava a chover, quando o vento frio, e as gotas de chuva começaram
a incomodar.
A beleza das
pontes, por mais simples que sejam, tornam os canais em autênticos espelhos
d´águas, onde refletem as edificações antigas; os raios da lua e os nossos olhos
brilhantes. As gôndolas sempre de cor preta - uma lei datada de 1562,
oficializou a obrigatoriedade, dizem que foi o sinal de luto, em função da Peste Bubônica, que dizimou milhares de venezianos; há quem discorde e diga que foi
em função da cidade ter sido conquistada por outra nação; e há quem fique com
as duas versões - com assentos revestidos de tecido de veludo, vermelho,
deslizam suave, e as águas batendo contra as paredes de palácios
seculares, sempre com um casal apaixonado a bordo, ainda que seja ao cair
da tarde. E as águas vão criando movimentos e desenhos, a cada remada do
gondoleiro, a cada gôndola que cruza a outra. Quanto para se ver nessa cidade,
quanto romantismo impregnado na aura, no mar e nas ruas...
As casas coloridas que ladeiam os canais (sem o excesso de cores berrantes)
parecem tramas de ouro a comporem outras paisagens, nas ruas dos (seis) bairros
centrais, algumas de pedras, os velhos candelabros, lampiões acesos, os vários
jardins, os jasmins perfumando o ar emprestam mais do que uma atmosfera
mediavalesca, mas um romantismo incomparável. A cidade transcende qualquer
definição; a cidade promove e provoca os encontros, o amor! Não há lugar mais
apaixonante que Veneza, não há!
Hora de
descansar, tomar um banho, comer algo e esperar o dia seguinte, com sorte
teríamos sol. Olha o soli, gente! Que belíssima composição: sol, céu
azul, nuvens brancas, as gôndolas, as pontes, o Adriático e nosso
des-lum-bra-men-to! Atravessar o Grande Canal e olhar para a imensidão de
belezas ali, não é um fato comum, ao menos para mim: aportar nas proximidades
da Praça de São Marcos, o “estacionamento de gôndolas”, os charmosos rapazes,
com bíceps definidos, robustos, de calças pretas, camisas listradas em preto e
branco, chapéu preto com fita, a tentarem te convencer que és um tonto se não
desembolsares 80 € por um passeio de 40 min, ocasião em que eles te
mostrarão todo o encanto da cidade...!
(Ponte dos Suspiros)
Ali, olha, a
Ponte dos Suspiros (construída em 1602), Dios Mio! Que lindinha, pequenina,
branca, nas proximidades da Piazza San Marco. Essa ponte, liga o Palácio Ducale
à Prisão Nove, segundo historiadores, foi o primeiro edifício no mundo
construído com a intenção de ser uma prisão, era por ela que os acusados
pela Inquisição do Estado, seguiam para julgamento. Segundo a lenda tem esse
nome porque “em tempos remotos, os prisioneiros (atravessando-a) suspiravam na
ocasião de ver pela última vez o mundo externo.” E ali estava eu, minha pessoa
a caminhar pelas ruas, vielas da Rainha do Adriático, lugar que
serviu de palco de tantas histórias (e ainda serve), de filmes, quantos
foram realizados ali: Anônimo Veneziano (Enrico Maria Salerno -
1970); Morte em Veneza (Luchino Visconti - 1971); A Little Romance
(George Roy Hill - 1979); Todos dizem Eu te Amo (Woody Allen - 1996) e quantos
mais?´
Passear em
Veneza é um constante reencontrar-se e deslumbrar-se com a arte, com a
arquitetura e paisagem única de uma das mais belas cidades do mundo. A Praça de
São Marcos toma-nos o fôlego, é necessário respirarmos fundo e nos refazermos
com calma para poder prosseguir às descobertas em cada uma das ruas (mais de
400 pontes), numa cidade que foi construída em 118 ilhas, um espanto em números
e em sua natureza única, em sua composição renascentista; em suas praças,
museus, palácios, igrejas, mercados e naturalmente seus canais. Veneza é
impactante, ninguém fica indiferente a ela, ninguém! É um museu a céu aberto,
ao ar livre, quase 100% dos seus prédios são qualificados pelo Patrimônio
Artístico e Cultural da Humanidade.
(Palácio Ducal)
Uma cidade que em pleno século XXI, um dos destinos mais procurados do mundo, com toda a tecnologia da pós-mordenidade, e os pormenores de uma "cultura babélica” têm características marcantes e vivas do século X, data desta época, as gôndolas e provavelmente o mais conhecido símbolo da cidade, além das máscaras.
