terça-feira, 13 de janeiro de 2026

caminhar

O caminho de dentro
é um grande tempo

Hilda Hilst

imagem colhida da internet

caminhar sobre o arame retesado
sem vara para equilibrar
sem rede de proteção

tão distante
tão alto do chão
tocando o céu

guiada pelas estrelas
e o vento noturno
pendular

calcanhar ante calcanhar
o medo no entre lugar
e o fio fino da coragem

cada passo é um sim
cada passo é um não
enquanto o silêncio

do outro lado estende a mão

---


Caminhar | Beraderos part. Milton Nascimento

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

nômade

Enquanto isso as nuvens são brancas e o céu é todo azul.

Clarice Lispector



imagem: arquivo pessoal

essa alma nômade
esse sentimento cigano
esse gozo de mundo

a não-pertença
sou de lugar nenhum
nem a mim mesma pertenço

sou sem raiz
nuvem ao léu
vagueando na imensidão do céu

--

Djavan, Cigano

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

mistério

Com alegria, o clarão
Do novo dia amanhecendo.
Esta vida é estupenda
E seja sábio o coração

Anna Akhmátova


imagem arquivo pessoal


acordei e perguntei:

por quê?

que mistério é esse

que se renova a cada amanhecer

como se fosse num passe de mágica

sem barulho

sem pressa

sem dificuldade

sem alarde

e lá está o dia nascendo outra vez?

Beto Guedes - Luz e Mistério

domingo, 4 de janeiro de 2026

pipa

[...] como se o (meu) impulso para o horizonte
dependesse de um milagre
que habita o coração das pipas

Valda Colares em O menino, o tempo e o coração das pipas


vídeo: arquivo pessoal

sou como uma pipa rasgada
dependurada numa árvore

balançando
presa entre galhos

como um sonho interrompido
que o vento ainda insiste em lembrar...

isso não é sobre pipas.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

um amor de saudade


E eu sozinha com minhas vozes, 
e tu tanto estás do outro lado
que te confundo comigo

Alejandra Pizarnik.



imagem colhida na internet


eu só te amo
quando estou contigo

depois que tu te vais
eu não te amo mais 

só te amo ali
naquele instante pontual

entre o passado e o presente 
entre o ontem e o agora

e naquele espaço do nunca mais
talvez seja esse amor

um amor de verão 
um amor de uma estação 

um amor de saudade
daqueles que de-moram no coração

--

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O mar

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

Sophia de Mello Breyner Andresen



(imagem colhida na internet, desconheço a autoria)


Eu amo o mar
Amo a fúria do mar
Quando ele vem com uma cara fechada

Quebrando ondas
Despejando sua braveza na praia
E engole a areia

Depois cospe

Enquanto permaneço 
Extasiada no balé 
Das águas

Bailando nas torrentes do meu desejo




segunda-feira, 13 de maio de 2024

Gaza

                                      Gaza

imagem colhida na internet (desconheço a autoria)

A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

 Sophia de Mello Breyner Andresen

 


vai

pega uma folha de papel em branco e escreve

escreve

até sobre a saudade que invade o teu coração

 

ah, não pode

não pode não

o mundo está em guerra

um horror

 

horrível

e por onde anda

a saudade que brotava dos teus olhos ingênuos

da cor de cajá?

 

e aquela natureza de rio calmo

sereno

coisa de interior

de gente que nem sentiu ainda a maldade do mundo

 

não

não pode não

o mundo está em guerra

não dá para falar da saudade da paz

 

nada de paz

a pombinha branca da paz

aquela

carregando um raminho verde no bico


jaz

ali entre os escombros

debaixo daqueles destroços

na Faixa de Gaza

 

mataram a pomba branca

e a paz

e as crianças

e as mulheres

 

e os velhos

mataram.

mutaram.

mataram.

---

2024.


Bob Dylan, Blowin' in the Wind

sábado, 25 de março de 2023

b17

Os cães não ladraram
 os anjos adormeceram
 a lua se escondeu.


imagem colhida na internet, desconheço a autoria

a poesia louca e desordenada
arrastava correntes
e gritava pelas ruas

apagava as palavras 
debochava das rimas
eliminava as metáforas

quebrava o ritmo
demolia o movimento
e renegava as musas

a poesia louca em desvario
gritava pelas ruas
com um riso diabólico

anunciava
o epílogo dos sonhos
o fim do amor

e a morte dos poetas.

---

Escrevi esse poema, aquando da instalação do desgoverno obscuro (e da necropolítica), de vocês sabem quem.


Porto, XXVI - I - MMXIX

Maria Bethânia interpreta, Quem me leva os meus fantasmas, de Pedro Abrunhosa.

quinta-feira, 23 de março de 2023

bebe-te a ti mesmo

"Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos"

Murilo Mendes em Cantiga de Malazarte

imagem colhida na internet, desconheço a autoria

se não tens o que beber
bebe-te a ti mesmo
saboreia a essência
do que és

se não te agradas
o que bebes
muda o interior
muda inteiro

mas não esqueças
todavia 
de deixar pequenas doses
de ocre

de sal
não exceda no amargo
dosa
ponha uma pitada de mel

sonhos e risos
se possível
e deixa envelhecer 
num barril de carvalho

espera a maturação
intensifica
fica
deixa o oxigênio entrar gradualmente

pelos poros da pele
pelos poros da madeira
aveluda
se iluda

e todo dia
dilua os sonhos
as ilusões
e se embriague de realidade

---

Cascais, XVIII - VIII - MMXIX

Beth Hart - I'd Rather Go Blind

terça-feira, 21 de março de 2023

não entendo de pássaros

"Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci"?

Alexandre O’Neill, in De Ombro na Ombreira, 1969
imagem - arquivo pessoal

eu não entendo de pássaros
seus nomes
seus cantos
sua natureza
das estruturas que os compõem
nem da aerodinâmica dos seus voos 

entendo do silencio da noite
do céu negro
estendido como um tapete de veludo
salpicado por pequenos pontos luminosos
que envolvem a terra
e que brilham distantes
nessa composição etérea

eu não entendo de lua crescente
quase uma vírgula
a explicar o contexto
que o tempo é o que existe
entre um espaço e outro
que organiza o movimento
e as coisas
e que diz que é preciso respirar

eu não entendo de pássaros
mas de silêncios
de noites
de estrelas
de lua
de planetas
e mistérios

entendo da alegria
que sinto
quando estou em Lisboa
sua luminosidade
cada raio de sol
que entra pela fresta da janela
e vem me despertar
sem alarde anuncia
que começa de novo
um novo dia

e nele vamos estar

---

Lisboa, II - X - MMXIX


Camané, A luz de Lisboa [Claridade]

domingo, 26 de fevereiro de 2023

da cor do girassol

"Eu tenho um pouco de girassol".

Vincent Willem van Gogh

                                                                 
                                imagens arquivo pessoal, da minha plantação de girassóis

restos de amarelo
amarelo Van Gogh
com rajadas em castanho

como as sementes de girassol
caule esverdeado
como os olhos-tentação

que me perscrutam 
há mil anos-luz
seduções diurnas

como a luz do verão em Paris
como o brilho de Arles
como o sal do Mediterrâneo

como o sol do meu país
que guarda imensas primaveras
para desabrochar em teus lábios

desenhar flores em teu sorriso matinal
cobrindo com pétalas flavescentes
as marcas dos teus passos

no eterno caminho de nós dois.

Um dia aí, em MMXVI

Quem sabe isso quer dizer amor, Milton Nascimento

caminhar

O caminho de dentro é um grande tempo Hilda Hilst imagem colhida da internet caminhar sobre o arame retesado sem vara para equilibrar sem re...