A melhor forma de se encontrar em Veneza, é perder-se nela, ainda que disponhamos de mapas, e é quase impossível (no meu caso é impossível mesmo, porque sou desorientadinha, e não há mapa que me salve, e claro, perdemo-nos!) não perder o prumo, quando embranhamos por aquelas ruelas interligadas por pontes, escadarias, casas com varandas e flores esparramadas em toda a extensão, parece que estamos em canais gêmeos, onde circulam toda a vida da cidade, mas não é verdade, isso é a deixa para a perdição e encontração.... Porque apesar do charme das gôndolas, dos barcos-taxis, dos vaporettos, Veneza é pra ser vivida, degustada, engolida, descoberta, sentida, a pé, só então que nos livramos de certo modo, do fluxo surreal e absurdo de turistas, só então as bucólicas e românticas ruas surgem e, nos deparamos com outra Veneza.
(a caminho do Rialto)
Surpresa grata, ao chegar, nas proximidades da Praça São Marcos, ouço os acordes de piano e me aproximo, a pianista executava Brasileirinho, então fiquei ali compenetrada e feliz, sentindo a música. Ao final, aplaudi-a: bravo! Bravo! Um sorriso definitivamente é o melhor cartão para alguém, ela agradeceu e então percebeu que eu era brasileira, foi a deixa para ela tocar, “Garota de Ipanema” e “Aquarela do Brasil”, uma delicadeza só. Seguimos rumo à Praça de São Marcos, enfim... Seguramente a praça mais famosa do mundo; à primeira, à segunda, à terceira e à todas às vistas, a imagem é quase um desmaio, “parece um grande salão de mármore com galerias em todo o seu redor”, naturalmente que a economia capitalista está presente, em todos os lados, há cafés, lojas, bares, o comércio é variado e caro. Prepare-se para gastar, Veneza consegue ser mais cara ainda que Paris, sim senhora! Um "dos mais famosos e frequentados bares pelos endinheirados é o Harri´s Bar, o dito, foi frequentado por personalidades como Ernest Hemingway, Thomas Mann, George Sand " , entre outros.
Não encontro um
adjetivo à altura para descrever a praça que meus olhos agora capturam, fui
engolida por ela, saí de dentro de mim, ajudada pelas lágrimas. Quando eu me
emociono assim diante de algo bonito, seja humano ou inumano, eu desabo no
choro, é a minha voz da emoção. Explanar tecnicamente sobre o valor do conjunto
arquitetônico da Praça de São Marcos, não é o meu objetivo, existem inúmeros
especialistas que tratam disso, aqui é só mais um relato, meu, com a minha
ótica, sobre uma viagem cujo destino é o mais indelével em mim.
(Rialto)
Fiquei em êxtase, quando saindo do Grande Canal em direcção ao Rialto, passamos diante da casa de Marco Polo. Confeso-lhes que à ida à Veneza, valeram cada um dos euros gastos; ter visitado a Praça de S. Marcos com a sua Basílica, Torre do Relógio, Campanário, Palácio Ducal, Ponte dos Suspiros, Ponte de Rialto, Igreja dos Santi Giovanni e Paolo, Igreja Il Redentore, Basílica de Santa Maria della Salute (e outras igrejas não tão famosas assim, em Giudecca), e o que mais se-lhe-nos apetecer. Andar a pé, misturar-se com aquela multidão ensandecida de todos os lugares do mundo, nas mais variadas línguas, é sem dúvida a melhor maneira de curtir e entrar na alma da cidade, da mais linda cidade do mundo (ao lado do Rio de Janeiro). Diluirmo-nos nas águas da cidade....
(Ponte do Rialto)
Espalhamo-nos pela cidade, misturamo-nos com as pessoas, descobrimos a vida que pulsa, que brota e que transpira e que passa em Veneza. Participei na fotografia de família de um casamento que acontecia na Praça de São Marcos, sem ser convidada, naturalmente, quando dei por mim, já estava na fita.
(na foto da família, em um casamento)
Sentamos em num café em Rialto e ficamos observando o trânsito das embarcaçõesnos canais, um engarrafamento, em verdade. Depois, fomos a uma trattoria e nosdeliciamos com uma pasta,de sobremesa, sorvete de pistachio, adoro!
Uma caminhada até à Bienal de Veneza,
(Bienal de Veneza)
e quando não resistimos mais ao cansaço, sentamo-nos numa fonte, num centro do Mercado do Rialto, e comemos morangos, vendidos ali mesmo, em copos descartáveis.
(Mercado em Rialto)
E ainda mais uma vez, fiquei a pensar em Marco Polo, e recuperei o diálogo entre ele e Khan, no livro do Italo Calvino, As Cidades Invisíveis:
«Marco
Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
-
Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Khan.
- A
ponte não é sustida por esta ou aquela pedra - responde Marco,
-
mas sim pela linha do arco que elas formam. Kublai Khan permanece silencioso,
refletindo. Depois acrescenta:
-
Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa. Polo responde:
-
Sem pedras não há o arco.»
E esse poste de ferro, aí
embaixo? Nada não, é para matar as minhas saudades do meu Recife. Mas essa
imagem, é Veneza, embora pareça com o Recife.
A música? Poderia ser outra? Venecia sin tí, com o Aznavour...